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Entre grades e muros: a vida na Fundação Casa Pirituba

Cartas para a namorada, curso de pizzaiolo, livro do Jorge Amado. Como vivem os menores infratores na zona oeste de São Paulo.

por Débora Lopes
24 Fevereiro 2016, 10:30am

Foto: Felipe Larozza/ VICE

"Sempre fui sonhador. É isso que me mantém vivo." De cabeça raspada e pelos ainda germinando no rosto, Gabriel*, de 18 anos, está sentado em um banco de cimento em plena quadra esportiva cantando Racionais MC's. O fim de tarde está abafado. Assim como outros 71 meninos, ele é um menor infrator que cumpre medidas socioeducativas na Fundação Casa Pirituba, na zona oeste de São Paulo.

Desde que pôs os pés ali pela primeira vez, dez meses se passaram. Agora, basta esperar mais ou menos 90 dias para poder jogar bola na rua com os amigos novamente. Parece pouco perto dos seis anos que passou entregue à vida do crime.

"Apontar a arma na cabeça de uma pessoa e tirar algo que é dela dói muito no coração", diz Gabriel*, há 10 meses na Fundação

Foto: Felipe Larozza/ VICE

A namorada, com quem esteve junto por um ano e quatro meses, terminou a relação através de uma carta assim que ele foi parar lá. "Eu roubava, ela não gostava", conta. Mesmo com as inúmeras tentativas por parte da garota de convencê-lo a retomar os estudos e parar de cometer os assaltos, ele não parou. Diz que não conseguia ir pra escola e só queria ficar na rua. Hoje, soa arrependido. "Apontar a arma na cabeça de uma pessoa e tirar algo que é dela dói muito no coração."

Não são só as lembranças que o incomodam. Ver o pai, um senhor de 68 anos, ir até lá aos sábados – quando as visitas são permitidas – também. "Me emociono muito, senhora."

Mundão

Ali, existem duas opções de corte de cabelo: raspado ou social. A maioria prefere raspar. A cada duas semanas, os próprios meninos utilizam as maquininhas e fazem os cortes. Todos usam uniformes idênticos: bermuda azul marinho e camiseta também azul. Nos pés, chinelos de dedo. Braços e pernas trazem tatuagens, muitas. Principalmente com nomes de familiares.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

"Mundão." É assim que os internos se referem a tudo que está fora das grades e das muralhas da unidade. Lá, a cabeça fica a mil todo o tempo. Os planos para o futuro também não param. "Não quero ser uma pessoa popular, um famosinho de Facebook", explica Gabriel. "Quero ser uma pessoa humilde e sair dessa vida do crime."

De segunda a sexta-feira: a rotina de um interno na Fundação Casa Pirituba

5h30: todos acordam, arrumam as camas, tomam banho e café da manhã
7h: início das aulas
9h30: intervalo
9h50: retorno para a aula
12h20: horário de almoço e escovação de dentes
14h: aulas de ensino profissionalizante e/ou cultural
18h: jantar
19h30: atividades religiosas (facultativo) ou educação física
21h: todos tomam banho e vão para seus dormitórios
22h: as luzes da Fundação Casa são apagadas

A Fundação Casa assiste jovens de 12 a 21 anos em todo o Estado de São Paulo que cometeram atos infracionais – e não "crimes", como são chamados os delitos praticados por adultos. Em Pirituba, todos estão privados de liberdade. Ou seja, internados. Mas os próprios garotos afirmam estar "presos". Para eles, é como se o termo "interno" fosse mero eufemismo.

Em funcionamento desde 2003, a unidade Pirituba se divide em dois prédios. Cada um comporta 41 jovens. Dentre eles, somente um é reincidente.

Em novembro do ano passado, um susto. Parte dos internos fez uma rebelião na qual dois funcionários ficaram feridos. Um deles voltou à rotina normal de trabalho. Já o outro está afastado pelo INSS. Por conta dos ferimentos, teve de passar por uma cirurgia e agora está em recuperação.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Quem dirige a unidade é Agnaldo Custódio, que há 16 anos trabalha na fundação. Em Pirituba, são apenas seis meses de casa. Tempo suficiente para ter acompanhado a rebelião. "As causas estão sendo apuradas pela Corregedoria da Fundação Casa e pelo Deij (Departamento de Execuções da Infância e Juventude)", destaca.

João*, 16 anos, foi um dos garotos a participar do acontecido. "Eu estava no telhado", descreve. No dia, além dos servidores feitos de refém, houve um foco de incêndio e parte dos meninos ficou em cima do telhado. Por conta disso, João já não sabe mais quando voltará para casa. "Perdi meu conclusivo", conta, referindo-se à data de sua desinternação.

"Lá, no mundão, eu cantava, tinha DJ e tudo. Só que daí comecei a me envolver no crime e deixei de cantar", relembra Rafael*, há dois meses internado na fundação

Mesmo com a rotina pesada das aulas, João tem uma paixão: compor. As coisas engrenaram quando ele se aproximou de Rafael*, 17 anos. Utilizando cadernos – e, na falta deles, gravando tudo na mente, já que não podem levar folhas de papel para os quartos –, ambos produzem o que chamam de "funk realidade", com letras que falam sobre suas vivências no mundo do crime.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

A inspiração de Rafael vem, principalmente, de um amigo de 16 anos que morreu durante o que ele chama de "tragédia". "Ele queria muito que eu ficasse famoso. Falava: 'Corre atrás dos seus sonhos e pá'."

As namoradas podem visitar os internos, que continuam monitorados, e não em área privada. Porém, beijos (até mesmo selinho) são proibidos.

A carreira do jovem MC, que está há dois meses internado, não começou agora. "Lá, no mundão, eu cantava, tinha DJ e tudo. Só que daí comecei a me envolver no crime e deixei de cantar."

Os incentivos vêm também de dentro da fundação. João conta que a professora da disciplina Artes e Palavras, que acontece duas vezes por semana e coloca os alunos em contato com músicas e poemas, acredita muito nele. "'Você consegue, você tem um talento, um dom', ela fala."

O que pode e o que não pode dentro da Fundação Casa Pirituba

Televisão: os internos podem assistir à TV em horários estipulados durante as férias escolares e também aos sábados e domingos. De acordo com o diretor da unidade, telejornais são evitados e o programa preferido deles é a novela Malhação.

Visitas: sábado é o dia de receber visitas de familiares. Os que trabalham podem conseguir autorização para visitar os internos aos domingos, mas isso é exceção. Durante a semana, existem as visitas programadas. O familiar pode passar um tempo acompanhando a rotina do adolescente.

Namoradas: no primeiro e terceiro domingo do mês, as namoradas podem visitar os internos, que continuam monitorados, e não em área privada. Porém, beijos (até mesmo selinho) são proibidos.

Internet: Não pode. Embora alguns cursos envolvam a utilização de computador, como o de webdesign, internet é algo proibido.

Ligações: internos que não recebem visitas podem fazer ligações, sempre acompanhados de um(a) assistente social.

Quartos: as acomodações possuem 5x6 metros quadrados e contam com três beliches (portanto, seis internos). No quarto, eles podem manter duas cartas de familiares e duas fotos.

O dia em que a VICE esteve presente na unidade foi atípico. Num pequeno pátio, o grupo R.D.C. (Respeito, Dignidade e Consciência), formado pelos rappers Nego Hélio e MC Cigano, se apresentava para os garotos. Não era um show qualquer, já que, há 13 anos, Nego Hélio entrava pela primeira vez na Fundação Casa Pirituba. Acusado de tráfico de drogas, ele cumpriu medidas socioeducativas de 2003 a 2005.

Nego Hélio e seu grupo, o R.D.C., se apresentando para os internos. Foto: Felipe Larozza/ VICE

"Não tinha voltado aqui desde então. Aí senti que tinha de voltar pra mostrar algo, porque tudo começou aqui. Eu devia isso pra unidade", frisa o rapper que, por vontade própria, organizou a apresentação. "Tô me sentindo realizado em mostrar que, através do rap, eu consegui uma mudança de vida – e passar isso pros jovens." Tanto que, ao fim do show, o músico abriu o microfone para os meninos, que apresentaram suas próprias letras em cima de batidas improvisadas.

Nego Hélio conta que, durante a internação, procurou absorver o máximo possível do lugar para sair de cabeça erguida e não cair na vida do crime de novo. Fez oficina de violino, panificação, hip-hop. "Quando você sai, tem umas amizades te puxando, oferecendo dinheiro fácil."

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Renato*, 18 anos, se encaixa nesse perfil. Durante o show, ele conversava com os amigos, ria, apontava, curtia. Já no momento da entrevista com a VICE, a timidez foi preponderante. Com os dedos entrelaçados, ele fala sobre os cursos de almoxarife e pintura decorativa, além de revelar o que tem lido ultimamente: Capitães de Areia, do escritor baiano Jorge Amado. "É sobre a vida de um menino que passa pelo reformatório também – antes de ser Febem", relata, empolgado.

Fã de duplas sertanejas como Jorge e Mateus e Fernando e Sorocaba, Renato diz que passou a ouvir funk influenciado pela namorada, com quem se comunica só por cartas. Pelo bom comportamento, pode fazer ligações de vez em quando. Gosta de falar com a sogra e com os familiares da menina. "Eles estão do meu lado. Me dão conselhos, falam que errar é humano, mas que não se pode insistir no erro." A filha de dois anos nunca foi visitá-lo. "Ela pode, mas eu não quero. O lugar não é pra ela."

Foto: Felipe Larozza/ VICE

A convivência ali dentro é escolhida a dedo. "Tenho um comportamento adequado. Não procuro muita aproximação de quem quer tentar me atrasar", afirma o jovem morador do Jardim Rincão, zona oeste da cidade, para onde provavelmente irá voltar antes de julho. "Se Deus quiser, se for possível, vou estar em casa já e passar o aniversário com a minha filha."

Atualmente, além da educação escolar, os internos fazem cursos de elétrica residencial básica, almoxarife, organização de eventos e vendedor de materiais de construção. No entanto, os mais cobiçados são aqueles voltados para alimentação, como os cursos de chapeiro, pizzaiolo, panificação, salgadeiro e cozinha regional. De acordo com Agnaldo, diretor da unidade, a Fundação Casa não possui nenhum projeto para alocar esses meninos no mercado de trabalho quando saem de lá. Por isso, precisam contar com a própria força de vontade e o incentivo da família.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Por mais difícil que seja acreditar em uma vida no "mundão" longe do crime, é ela, ainda, o fulcro desses garotos. Muitos deles também mencionam Deus. Nego Hélio, exemplo vivo de que o sonho é factível, não serve só de inspiração. "Mesmo que não seja no rap, que eles encontrem uma saída", finaliza.

*Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes foram trocados

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