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A liga milionária de 'Overwatch' ainda é uma realidade distante no Brasil

Enquanto lá fora a Overwatch League paga salário (em dólar) e benefícios, jogadores brasileiros sonham em dividir um prêmio máximo de 5 mil reais.
27 Setembro 2017, 6:24pm
Foto: Blizzard/Divulgação

Se você fosse um jogador ou jogadora profissional entrando hoje na Overwatch League, a liga mundial principal do jogo, para representar um dos 12 times que competirão no hemisfério norte, você receberia pouco mais de quatro mil dólares por mês e benefícios como seguro saúde e um ano de contrato. Se você por outro lado entrasse hoje no Overwatch Campeonato Brasileiro, sonharia com uma das seis partes dos cinco mil reais do prêmio do primeiro colocado, mas só depois de jogar quatro meses com pouca ou nenhuma remuneração. Se tivesse um pouco de sorte, poderia conseguir arrancar algum trocado abaixo do salário mínimo da sua equipe.

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O contraste é claro. A Overwatch League é o investimento mais recente e mais ostentador da Blizzard em seu cenário competitivo profissional. A liga envolverá nove equipes dos EUA e três do outro lado do oceano, Inglaterra, China e Coreia do Sul, e premiará 3,5 milhões de dólares aos times ao fim da temporada, que irá durar um ano. As partidas começam em 6 de dezembro.

Fãs norte-americanos da liga de 'Overwatch'.

No Brasil, o Overwatch Campeonato Brasileiro tem autorização da Blizzard para ser disputado, mas não tem envolvimento dela na organização. Em sua primeira edição, que já está acontecendo desde agosto de 2017, oito equipes disputam a fase de grupos e quatro se classificam para o mata-mata de fim de ano. Os 10 mil reais totais são distribuídos apenas entre esses quatro finalistas, enquanto os outros não recebem nada. Proporcionalmente e arredondando para cima, isso é 0,3% da premiação da liga gringa.

"A OWL é uma das maiores quebras de paradigma do esport até então", comenta Felipe "TonelloTV" Souza, narrador e analista brasileiro do jogo desde sua fase beta. A Blizzard irá apostar todas as fichas no cenário norte-americano e tomar uma atitude inovadora com o sistema de franquias, aos moldes das ligas de futebol americano (NFL) e basquete (NBA), em que cada equipe representa uma região dos países.

Tonello lembra o choque que foi o anúncio do investimento em dinheiro na liga, principalmente pela audiência do jogo não estar nem perto daquela dos gigantes League of Legends e Counter Strike: Global Offensive. "A importância do Overwatch até o início da Overwatch League está muito qualitativa no que eles querem fazer e nos projetos que estão abraçando. Em relação a números, até pela vida do jogo, não vejo Overwatch como um top 5 [de visualizações] mundial".

Brincando, Tonello compara a expectativa do público sobre a Overwatch League com Death Note, que foi um filme grande com muita hype que ficou ruim no fim das contas. "Eu não acho que a OWL esteja sendo ruim para o que eles estão propondo. Eu vejo ela como algo anunciado tão grande e mundial que muita gente, principalmente quem não está envolvido diretamente com Overwatch , está achando que vai dar errado." Tonello cita Thorin, um dos maiores especialistas em esports no mundo que já passou meia hora falando sobre os desafios para a OWL funcionar. "Ela vai ser boa, mas ainda é um projeto que vai demorar um tempo. Não vejo nada dando certo nesse início, porém a Blizzard teve uma atitude muito ousada de tentar algo assim", completa Tonello.

"E aqui na América do Sul a gente vai ficar chupando o dedo", disse o narrador. O que se chama de cenário latino-americano de Overwatch hoje é composto por duas ligas principais, o Campeonato Brasileiro e o Circuito Sul-Americano de Overwatch (SAOC), nenhum deles oficial. O nome dado a esse estilo de competições é "circuito aberto", em que terceiros fazem campeonatos próprios com a autorização da detentora dos direitos do jogo.

"Lá fora funciona muito bem o circuito aberto porque as empresas são gigantes e o pagamento é melhor. Enquanto no Brasil, o SAOC são três ou quatro caras que organizam", lembra Tonello. Em nossa conversa, ele comentou sobre o Campeonato Brasileiro, afirmando que "[A Promo Arena] deu um fôlego para o cenário que, se não fosse isso, não existiria mais cenário [de Overwatch] e eu não estaria aqui conversando com você."

O circuito fechado, em que a criadora do jogo limita os campeonatos apenas aos seus próprios, dá mais segurança aos jogadores aos olhos de Tonello, por ser um investimento direto. "Concordo que poderia ser algo maior em termos financeiros para que o jogador [brasileiro] pudesse viver disso, mas acho que não tem público correspondente para isso e, em termos nacionais, não exista dinheiro para bancar um campeonato assim", analisa Tonello.

Overwatch custa pelo menos 160 reais no Brasil, e o narrador lembra que só isso já é uma barreira para potenciais novos jogadores profissionais e para o crescimento da comunidade competitiva, que podem só conseguir investir em jogos gratuitos. "O cara que não tem dinheiro para quase nada vê no League of Legends um sonho. Ele tem um PC horrível, mas roda LoL na "torradeira" que ele tem e vê isso como um sonho e corre atrás", comenta. Ele supõe que o jogador de Overwatch, por outro lado, precisa tem uma condição financeira melhor para poder comprar o jogo e começar a treinar.

Além da dificuldade de captar novos talentos, o cenário brasileiro tem dificuldades de manter os que já existem pela falta de estrutura e investimento. "É difícil para o cara decidir se foca na faculdade ou joga um jogo que não sabe se vai dar futuro. As situações são bem diferentes", comenta Tonello. "É uma insegurança e um certo medo de que a gente não consiga segurar, que eventualmente acabe o Overwatch Campeonato Brasileiro, não exista outro campeonato e o cenário não exista mais. Isso não é uma coisa de curto prazo, mas não quero que aconteça e eu trabalho para que não aconteça", comenta Tonello.

Por sua vivência, o analista conclui facilmente sobre as consequências do contraste entre a América Latina e a liga multimilionária no exterior. "A diferença principal da Overwatch League e o cenário brasileiro, ou latino-americano, é que o nosso cenário de Overwatch é feito pela comunidade. A OWL tem toda uma guia e muito dinheiro envolvido. [Na América Latina] o cenário é comunitário e a gente faz o que pode, e conta com a ajuda de todo mundo que quiser apoiar de qualquer maneira. É o mesmo jogo, mas são duas realidades completamente diferentes."

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