A história do rei do ecstasy no Brasil

Em parceria com o jornalista e escritor Bolívar Torres, o personagem responsável pela popularização das drogas sintéticas no Brasil, Gabriel Godoy, revela detalhes de sua jornada.

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dez 20 2016, 9:00am

Baladas Proibidas

(Editora Record), com lançamento previsto para janeiro, é um livro que conta a história verídica do Gabriel Godoy, um carinha simples que descobre o universo das raves e das drogas sintéticas, vira traficante e assume o vulgo de Rei do Ecstasy. Concebido a quatro mãos pelo próprio protagonista com o auxílio do jornalista e escritor Bolívar Torres, a obra, à qual o THUMP teve acesso em primeira mão, acompanha toda a trajetória de um jovem que se mudou do interior de São Paulo para a capital e, de maneira rápida e fulminante, se tornou um dos maiores vendedores de ecstasy e LSD, principalmente, mas também de special k e lança-perfume, do país. Segundo os relatos, ele chegava a ganhar até 200 mil reais por mês.

Aos 19 anos, de saco cheio do marasmo e da mentalidade por ele julgada rasa do povo de sua cidade, ele desembarca meio que ao acaso em Maresias, no litoral paulista, e também por uma jogada do destino, acaba abraçando a chance de trocar a estanque vida de garçom pela vida loka do tráfico. Ele entra nessa passando pra frente pequenas quantidades de bala em festas de luxo do litoral e de Campos do Jordão. Em questão de meses, Gabriel já estava fazendo clientela no lucrativo circuito da alta sociedade de São Paulo. Não pra menos: ele tinha a droga mais pura ao melhor custo-benefício. No ápice dos negócios, chegava a comercializar cerca de 60 mil comprimidos de ecstasy e 15 mil micropontos de doce por mês.

Para ter essa moral, ele contava com o pano de dois policiais civis, que atuavam como parceiros e fornecedores. Um deles, era da elite do DENARC (Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico). Sólido, o esquema atravessou ileso o radar da segurança pública por um considerável período. Em 2009, quando rodou e foi parar na penitenciária de Guarulhos 2, Gabriel teve seu espírito empreendedor mais uma vez estimulado e acabou virando o primeiro traficante a comercializar ecstasy em grande escala dentro do sistema carcerário. Considerado pelos figuras mais pica da facção que comandava o presídio, chegou até a coordenar a distribuição de maconha e cocaína.

Oito meses depois, ao deixar a prisão, Gabriel faz uso dos contatos firmados em Guarulhos para fornecer ecstasy nas bocas das favelas. Até então consumida majoritariamente nas baladas da classe média, a substância se populariza. Daí ele transpõe os intermediários e chega à fonte da parada ao ser apresentado diretamente ao Tiozão, um dealer protegido por policiais que busca os produtos direto em Amsterdã. Mas a aventura fica instigante mesmo a partir do momento em que o Gabriel descola um canal de MDMA e, com a ajuda de um químico, passa a fabricar as suas próprias balas no Brasil.

A primeira remessa, de 100 mil comprimidos, faz estrondoso sucesso, e é nessa fase que o trio à frente do negócio formado por ele, o amigo da elite policial e o químico, passa a aceitar apenas encomendas grandes, acima de 20 mil. O livro termina com o Gabriel se convertendo à religiosidade por influência de um camarada DJ.

Com o batizado, vem a esperança de uma nova vida. Muitas águas rolam, porém, até que isso aconteça. As coisas que relatei aqui são apenas a superfície da trama para vocês sacarem por onde caminha a narrativa, que é cheia de detalhes e fitas dignas de um thriller do Tony Scott.

Enquanto a obra não chega às prateleiras, dá pra saciar mais um pouco da curiosidade na reprodução do papo que tive com os autores.

Foto: cena de quando o ecstasy foi legalizado por uma noite em Dublin. Por Sarah Elizabeth Meyler.

THUMP: Bem, Gabriel, além da grana que a venda das drogas te proporcionava, fico pensando em quais eram as outras motivações que você tinha para fazer circular esse tipo de produto. O lance da ilegalidade, ou de proporcionar prazer às pessoas, tinha um peso de filosofia de vida nas suas ações?
Gabriel Godoy: Nem pelo fato de ser ilegal e nem por querer proporcionar prazer às pessoas. O que me motivava, até mais do que o dinheiro, era a vontade de querer ser o cara da noite. Queria ser o nome mais forte na distribuição de ecstasy, LSD e lança-perfume e sabia que, para isso, eu tinha que ter um bom produto a preços baixos. Vivia quebrando a cabeça a fim de encontrar meios para crescer e expandir cada vez mais – essa era minha motivação principal, a fama! Tanto que fui um dos primeiros a começar a comercializar ketamina (special k) em festas raves – essa droga praticamente não me dava lucros, eu vendia pelo fato de ter poder ter de tudo em mãos.

E aí Bolívar, quais foram os caminhos que te levaram a conhecer o Gabriel, e como surgiu essa proposta de você assumir a apuração e o texto do livro?
Bolívar Torres:
Conheci o Gabriel pela agente literária Lúcia Riff. Já havia a ideia de um livro e de um filme, mas faltava alguém para dar uma direção ao projeto. Ela me passou um rascunho que o Gabriel havia escrito e me convidou para transformá-lo em livro. Não era um texto profissional, claro. Era confuso e caótico, faltavam alguns conhecimentos básicos de escrita, mas a história era incrível. Na hora percebi que não adiantava fazer um livro mais clássico de jornalismo, aqueles com um tom bem didático, em que tudo é contextualizado e explicado para o leitor. Decidi que não queria entrevistar outras pessoas, que não queria fazer uma biografia padrão, mas um trabalho de memorialismo. A narrativa tinha que estar na voz do Gabriel, para fazer o leitor mergulhar na história dele. Como o livro é muito o retrato de uma geração, tinha que ter o mesmo tom bruto daquele rascunho inicial dele, com a autenticidade da voz dele, da maneira que ele fazia aquela galera falar, ganhar vida.

O Gabriel participou da decisão de como o esqueleto da história seria organizado, ou o recorte ficou todo com você?
Bolívar: A estrutura me veio à cabeça na hora. Começa com uma introdução na terceira pessoa: ele chegando na prisão e caindo na real, descobrindo que não era o traficante sinistro que achava que era, que perto daqueles caras da facção ele não era ninguém. E também se dando conta de que a prisão podia ser lucrativa, que ele tinha a chance de desbravar um mercado novo, já que dentro de Guarulhos ninguém negociava drogas sintéticas em grandes quantidades, só pó e maconha. Era importante marcar isso logo de cara, que o Gabriel sempre via oportunidade de fazer negócio, mesmo nas piores situações. Aquilo era o motor dele – e, por isso mesmo, o motor do livro.
Daí em diante a narrativa muda para a primeira pessoa, com o Gabriel explicando como ele saiu da cidade pequena na serra de São Paulo e se tornou um traficante de respeito na cidade grande. Essa primeira parte é só deslumbre e inocência. As drogas abrem muitas portas, tudo acontece de forma muito rápida (grana, mulheres, respeito dos playboys) e acho que o Gabriel não percebe a gravidade da parada em que está se metendo. Até que ele é preso e tudo começa a ficar mais sombrio. Na segunda parte, com ele já solto, começa o envolvimento com facções. Gabriel fortalece suas relações com fornecedores dentro da polícia, faz negócios com traficantes perigosos nas biqueiras, e começa a realmente expandir a parada. Então, resumindo, na hora percebi que o livro tinha que ter uma estrutura dividida desse modo: prisão, flashback da sua formação pacata no interior e ascensão no tráfico até a prisão, saída da prisão e, enfim, a grande expansão. Expus minha ideia ao Gabriel, que gostou e começamos a escrever juntos.
No fim, aquele rascunho inicial do Gabriel ficou irreconhecível. Entrevistei ele durante nove meses, falando quase todos os dias. Íamos pensando junto os capítulos, à medida em que ele ia se lembrando de mais coisas. Eu escrevia a partir das entrevistas, repassava a ele, e isso ia refrescando sua memória. Então ele me devolvia o texto com ainda mais detalhes. Às vezes ele mesmo começava um rascunho do capítulo e eu depois o reescrevia. Enfim, foi mesmo uma escrita a quatro mãos, até porque muitas coisas precisavam ser adaptadas para não expor ninguém. Trocamos datas, localidades, nomes, recriando aquele universo em torno do Gabriel com algumas liberdades.

Você partiu de referências estéticas para chegar no ritmo ou na forma do texto?
Bolívar: Para ser sincero, não fui atrás de outras referências. É meu primeiro livro de não ficção, mas ao escrever usei muito mais minha experiência escrevendo narrativas de ficção do que o meu treinamento como jornalista. Queria que o livro tivesse uma estrutura e um tom romanesco, mesmo sendo fiel à história real. O mais importante era ter PUNCH: não podia ter muito contexto ou explicação, tinha que ser um mergulho, tinha que ser dinâmico e eficaz. Queria mostrar, não explicar. Queria ação, não lição de história ou cópia da Wikipedia. Quando peguei o rascunho do Gabriel, mesmo sendo um texto truncado, não consegui parar de ler. Porque a voz dele era muito autêntica, ecoava bem demais o mundo dele. A linguagem precisava manter essa veracidade do original, com fluidez e informalidade na escrita. Acho que eu e o Gabriel acabamos criando uma terceira voz, que não é nem minha nem dele. Nesses nove meses, eu fui a cada dia dando mais informalidade ao meu estilo, enquanto ele, ao contrário, foi aprendendo a escrever com mais técnica. Foi um treino ótimo e um grande aprendizado para nós dois.

Então Gabriel, nem todo mundo que consome drogas de diferentes fontes é apresentado a essa oportunidade que você teve de comercializar com margem de lucro. Por que você acha que essa abertura se apresentou a você?
Gabriel: É algo que até hoje não sei explicar. As oportunidades caíam no meu colo de uma maneira surreal. Talvez aconteça com muita gente, mas elas, no fundo, têm medo de avançar. Eu pensava não ter nada a perder, não tinha medo de nada e metia as caras. Mas imagino que meu carisma e a boa comunicação com as pessoas ajudavam a atrair bons negócios. Eu atraía as pessoas. A galera queria fazer parte da minha rede de contatos, até porque não eram todos que tinham um policial armado ao lado dando segurança.

Essa bala se chama Yellow Monkey. Foto: Sarah Elizabeth Meyler.

Como foram as suas primeiras experiências como consumidor de bala e LSD, e como isso mexeu com a sua consciência e percepção do mundo naqueles momentos que nunca voltam, quando as drogas batem pela primeira vez?
Gabriel:
Minhas primeiras experiências foram incríveis, afinal, se o efeito das drogas fosse ruim, ninguém usava. O ecstasy, com algumas baforadas de lança perfume, te leva para um mundo mágico, topo um "universo paralelo" mesmo. Um mundo que não existe na física da sociedade normal. Minha percepção de mundo nesses momentos eram de que nada mais importava, não existia o amanhã, eram apenas aqueles momentos de fugas, de alegria, que valiam. É claro que tem suas controvérsias: quando me ative ao tráfico para valer, e a onda perigosa da polícia em festas aumentou, eu tinha que segurar mais as portas da minha loucura – usava três, quatro, oitos balas na noite e tinha que, ao mesmo tempo, ficar ligado se tinha polícia vigiando, gente infiltrada, e até mesmo para dar o troco certo e não pegar notas falsas.
Isso mudou minha concentração até os dias de hoje: há um tempo atrás, fiz um curso de PNL (Programação Neurolinguística), e, numa sessão de treinamento, a psicanalista não conseguia me hipnotizar. Eu sempre acordava. Segundo ela, era pelo fato do uso de ecstasy ligado à função do tráfico. Quando era para estar no ápice da loucura depois de tomar oito balas, eu forçava minha mente a ficar ligada na realidade, e isso mexe com a minha memória até os dias de hoje. Estou sempre ligado na realidade – até mais do que o normal.

Quais foram os anos mais ricos da sua comercialização de bala, doce, lança, nas festas?
Gabriel:
Os anos mais ricos foram do início de 2010, logo após a minha saída da prisão, até meados de 2012. Eu já ganhava muito dinheiro antes, porém gastava tudo, passei a dar mais valor depois da prisão. Foi o período em que expandi os negócios para as favelas e comecei a produzir ecstasy e LSD de boa qualidade. Eu tinha uma estrutura para fabricar 100 mil comprimidos puros nessa época e podia fabricar até um milhão de micro pontos de LSD se quisesse. Porém, perdi praticamente tudo pagando um acerto para polícia, uma vez que fui pego com dois mil comprimidos de ecstasy.

Como foi a sua relação com o pessoal da penitenciária nas primeiras semanas em que você foi preso? Os caras te respeitaram logo de primeira?
Gabriel:
Sim! Naquela época a facção que dominava o presídio já tinha instalado uma boa disciplina para os presos. Respeito já era lei dentro do sistema carcerário. Mas o fato de comercializar drogas lá dentro aumentou minha moral. Deixei de ser apenas mais um para se tornar alguém que podia oferecer, através do meu produto, uma válvula de escape praquele tédio diário da tranca. Também, sempre que podia, ajudava meus colegas – até televisão comprei pros quartos de celas que não tinham, além de celulares, que deixava pra população usar. Isso ajudou na sobrevivência dentro de Guarulhos.

Nessa época não rolava venda de ecstasy em pontos de droga nas favelas? Foi você quem começou com isso?
Gabriel:
Não posso afirmar isso. São Paulo é muito grande e há diversas favelas. Com certeza deve ter circulado em pequenas quantidades em alguns pontos. Inclusive na quebrada do meu fornecedor já era comercializado ecstasy. Mas não tenho dúvidas de que fui um dos responsáveis pela grande popularização nas periferias da capital. Eu tinha um bom preço, vendia a 10 reais cada comprimido e ainda deixava em consignação. Dava uma semana, às vezes duas, para me pagarem, e isso atraía muitos parceiros. Afinal, não eram todos que tinham a grana para investir.

Teria sido possível você não participar desse esquema de expansão?
Gabriel:
Sim. Eu poderia ter recusado a proposta da facção e não vender meu produto nas favelas. No crime, ninguém é obrigado a nada. Porém, não faria sentido recusar a proposta. Primeiro, porque meu objetivo era expandir; segundo, porque me deu muito dinheiro, e através desse esquema nas favelas ganhei o apelido de Rei do Ecstasy. Um dos líderes da facção na época viu meu potencial de entrega e preço baixo e lançou o vulgo pra sua quebrada. Me lembro como se fosse hoje. Ele ligou para seus aliados e disse: "Vai chegar um cara aí, pode chamar ele de Rei do Ecstasy." Daí partiu a fama!

Olhos de pessoas sob efeitos psicotrópicos. Foto: Gergana Petrova.

As organizações das raves e dos clubes geralmente eram coniventes com a venda de drogas sintéticas dentro de seus próprios eventos?
Gabriel:
De algumas raves, sim, mas as de menor porte. Embora haja revista em todas, todos os produtores sabem que festa rave sem ecstasy não funciona muito bem. Já os donos dos clubes não se envolviam diretamente, porém fazem vista grossa. Eu mesmo já cheguei a organizar privates em sítios que eram "open bar" de ecstasy, LSD e lança perfume. Era o que funcionava, música e droga à vontade. Teve um curto período, em 2009, em que rolou alguns meses de escassez de ecstasy. Era difícil encontrar drogas de boa qualidade e a galera não tinha muito ânimo para ir nas festas. Daí se tira um parâmetro sobre a conivência dos produtores.

E pela sua ótica, Bolívar? Como essa história te abriu uma perspectiva do mundo das drogas nas raves e festas?
Bolívar: Para mim, é mais a perspectiva que o mundo das drogas em rave/balada abre sobre a nossa sociedade. Acho que o que faz o caso do Gabriel ser tão interessante é tudo que ele mostra sobre aquele período. Num plano mais macro, o relato reflete um tempo de grande prosperidade econômica no Brasil. O Gabriel realiza o sonho do Brasil Profundo emergente, sai da cidadezinha dele, onde não passava por dificuldades financeiras mas também não tinha muitas perspectivas, e aproveita toda a ostentação bizarra de São Paulo. Relógios, roupas e joias caras, exibicionismo na balada, e a construção de uma nova identidade a partir de bens de consumo supérfluos. Tem uma coisa meio sertanejo meets psy trance, que é bem divertida. Aqueles caras com correntes de prata gigantes e roupas de surf horríveis, gastando milhares de reais em champanhe no camarote VIP de balada eletrônica. Ou ainda aqueles óculos escuros bizarros, que parecem roubados de uma sessão de cinema 3D... Aliás, uma coisa importante do livro era mostrar as raves e as baladas sem o glamour de um Paraísos Artificiais, em que todo mundo tem bom gosto e é fashion, todo mundo é bonitinho e limpinho, mesmo depois de dois dias dançando com as mesmas roupas.
O Gabriel descobre o ecstasy – e, na mesma noite, o tráfico – em uma balada de luxo em Maresias. A história dele com o tráfico começa em 2007 – não estamos mais na era romântica das raves em chácaras, só com uma galera conceito. Então, assim, na esfera mais específica do mundo eletrônico, o livro também mostra um pouco como a cultura das raves foi apropriada pelos playboys. E como essa cultura ganhou as casas noturnas, que é o ambiente onde o Gabriel circula mais. Ele só começa a ir em rave muito depois, e ainda assim são nessas raves com patricinha chupando pirulito e a galera usando roupa da Oakley. Tanto que, na única vez em que frequenta um desses festivais mais alternativos, no estilo Universo Paralello, se surpreende com aquele público diferente. Mas, no fim, acaba se dando muito bem por lá. O mais fascinante é como ele transita por diferentes universos tendo que se reinventar a cada nova descoberta – do interior caipirão às baladas de luxo, da brodagem com os policiais ao inferno do sistema carcerário, dos códigos dos ricos mimados de São Paulo aos códigos das facções... Ele é sempre um intruso e, ao mesmo tempo, está sempre perfeitamente integrado. O cara é tipo um Don Draper do ecstasy: para vender seu produto, vive se readaptando às novidades.
Lendo o livro, percebe-se que há muitos arranjos que são feitos com seguranças e donos de clubes, mas não é uma regra. Às vezes a fiscalização é forte; outras vezes é frouxa e conivente. Depende do momento, do lugar, do contexto. Tratamos de casos específicos que rolaram com o Gabriel nesse período, e de locais específicos também.

Durante toda essa jornada, Gabriel, como foi se transformando a sua relação com a cultura e as pessoas que você deixou para trás quando veio para São Paulo?
Gabriel: Eu me adaptei fácil ao novo estilo de vida. Apaguei o Gabriel simples do interior e virei um playboy NATO. Tive pouco contato nesse período com as pessoas que deixei para trás. Era como água e óleo, nossos pensamentos não se misturavam mais. Tinha descoberto que o céu era o limite e o pessoal da minha cidade natal tinha a cabeça fechada demais. Não dava!

Que tipo de cuidados você procurou ter com a redação, Bolívar, ao traçar o perfil do Gabriel diante das escolhas de vida que ele fez?
Bolívar:
Havia muitas dificuldades, mas a maior era essa coisa meio bipolar, já que o Gabriel é um cara que se arrependeu de tudo o que fez e quer ter uma nova vida, honesta, mas ao mesmo tempo tem a certeza de que foi um cara importante no tráfico – e quer mostrar isso. Ou melhor, PRECISA mostrar isso, porque é o aspecto principal do livro, certo? Afinal, estamos contando a história de um cara que foi um traficante importante naquele ramo específico, um cara que viveu coisas absurdas, e como qualquer pessoa tem um certo orgulho de sua própria trajetória. Às vezes, sem perceber, ele acabava tirando um pouco de onda, falando num tom autocelebrativo das putas incríveis que pegou, das grandes quantidades que vendeu ou do respeito que conquistou entre bandidos perigosos. Eu explicava para ele que tínhamos que achar um meio termo, que não podia nem ser um relato alarmista e culpabilizante (do tipo "crianças, não façam o que eu fiz") nem um relato de exibicionismo e de culto àquele estilo de vida (e quando digo estilo de vida nem falo apenas do tráfico em si, mas da ostentação, da falta de limites, do desrespeito às instituições). Ou seja, contaríamos as coisas do jeito que eram, mostraríamos a maneira como aquela galera pensava e vivia, sem moralismos mas também sem ficar glamourizando.
Agora, o mais difícil mesmo foi a conversão do Gabriel. Não podia ter pregação religiosa, mas também não se podia ignorar o fato de que ele se converteu. O capítulo final, da descoberta da fé, foi muito difícil. Minha ideia foi tentar criar uma relação entre a descoberta da religião e a descoberta do ecstasy, anos antes. No fim, ele é influenciado pelas luzes, pelas vozes, pela música da igreja. Não deixa de ser uma forma de inebriação. E, claro, não há nada de errado nisso, já que o Gabriel parece muito feliz assim e parece ter encontrado o seu caminho.

Cartelas de LSD apreendidas. Foto via: Motherboard.

O que a história do Gabriel tem de singular em relação à costumeira rota de ascensão e queda pela qual os traficantes de drogas sintéticas passam? Esse pessoal que começa geralmente atuando fora das bocas de favelas e mais nos círculos sociais.
Bolívar:
No livro, o Gabriel gostava muito de ressaltar como ele levava o tráfico a sério. E ele gostava de fazer comparações com os playboys que, lá por 2010/11, começaram a entrar em massa nessa vida porque as drogas sintéticas tinham se popularizado absurdamente. Eles faziam isso mais para tirar onda com as meninas, ou para complementar a mesada dos pais, porque parecia um dinheiro fácil e sem risco. Acho que o Gabriel ficava muito irritado vendo esses caras, que não se comprometiam de verdade com o negócio, não respeitavam alguns códigos básicos e não tinham consciência da dificuldade e responsabilidade daquilo. Para o Gabriel, o tráfico era um ganha pão, e precisava ser feito com um mínimo de respeito. Outra coisa que distingue o Gabriel é a grande mobilidade dele. Ele realmente circulava por muitos universos e ia metendo a cara. Acho que isso é algo único do personagem.

Como você ganha a vida hoje, Gabriel?
Gabriel:
Hoje sou palestrante e estou fundando um instituto na minha cidade natal, onde terei uma clínica de recuperação para dependentes químicos que atenderá, de forma gratuita, até 60 pessoas por tratamento. O instituto também vai oferecer cursos gratuitos de especialização e aulas de artes marciais para até 200 pessoas. Fora isso estou produzindo para 2017 um canal de entrevistas no YouTube, chamado Trilhando Outro Caminho, onde entrevistarei ex-detentos de todo o Brasil, médicos, psicólogos e moradores de comunidades. Quero contar histórias de pessoas que superaram a criminalidade, mostrar pra sociedade que bandido nem sempre será bandido e quero alertar os jovens dos riscos e consequências dessa aventura chamada "ilegalidade".

Permanece aquele sonho da adolescência, de atuar com promoção de festas?
Gabriel:
Continuo firme com o sonho de produzir eventos. Estou colocando em prática um projeto de shows culturais para 2017. Quero produzir uma turnê de eventos em todas as cidades onde morei e vendi drogas. A começar por Serra Negra, minha cidade natal, depois Barretos, Campos do Jordão, Maresias e São Paulo. Os eventos serão em lugares aberto ao público com shows de diversos seguimento e palestras de conscientização ao uso de drogas. Para isso, estou em busca de patrocinadores.

Você comentou antes da entrevista que a história será adaptada para o cinema. Você e o Bolívar vão assumir o roteiro? Que outros detalhes já podem ser adiantados a respeito?
Gabriel:
Ainda não posso dizer muito a respeito. Estamos fechando detalhes. Quem cuida dessa parte para mim é a Film2b e o escritório da Lúcia Riff, uma das maiores agentes do pais. Mas seria um prazer participar do roteiro junto com o Bolívar.

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