Memórias do isolamento
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Memórias do isolamento

Há 43 anos, Rita de Cássia vive no Hospital Colônia Curupaiti, no Rio de Janeiro, desde que foi afastada de sua família em decorrência da hanseníase. Aqui, ela conta sua história.
Marie Declercq
conforme dito para Marie Declercq
24 Abril 2017, 2:23pm

Foto no topo: Rita de Cássia acena na janela de um dos prédios do Hospital Curupaiti. Todas as fotos são do arquivo pessoal de Rita.

Entre 1920 e 1980, era prática comum no Brasil internar e isolar compulsoriamente pessoas com suspeita de hanseníase. A doença conhecida popularmente como lepra era temida pela população, vista muitas vezes como um castigo divino. Hospitais colônias foram construídos pelo país para abrigar as pessoas contaminadas. No isolamento, os pacientes eram separados de suas famílias, amigos e até de seus filhos. Os poucos que saíam das colônias eram excluídos pela sociedade por carregarem o estigma do leproso. Por isso, muitos pacientes continuaram vivendo nesses hospitais mesmo depois do fim do isolamento compulsório por aqui na segunda metade dos anos 1980.

Rita de Cássia, 63, é um desses pacientes. A Mãe Rita, como é conhecida no Hospital Colônia do Curupaiti, foi internada com apenas 20 anos no gigantesco hospital, situado no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Passados 43 anos, Rita nos contou sua história marcada pelo terrível período de isolamento compulsório de hansenianos.

*Em depoimento à Marie Declercq.

Minha história no Hospital Colônia Curupaiti começou quando estava grávida da minha filha. Durante o pré-natal, a doutora percebeu uma coisa estranha na minha pele e pediu para que eu ficasse mais um pouco [no hospital] para realizar um exame. Quando saiu o resultado, o tratamento dessa mesma médica mudou completamente. Cheguei perto dela e logo ela se afastou e me entregou uma carta dizendo que eu estava "excluída".

Não via nada de errado comigo, não entendi como eu estava "excluída". Perguntei o motivo da exclusão, mas em resposta a médica disse que eu deveria ir até o posto de saúde. Assim que saí da sala, a ouvi dizendo para enfermeira que era para tirar [de uso] tudo que entrou em contato comigo e jogar no incinerador.

Eu tinha 20 anos, estava grávida e sozinha. Fiquei indignada com aquele tratamento. Reclamei na hora com essa médica e disse que poderia processá-la. Ela me disse que era assim mesmo que tinha que ser. Assim que saí do Hospital do Servidor [no Rio de Janeiro] tive vontade de me matar. Não sabia o que estava acontecendo comigo, mas pedi a Deus força para cuidar da minha filha que estava na minha barriga e no dia seguinte peguei um ônibus até o posto de saúde. Só que lá também não me falaram o que eu tinha. Só me encaminharam de novo para outro lugar. Jamais imaginei que seria o lugar onde moro até hoje.

Em 1974 pisei pela primeira vez no Hospital Curupaiti. Quando entrei naquele complexo enorme eu era uma mulher bonita. Tinha um cabelão, era uma grávida bonita. Estava indo para lá sem saber o que estava acontecendo comigo, sem nenhuma resposta, apenas estava lá porque tinham me mandado. Lembro que ao chegar no hospital, usava um vestido xadrez curto. Chamava a atenção. Naquele momento em que adentrei o complexo, os homens que trabalhavam na portaria mexeram comigo, surpresos ao verem uma moça tão bonita em um hospital-colônia como aquele.

Chegando ao pavilhão masculino, vi um homem em uma cadeira de rodas no corredor. A aparência dele era monstruosa. Ele não tinha as pernas e nem os braços e o corte de cabelo dele era bem agressivo, parecia um moicano. O rosto era todo deformado. Vi os olhos dele pairarem em mim, até que ele começou a mexer comigo agressivamente. Fiquei apavorada, com medo de ser agarrada por aquele homem, mesmo que a condição dele não permitisse nada.

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Uma moça de jaleco branco naquele corredor me perguntou o que eu estava fazendo lá. Eu estava chorando, assustada com tudo aquilo, com esse mundo tão triste. Foi ela que me pegou pelo braço e me tirou do pavilhão masculino. De fato, eu não parecia pertencer àquele lugar.

A moça de jaleco me levou para outro setor e um médico veio falar comigo e logo me disse que eu teria que ficar no hospital, internada e sem poder voltar pra casa. Foi tudo muito rápido. O médico falou comigo e me levaram para um outro pavilhão e deixaram entrar em contato com a minha família. Até então, ninguém me disse meu diagnóstico. Ainda estava no escuro.

Uma semana depois de ser internada no hospital-colônia, com tamanha pressão e confusão, entrei em trabalho de parto. Estava apavorada, sem saber o que estava acontecendo direito. Na enfermaria onde me colocaram, havia vários pacientes com diferentes estágios da doença que eu sequer sabia o que era — muitos deles estavam completamente deformados. Foi em uma daquelas salas onde dei à luz.

Chorando de dor, pedi para segurar minha filha recém-nascida e não deixaram. A levaram para longe. Só ouvi que ela nasceu perfeita e assim a levaram pra longe de mim. Sem me explicar por quê. Só consegui ver o rostinho da Giovana porque a moça ficou com pena de mim e me mostrou a bebê a dez metros de mim.

Longe da minha filha, fui levada para outra sala, chorando. Era uma tristeza grande que não cabia em mim. Na mesma sala, havia uma senhora que estava gritando e chorando muito e fui tentar acudi-la. Disse para ela se acalmar. Uma das pernas da senhora havia sido amputada; ela já não tinha uma das mãos e seu rosto estava comprometido. Era como ver um filme de terror. Nisso, aquela senhora disse para eu não ter pena dela e que, como eu era muito nova, ainda teria muito tempo pela frente para ficar deformada como ela. Me revoltei, já que não entendia como uma doença poderia me deixar daquele jeito. Perguntei como ficaria assim e ela me disse que eu tinha lepra, assim como todos naquele lugar.

Foi então que descobri que estava com hanseníase.

A enfermeira ficou surpresa ao entender que eu não sabia da hanseníase. Achava que o médico havia avisado desde o primeiro hospital onde fiz o pré-natal. Essa enfermeira também disse que era uma ex-paciente do hospital. E só muito tempo depois descobri que ela não era paciente, mas estava lá como única forma de acompanhar o filho doente, internado no Curupaiti.

Me acalmei quando minha mãe chegou para me ver. Ela não podia ficar muito tempo comigo por causa do meu irmão e meu pai — que, na época, estava internado em um Hospital Psiquiátrico no Engenho Novo, na Clínica do Doutor Eiras e o meu irmão João Carlos estava preso. Além disso, minha mãe tinha os meus irmãos para cuidar. Lembro que ela foi embora prometendo voltar naquela mesma semana.

Sem minha mãe, a enfermeira foi quem conversou comigo sobre a situação da minha filha. Ela me informou que Giovana seria encaminhada para o Educandário Santa Maria no Jacarepaguá. Assinei os papeis para ela ser transferida, já que minha mãe já tinha muita gente para cuidar da família.
Após assinar os documentos para transferência, minha meta era me tratar para sair o mais rápido possível do hospital e reencontrá-la.

Comecei a fazer o tratamento logo após ter minha filha e trabalhar na enfermaria depois de três meses que havia chegado no Curupaiti. Lá eu ajudava a fazer uma coisa chamada pacote. Não sabia direito o que era até uma senhora falecer no recinto e me chamarem para ajudar. O pacote nada mais era do que enrolar os mortos em um lençol branco. Vi também muita gente sofrendo: feridas no corpo, caroços vermelhos, a pele vermelha desacamada. Elas gritavam de dor. A morte era comum na enfermaria por causa da dor, da febre alta e mal nutrição.

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Minha mãe não gostou da minha decisão de mandar minha filha para o educandário quando voltou para me ver uma semana depois, mas expliquei que aquela era a minha decisão. Pedi pra ela me visitar junto com o resto da família e procurar ver minha filha também. Já sabia que estava segregada de todos os outros aqui dentro. E sabia que uma vez que você entra, não podia mais sair.

Não restou outra opção senão tocar minha vida. Sempre trabalhei aqui dentro e recebia por isso. Com o peito doendo, cheio de leite, passei pelo período mais triste. Pensava se minha filha estaria sendo bem alimentada. Essa sensação ruim existe até hoje em mim, nunca passou. Só depois entendi que os médicos achavam que a doença poderia ser transmitida pela amamentação.

Fiquei quase um ano trabalhando na enfermaria. Aprendi muita coisa sobre a função e a própria doença. Eu não tinha aquela aparência que via diariamente [em outros pacientes]. Saí da enfermaria e trabalhei como copeira, depois passei para a lavanderia, pra rouparia, aprendi de tudo aqui dentro. Sei trocar curativos muito bem, dar medicação oral. Só aplicar injeção e colocar a sonda que me dava uma pena muito grande. O resto eu tirava de letra.

A chefe da enfermaria se chamava Elsa Sampaio e era muito legal. Deixava a gente jogar buraco, bingo. O salário era pouco para os doentes como eu que trabalhavam no Curupaiti e a gente esperava um bom tempo para receber. Estávamos presos aqui dentro, mas tinha de tudo. Tinha um cineteatro lindíssimo que me deixou enlouquecida. Eu adorava cinema. Era bom porque a gente ia com dor e esquecia de tudo ao ver os filmes que exibiam lá. Vi tantos que nem me lembro do nome deles. Cheguei até a arrumar um namorado chamado Jesus que ia comigo ao cinema. Até digo que namorei mais do que vi filme, nós íamos duas ou três vezes por semana.

Fui conhecendo também o mundo do Curupaiti fora do pavilhão da enfermaria. No mesmo ano, fui morar em um pavilhão-moradia chamado Mangueira, onde você ocupava o quarto com poucas pessoas. Não sei o tempo exato porque fiquei um bom tempo na enfermaria. Fiz amizade com todo mundo, inclusive com as pessoas que moravam na vila próxima ao hospital e não eram doentes. Uma das moradoras ficou bastante minha amiga, se chamava Rosana.

Rita comemora seu aniversário ao lado das crianças moradoras do Curupaiti. "Sempre ajudei as crianças". Foto: Acervo pessoal

Aqui era uma cidade, digo, ainda é uma cidade. Tinha coisas aqui dentro que eu não tinha acesso quando estava fora do hospital. Eu ia pra igreja, cinema, tinha Carnaval, festa junina, teatro. Eu adorava as festinhas, os aniversários organizados pelos pacientes mais velhos. Tudo aqui dentro é parecido com que o existe lá fora, mas aqui eu ficava mais tranquila porque não precisava me expor. Minha vida aqui no começo foi doida porque fiquei longe da minha família, da minha filha, mas a gente precisa superar. Como uma fase da vida mesmo.

Meu tratamento durou dez anos, com medicação e tudo. Era assim que as coisas funcionavam naquela época. Mesmo com a doença controlada, me falavam que precisa fazer a manutenção do tratamento para a doença não voltar e contaminar outras pessoas. Mesmo tendo alta da doença, não pude sair.

Nesses anos de Curupaiti, onde trabalhei todos os dias, sempre pensei na minha filha. Quando ela estava com quatro, cinco anos queria muito poder vê-la, mas sem que fosse através de um vidro, como acontecia. Em 1979, mais ou menos, fugi do Curupaiti, fui até um posto de saúde e pedi para tomar uma vacina. Dei o nome da minha irmã e botei minha foto na carteira de vacinação para conseguir um documento e corri disfarçada até o educandário para visitar minha filha.

De peruca e óculos, finalmente conseguir ver a Giovana. Minha querida Giovana. Olhei para ela e disse que era a sua mãe; nós choramos muito. Ela me disse que lembra desse momento até hoje, mais nunca contou para ninguém para não me meter em problemas, só para a avó.

Minha filha era a criança mais nova do educandário e fui cuidada por todos lá, especialmente por uma moça chamada Dona Maria. Quase como uma segunda família mesmo. A gente foi vivendo assim, superando essa barreira do Curupaiti. Quando a Giovana ficou muito mocinha para continuar no educandário acabou indo morar com minha mãe por um período e a gente se encontrava pra tomar um sorvete e comer uns doces.

Somente em 1986 começaram a liberar as pessoas do hospital. Eu não quis sair daqui porque já tinha construído uma vida inteira aqui dentro. Trabalhava, tinha casa pra morar, um companheiro pra dividir a vida, uma vida social. Não fazia sentido mais sair daqui e tentar uma vida nova, recomeçar de novo. Minha mãe não gostou, mas permaneci no Curupaiti. Visitando minha família, encontrando minha filha. A Giovana sempre quis morar aqui, mas achava melhor não. A hanseníase é uma doença com muito preconceito da sociedade. Tive medo de ela ser chamada de filha de leproso. Era muita crueldade com casos como o meu de isolamento.

Hoje vivem cerca de três a quatro mil pessoas no Curupaiti. O hospital mudou muito com o tempo. Conforme os ex-pacientes foram saindo para morar em outro lugar ou falecendo, outras pessoas vieram viver nas dependências do hospital, a maioria é parente dos pacientes. Temos uma pequena comunidade aqui. Tem casa que mora muita gente, de filho até bisneto. Minha filha, por exemplo, veio morar comigo de novo junto ao meu neto após minha mãe falecer.

Continuei trabalhando aqui. Em 1990 fui contratada para trabalhar no hospital como funcionária e um ano depois iam me efetivar para um cargo maior. Nessa época descobri que estava com câncer no colo do útero. Passei por uma cirurgia dolorida, com medo de piorar por causa da minha bronquite. Consegui superar isso. Me aposentei trabalhando na administração do hospital.

Rita e sua filha Giovana no dia do nascimento de Jonathan. Foto: Acervo pessoal

Giovana estava com um homem muito bom, quase como um filho para mim. Quando ela avisou que estava grávida foi maravilhoso, mas em uma das consultas no oitavo mês descobrimos que ela estava com uma gravidez de risco e ela teria que dar à luz ao Jonathan no mesmo dia. Nunca vou me esquecer desse dia do nascimento do meu neto. Eu pude pegar ele. Pude pegar meu neto no colo, finalmente. Não pude segurar minha filha depois do seu nascimento, mas tive a oportunidade de fazer isso com meu neto. Foi um dos momentos mais importantes da minha vida.

Minha história é positiva, apesar de tudo. Ao contrário de muita gente que também viveu nesse hospital que não teve um destino tão bom quanto o meu. Tenho hoje uma casa grande onde moro há uns 20 anos. Ela é muito boa que consegui a titularidade após muitos anos morando aqui. Quando chegou a época em que pude pedir indenização do Estado por causa do isolamento eu e o meu ex-marido, Sebastião, entramos com o pedido. Ele faleceu antes de sair a indenização, mas tive o direito de receber minha parte da indenização dele e também recebi a minha. Foi com isso que consegui reformar minha casa. Ajudei também minha família.

Rita no batizado de seu neto na capela do Curupaiti. "Renasci quando ele veio ao mundo". Foto: Acervo pessoal

Se servir de alguma coisa meu depoimento, gostaria de falar sobre a importância do cineteatro na nossa vida. Ele está completamente abandonado, uma pena ele estar assim, visto que ele era um cinema grandioso. O primeiro de Jacarepaguá. Eu montei um pequeno grupo de teatro chamado Cultura Urbana para ajudar crianças de estavam usando drogas para colocar um pouco de cultura na vida dessas pessoas.

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