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A VICE Adora a Magnum

Steve McCurry Fotografa a Condição Humana

O trabalho de McCurry cobrindo a extensa batalha dos mujahidin contra a máquina de guerra soviética no meio e final dos anos 1980 cimentaria depois sua posição como um dos fotojornalistas mais influentes do planeta.

por Bruno Bayley
18 Abril 2013, 2:50pm


Campos de petróleo de Ahmadi, Kuwait, 1991.

A Magnum é provavelmente a agência de fotógrafos mais famosa do mundo. Mesmo que você não tivesse ouvido falar dela até agora, é muito provável que já conheça suas imagens — seja a cobertura de Robert Capa da Guerra Civil Espanhola ou as paisagens de férias bem britânicas de Martin Parr. Diferentemente da maioria das agências, os membros da Magnum são selecionados pelos outros fotógrafos da agência e, como eles são a maior agência de fotógrafos do mundo, se tornar um membro é algo muito difícil. Como parte de uma parceria com a Magnum, vamos apresentar o perfil de alguns de seus fotógrafos nas próximas semanas.

A foto de Steve McCurry para a Sharbat Gula, intitulada Garota Afegã, apareceu na capa da National Geografic em 1985 durante a ocupação soviética do Afeganistão. Essa foto rapidamente se tornou a mais famosa do mundo. O trabalho de McCurry cobrindo a extensa batalha dos mujahidin contra a máquina de guerra soviética no meio e final dos anos 1980 cimentaria depois sua posição como um dos fotojornalistas mais influentes do planeta. Desde então, ele tem documentado o impacto humano de guerras por todo o mundo e colecionado numerosos prêmios por suas fotografias. Liguei para ele para saber mais sobre como é quase ser morto fazendo seu trabalho e os efeitos de ver tantas coisas horríveis durante tantos anos.


Combatentes mujahidin, Afeganistão.

VICE: Oi, Steve. A Garota Afegã é provavelmente a imagem mais icônica do século XX. Você acha irritante que, de todo o seu trabalho, uma imagem seja vista como tão representativa da sua carreira?
Steve McCurry: Não mesmo. Na verdade é o contrário. Acho que nunca nem pensei nisso.

Você trabalhou no Afeganistão por muito tempo. Como você acha que a situação no país mudou desde a guerra soviética?
É sempre um lugar perigoso e há sempre uma batalha em curso. É sempre perigoso quando se está numa situação de combate. Acho que no começo havia muita boa vontade com os estrangeiros, ou mesmo com qualquer pessoa disposta a apoiar ou ajudar o povo ali, o que incluía o Ocidente e, efetivamente, qualquer pessoa de fora da União Soviética. Índia, Europa, China e Estados Unidos eram bem-vindos. Agora há uma oposição óbvia no Afeganistão — o Talibã vê os Estados Unidos e a OTAN como inimigos, então, por causa do meu local de nascimento, agora eles me veem como um inimigo. Antes eles faziam reféns e pediam resgate, agora eles simplesmente te matam por motivos políticos.

O Afeganistão é mais perigoso do que outros lugares onde você trabalhou?
Todos esses lugares, zonas de guerra, apresentam problemas diferentes. O Afeganistão, o Iraque durante a Guerra do Golfo, lugares como Beirute ou Camboja. Mas sim, talvez o Afeganistão seja o mais perigoso. Quando eu estava lá em 1979-80 com os combatentes mujahidin, geralmente estava a dias de distância de qualquer ajuda, talvez uns dois dias de distância da estrada mais próxima, frequentemente com homens que não eram muito bem treinados e com quem eu tinha muitos problemas de comunicação e barreiras de linguagem. Você está sendo bombardeado por morteiros, artilharia e aviões, e está com um bando de combatentes desorganizados, que definitivamente são corajosos, mas muito pouco treinados. 


Um jovem combatente mujahidin na Província de Kunar, Afeganistão, 1980.

Alguém já tentou sabotar seu trabalho?
Sim, já fui sabotado no sentido em que não consegui sair do meu hotel ou fazer meu trabalho. Eu não diria que era um refém, mas diria que era um cativo.

O tempo que você passou em zonas de guerra afetou sua relação com a política?
São muitas questões diferentes. Acho que, em última análise, tudo o que as pessoas querem é ser respeitadas, e frequentemente há uma luta pelo poder em lugares onde há uma guerra. No caso do Líbano, a guerra era entre a facção cristã e os sírios, ou a facção muçulmana ou os palestinos. No caso do Afeganistão, era o que agora é o Talibã ou pashtuns contra alguma outra divisão étnica. Em lugares como a Caxemira, são os muçulmanos contra os hindus. Isso geralmente se resume a um jogo de poder. Não sei se isso responde sua pergunta, mas a realidade é que acho que, às vezes, alguém quer simplesmente tomar o controle, e vai fazer isso através de qualquer meio necessário.

Você já esteve em algumas situações muito perigosas – já esteve num acidente de avião, já foi baleado, bombardeado etc. Qual é o processo de decisão quando você encara a dúvida de fazer fotos e correr grandes riscos?

Acho que você sempre tenta fazer o trabalho com alguma margem de segurança. Acho que alguém que é repórter ou fotógrafo precisa trabalhar com pessoas boas, tradutores ou guias, assistentes que entendem a situação. Você quer ser cuidadoso. Então, sim, acho que é sempre assim que tento operar – não é apenas improviso. Lugares óbvios como a Síria ou a Líbia são arriscados, mas ainda assim você quer trabalhar com a melhor margem de segurança possível.


Garota com o xale verde, Peshawar, Paquistão, 2002.

Alguma vez você avaliou mal uma situação e, de repente, percebeu que aquilo seria consideravelmente mais desagradável do que você tinha imaginado inicialmente?
Uma vez eu avaliei mal uma situação com um avião de pequeno porte na Iugoslávia, que o piloto acabou derrubando num lago. Isso foi... Bom, não sei. Há sempre um equilíbrio que você tenta alcançar quando está nesses lugares. Por um lado, você precisa aceitar alguns tipos de risco – não dá para ser muito tímido. Mas é preciso calcular os riscos. Você pesa a situação, mas às vezes a coisa toda é meio aleatória, nunca se tem muita certeza. Não é uma ciência exata, tudo está mudando constantemente. Mas você faz o seu melhor e espera pelo melhor. E você também pode ser morto andando pelas ruas de Londres ou Nova York, sabe?

Você acha que você acabou ficando insensível ao perigo?
Acho que, com mais experiência, você percebe a natureza precária de trabalhar em lugares perigosos. Talvez você seja meio ingênuo no começo e não entenda todos os aspectos, dimensões ou possibilidades com que está lidando. Acho que a gente nunca se acostuma ou fica confortável com isso. O jeito como você lida com o perigo pode mudar, mas acho que você nunca fica insensível. Nunca é rotina. Se você está contando uma história ou informando sobre uma situação, é preciso gerenciar o trabalho para o qual você foi enviado e gerenciar isso da melhor maneira possível. Mas não, acho que você nunca se acostuma. Acho a violência e a guerra sempre horríveis.

Obrigado, Steve.

Clique abaixo para ver mais fotos de Steve McCurry.


Mineiro de carvão fumando um cigarro, Pol-e-Khomri, Afeganistão, 2002.


Monges shaolin treinando, Zhengzhou, China, 2004.


Havana, Cuba, 2010.


Tribo Hamer, Vale do Omo, Etiópia.


Garoto em pleno voo, Jodhpur, Índia, 2007.


Rajastão, Índia, 2009.


Baoli e Pássaros, Índia.


Mulher lendo à luz do sol, Tailândia, 2012.

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