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O que aconteceu quando trolei um herói da direita alternativa

O editor do Breitbart do Reino Unido, Raheem Kassam, não curtiu muito meus tuítes divertidos.
21 Dezembro 2016, 11:00am

Pepe, o sapo, um meme adotado pela direita alternativa.

Sou um muçulmano que passa muito tempo no Twitter. Tempo demais, segundo basicamente todo mundo. Quando entrei em 2012, as coisas no site eram bem calmas – você retuitava as notícias, comentava as notícias, mandava uma DM pro Guardian pedindo um estágio não-remunerado e às vezes chamava um jogador de futebol de babaca.

O Twitter, como você sabe, não é mais assim. E se você não é um cara branco hétero, um bot que apoia o Trump ou uma marca, você provavelmente já experimentou um lado mais sombrio e vingativo do Twitter. Se você é um muçulmano que tem inglês como primeira língua no Twitter em 2016, é muito provável que além de ter sido chamado de "cuck", já te acusaram de ser um estuprador, pedófilo, terrorista ou alguma mistura cômica dos três. Tenho muitos amigos muçulmanos que saíram do site depois de receber uma onda de xingamentos, enquanto outros preferem limitar o que dizem sobre sua fé. Ano passado, uma grande amiga minha, que usa hijab, decidiu parar de postar sobre política e agora só tuíta sobre Naruto.

A trolagem sempre foi uma parte fundamental da internet, mas recentemente se tornou algo inevitável. O presidente eleito Donald Trump é venerado como o "Grande Troll" do mundo, reinando sobre um exército de avatares com o sapo Pepe em sua invectiva contra jornalistas liberais, pessoas trans e, mais recentemente, a empresa Kelloggs, que decidiu parar de anunciar no site de direita Breitbart. Enquanto isso, é só passar 10 minutos no Twitter do Reino Unido para encontrar um avatar de ovo chamado "PatriotChurchill2651" gritando que "Brexit significa Brexit", e como ninguém diz mais diz Feliz Natal porque todo mundo virou muçulmano.

O que me traz a uma situação recente no Twitter que recebeu um pouco mais de atenção do que eu esperava: minhas interações com o queridinho da direita alternativa Raheem Kassam, editor do Breitbart UK, o ramo britânico do site pró-Trump e negacionista das mudanças climáticas. No começo deste ano, Raheem concorreu a líder do UKIP por algumas semanas, desistindo depois para voltar ao site e sua cruzada contra uma empresa de cereal matinal. Fora das políticas de Westminster, Raheem é mais conhecido por ser provocador e hostil no Twitter.

Raheem e eu temos muito em comum. Nós dois ficamos na marca de 1,50 metro de altura, usamos óculos grossos e nunca saímos muito bem em fotos. Ah, e nós dois temos sotaque gentrificado. E descendemos de muçulmanos afro-asiáticos. As similaridades aparentemente são tantas que da última vez que estive em Westminster, um passante me chamou de "putinho da UKIP", e por isso nunca mais vou usar uma papoula em público de novo.

Mas como eu podia entrar em contato com Raheem para começar a construir uma ponte? Tuítes comuns não dariam em nada: é só dar uma olhada rápida na linha do tempo dele para ver como ele trata qualquer um que não tenha uma bandeira da Inglaterra no avatar. Então fiz o que qualquer imigrante adepto dos valores britânicos faria. Mandei vários tuítes bem-humorados na direção dele, esperando quebrar o gelo.

"Estou muito orgulhoso do meu primo que acabou de passar em sua prova de cidadania hoje, um RT significa muito para ele"

"Gente, fico triste em informar que desde que chegou ao Reino Unido, meu primo se radicalizou. Melanie Phillips estava certa no final das contas"

Infelizmente, Raheem não curtiu muito minha aproximação. Então ele fez o que qualquer um que o segue no Twitter sabe que ele faria. Ele me chamou de islâmico porque uma vez trabalhei duas semanas para um canal de TV muçulmano, depois sugeriu que eu era um entusiasta do Irã. O que é verdade.

Seus tuítes escrotos foram favoritados por mais avatares do Pepe que o normal – mas parece que Raheem, editor de um site que – segundo seu principal autor, Milo Yiannopoulos – se orgulha em "fazer sátira", simplesmente não é muito bom nisso. No final das contas, depois que mais pessoas no Twitter se juntaram à minha piada de que Raheem era meu primo, ele fez o que qualquer guerreiro da liberdade de expressão antiespaços seguros faria: ele bloqueou todos nós e deixou a seguinte mensagem:

"Bloqueei uma conspiração de 5 colunistas ajudados pela BBC. Eles acham que podem esconder seu islamismo atrás de piadas sem graça. Não podem."

Meu encontro com Raheem foi curto e surreal, mas ilustra bem algo triste sobre nosso tempo. O Twitter não é um espaço para diálogo racional, apesar das esperanças de que poderia ser. Como resultado, qualquer um que tentar arrastar um troll da "direita alternativa" para uma discussão razoável provavelmente vai fracassar, enterrado por milhares de avatares anônimos te chamando de cuck.

Mas isso não significa que esses caras não são vulneráveis. O ressurgimento do protonacionalismo de direita é frágil, dividido e abastecido por uma forma bizarra de identidade política. E como as primeiras semanas do presidente eleito Trump mostram, apesar de expressar o absurdo, eles ainda desejam se sentir importantes, com autoridade e respeitados. O desafio para qualquer comentarista, autor ou tuiteiro liberal em 2017 será ir além dos confins da retórica respeitosa e digna, e abraçar essa linguagem desconfortável e absurdista para lidar com esse trolls – pelo menos até eles te bloquearem.

Mas e quanto ao futuro do relacionamento entre Raheem e eu? Sei lá, mas se você está lendo isso, primo, volte pra casa. O ras malai já está na mesa.

@Hkesvani

Tradução: Marina Schnoor

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