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A Insana Beleza de Gritar Corinthians

Uma breve análise dos cantos que passaram pelo Pacaembu e agora embalam o Itaquerão.

por Marcos Sergio Silva
19 Novembro 2015, 10:00am

Crédito: Gabriel Uchida/ VICE

Quando o Corinthians entrar em campo contra o Vasco nessa quinta-feira, às 22h, e os torcedores estiverem confinados naquele canto de São Januário, no Rio de Janeiro, vou lembrar de todas as vezes que cantei pelo meu time às vésperas de uma conquista – como agora, quando estamos a uma vitória de levar o Brasileirão. Mas não recordarei só dos gritos de glória. Lembrarei também dos cantos em meio às derrotas que presenciei.

Esses 1.500 corintianos vão desafiar as pedras da Barreira do Vasco, a favela vizinha ao estádio, as armadilhas terrestres pela via Dutra, a avenida Brasil conflagrada pelos adversários e o ódio plantado em cada pulmão vascaíno (sim, porque cada cruzlmaltino contém dois ódios em brasa por um corinthiano). E vão cantar. Cantarão como já cantei por ti, Corinthians, mesmo que essa coisa de "bando de louco" já tenha me dado no saco.

Umas vezes cantei com orgulho, outras com vergonha. No Pacaembu ou em Itaquera. Ou até mesmo no Morumbi. Mais com orgulho, claro. Não sei você aí se consegue definir um grito que una mais o povo do que um "poropopó". O poropopó é divino: une organizadas rivais a torcedores sem filiação. Torcedor família? Ora bolas. Torcedor faz parte de uma família. O time é como uma mãe. Você vai amá-lo eternamente.

O poropopó tem quatro objetivos: o primeiro é abraçar qualquer um que esteja ao seu lado. Nada é tão democrático. O segundo é desabalar heroicamente de um lado para outro sem saber para qual direção. Você é controlado pela massa que o joga de um canto para o outro. O terceiro, que tem mais a ver com o canto, é dizer que só existem dois objetivos no mundo: que o Corinthians veio para vencer e o resto do mundo se foder. Coisa linda. O quarto, amigo, só estando lá para saber como é. É ver o chinelo jogado para o alto enquanto o povo se move e assisti-lo cair na mão de quem o lançou, mesmo que o figura tenha se deslocado cinco metros ou cinco quilômetros. Nem a física explica.

Já parei redações para puxar poropopós nos jogos em que não pude ir ao estádio. Era uma comunhão. O poropopó entrou até no hino do Corinthians. Não há quem o cante no estádio sem incluir o tal poropopó. Perdeu o sentido o hino sem ele. O hino da arquibancada tem poropopó e pronto. Tô me perguntando agora: por que diabos nenhum acadêmico estudou o poropopó?

Mas tem hora pra tudo. Tem hora pra cantar o hino, por exemplo. E isso tem que ser ali, nos minutos que antecedem o jogo. Levanta o braço, solta o gogó, começa o jogo sem voz. Afinal, o teu passado é uma bandeira e o teu presente, uma lição. Todo corinthiano sabe disso. Ele nem precisa saber o que é esporte bretão, altaneiro, essas coisas que botaram no meio da letra para deixá-la mais bonita. Ele gosta mesmo é de saber que é o clube mais brasileiro. E que o adversário ria a cada sorriso desdentado flagrado pela câmera de TV.

Porque o sorriso do corinthiano é desdentado. É desdentado porque é sofrido, porque é o do povo. E é do povo outro grito que é solto quando a bola está rolando. "Vamos jogar com raça e com tradição/é o time do povo/é o coringa-ãããão."

Confesso, senti um frio na espinha agora. Porra, povo, caralho. Que se dane os que dizem que nosso estádio é de rico. Ei, você aí que diz isso: já sentiu o cheiro do espetinho de gato na esplanada entre o metrô Itaquera e a bilheteira? Ou o sanduíche de pernil escondido sob a passarela no caminho entre Artur Alvim e o setor Sul? O estádio pode até ser fresco, mas corinthiano nunca foi e nunca será. É o time do povo.

Vou confessar outra coisa: sinto inveja quando vejo partir os cantos das organizadas no setor Norte. Lá não tem cadeiras, tem um concretão do jeito que deveria ser todo estádio. Ei Sul, Leste e, ahm, Oeste: os gritos não partem de vocês. Não fossem os massacrados por quem quer ver seu fim, não haveria cantos. Seríamos como os da seleção e no máximo eles teriam muito orgulho e muito amor. Temos orgulho, amor, mas, sobretudo, brio. Ficou difícil? Tá bom, culhão. Temos culhão – assim, sem plural mesmo.

E provocamos. Provocamos os outros. Os verdes, os das três cores, os idosos que ainda sentem falta daquele jogador que juram que um dia jogou bola – não sei vocês, mas Pelé, para mim, é mais lenda que realidade; só o vi na Copa Pelé de 1987, e o Cafuringa jogou mais bola que ele em 1987.

Importamos gritos, é fato. Trouxemos da Inglaterra, consciente ou inconscientemente, o "eu nunca vou te abandonar" – os caras do Liverpool cantam "vocês nunca vão caminhar sozinhos". Dane-se. Me apeguei ao grito quando caímos pelas tabelas em 2007. Caímos, mas não caímos. Porque aquele grito nos manteve de pé no momento de desgraça, mesmo no dia da queda.

Quando dizem que naquele jogo/noite teremos que ganhar, sei que os argentinos já cantaram e ainda cantam isso. Prefiro quando adaptam esse canto para o adversário em questão. Locais, sempre.

O Toni, um amigo cabeludo que nem mais cabelo tem (um tipo cada vez mais comum da nossa época), era da patrulha das canções bobas. Tinha especial irritação com aquela adaptada de " Não Quero Dinheiro", de Tim Maia: "A semana inteira/fiquei esperando/pra te ver Corinthians/pra te ver jogando/quando a gente ama/não mede esforço/pra te ver jogar".

Boba? Sim. Mas quem não é bobo nos 90 minutos de partida e nos que a antecedem, muitas vezes devidamente alterados pela Maria Mole do antes Pacaembu e agora Itaquerão .(Perdoem-me, demais corinthianos, mas não vou jogar fora um nome que engradece duplamente o bairro onde nasci, cresci e aprendi a amar o Corinthians em troca de uma "arena" só porque um dirigente quer vender o tal de "naming rights". É Itaquerão e ponto.)

Meu amigo careca-cabeludo teria mais vergonha de outros que já ouvi pelo centro ou pela zona leste. O pior de todos é aquele que copiava a música do He-Man. Espero que o responsável já não esteja mais no plano terrestre.

Tem outra que copiava descaradamente uma música da Xuxa e também me envergonhava, ainda que alguns cantem. É que a porrada citada no meio dela aliviava. Passou do infantil ao viking: "A gente gosta de bater nos porco/de dar porrada e de dar paulada/a gente bate, bate, bate forte/e não quer paraaaar".

Esses gritos estão sumindo, mas em dias de clássicos você ainda ouve. Contra o Palmeiras, a coisa pesava. Quando o Cléo, da Mancha Verde, morreu, surgiu um canto bem mórbido, que zombava da morte do chefão rival. (Não vou citar aqui pois ainda mantenho certos pudores.) Diante do São Paulo, ainda rola a homofobia que a arquibancada ainda vai demorar um tempo para desapegar. O Santos, bem, é mais leve. É sempre algo em relação à idade média da torcida, sempre em torno dos 94 anos. "O Santos é o time do Viagra, o Santos é o time do vovô."

Crédito: Gabriel Uchida/ VICE


Corinthiano que é corinthiano também curte ser bipolar. Você pode estar puto ou estar muito feliz, mas isso não vem ao caso na hora de puxar um coro esquizofrênico na geral. Quando, num jogo horroroso em 2004, o Fábio Baiano marcou com uma perna só (a outra estava lesionada) o gol da vitória contra o Goiás, ouvi a arquibancada verde do Pacaembu, onde eu estava, começar a cantar "Caiu na rede é peixe/lêlêa/o Timão vai golear". Não havia o menor sentido. Estava todo mundo feliz porque o Fábio Baiano manco achou um gol.

Há duas semanas, quando vencemos o Atlético Mineiro na casa deles e praticamente asseguramos o título, o grupo que foi ao Independência, em Belo Horizonte, soltou um "se o Corinthians não ganhar/olêolêolá/O PAU VAI QUEBRAR".O TIME ESTAVA GANHANDO POR 3 X 0!

Agora, nesta quinta, o Corinthians pode enfim confirmar esse sexto título brasileiro. E contra o Vasco. A coisa sempre pega contra eles – o motivo principal é a aliança histórica entre a torcida deles e a daquele time verde que não devemos dizer o nome. E aqui, nessa memória itaquerense, guardo bem o dia em que o "ÔÔÔÔÔÔ/TODO PODEROSO TIMÃO", surgiu na arquibancada do Maracanã na final do Mundial de Clubes de 2000, justamente contra o cruzmaltino. Um repórter que trabalhava comigo foi até um dos integrantes da torcida do lado da cabine da imprensa e implorou "DÁ PARA PARAR UM POUCO COM ESSE GRITO?"

O Tite, que, vamos combinar, é o maior responsável por esse quase-título de agora, já sentiu o que é surgir um grito na arquibancada. Em 2004, combinei com o Corinthians uma fase horrorosa. O Timão estava na zona de rebaixamento, e eu havia sido rebaixado para o esgoto por uma então namorada. O jogo era contra o Criciúma. Dos 5 minutos do primeiro tempo aos 45 minutos do segundo, a torcida cantou um só grito: "Corinthians/Corinthians, minha vida/Corinthians, minha história/Corinthians, meu amor". Cantei junto, claro, e cantei pensando que aquele amor que havia me descartado era menor do que o que estava ali em campo. Um time horroroso, com Rogério Ciclovia (que fez o gol de falta), Váldson Seu Boneco, Wendel e Bruno Octávio. Foi 1 x 0. Mas o canto prosseguiu até o minuto 90. "Tem horas que tu te arrepias", disse o Tite. Desde então, ele é meu técnico favorito – pouco importa a Libertadores.

Mas tem algo que, para o Corinthians, é único. Não tem como não dizer que a Gaviões carrega o estádio nas costas. Por mais que a Camisa 12 puxa o "dá-lhe, dá-lhe Coringão". A Gaviões tem dois sambas-enredos perdidos no tempo que no estádio se transformam. Um é de 1976, quando a torcida ainda era bloco de Carnaval e é bem provável que pouca gente saiba a origem. A torcida canta no estádio até hoje: "Vai Corinthians/Vai, não para de lutar/Vai torcida fiel/Saravá São Jorge ele vai nos ajudar".

O outro é um samba que perdeu na avenida, mas resiste na arquibancada. É de 1994. E nada hoje no estádio empolga mais quando os quase três minutos de letra de "A Saliva dos Santos e o Veneno da Serpente" começa a surgir lá do canto leste. O samba-enredo era uma ode ao tabaco, mas virou um canção pra maconha, que exala aquele sabor de marofa no estádio mesmo em tempos de leis que pegam no pé de quem solta fumaça. Deixa eu cantar um pouco para alguns de vocês cantarem juntos também: "Vou, vou pra Bahia/acende a chama no terreiro de iá iá/é a força da magia/que me arrepia e se espalha pelo ar/ Saravá, saravá/ salve o santo guerreiro/ e uma vela pra saudar/meu são Jorge Padroeiro". Uma pausa para quem estiver cantando começar a pular: "Mulher, mulher, mulher/quem te viu e quem te vê/o que embaça se perdeu virou fumaça/liberdade pra você". E agora um final, só para você dizer que, como o corinthiano, na vida e na arquibancada, não tem igual: "É um raro prazer/sabor de emoção/FUMAR MACONHA E TORCER PRO CORINGÃO".

Pode falar o que quiser, mas não tem nenhuma torcida igual. Mesmo que o enredo hoje à noite fuja de controle e nosso abre-alas esbarre nos postes que abrem a avenida, ainda temos mais três chances. E aí vale a dica dos estádios: só não vale gritar gol antes. Sai, zica!

Nas glórias e nas derrotas, na saúde e na doença, ficaremos sempre com nosso hino à independência – a corinthiana, não a brasileira: "Brava gente/Brasileira/Longe vai/Temor civil/E quem não foooooooor corinthiano..."

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