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Neonazis da Internet Querem Construir uma Utopia Supremacista na Namíbia

Isso de acordo com os planos dos usuários de uma lista de discussão no 8chan: uma fossa online para gente doida demais até para o 4chan.

por Tom Sanders
23 Fevereiro 2015, 6:39pm

Se você é um imbecil branco, racista e está de saco cheio da opressão que sofre no Ocidente, onde te forçam a conviver com uma pequena proporção de pessoas que não são da mesma raça que você, aqui vai a solução: mudar para a África.

Isso de acordo com os planos dos usuários de uma lista de discussão no 8chan: uma fossa online para gente doida demais até para o 4chan.

Foi assim que o usuário "Kommandant" começou a incitar seus colegas supremacistas a juntarem forças e criar uma utopia neonazista na Namíbia [tudo sic]:

"Eu só queria começar dizendo que nada é muito grande, nenhuma tarefa é muito árdua quando feita com amor pelo seu clã e seu sangue. Tenho esperança [de] que esse futuro prevaleça. E eu sei que vocês também conseguem ver. É uma brasa, mas, com a quantidade certa de sopro, isso pode se tornar um grande incêndio. E toda a África vai ver sua beleza brilhar no céu noturno. Chame isso de Sul da África Ocidental, chame isso de Rodésia, chame como você quiser".

E, nos últimos meses, uma mistura de supremacistas brancos, advogados da Letônia e mulheres férteis vêm atendendo esse chamado num último esforço para salvar a "cultura branca". Agora, eles estão lançando um projeto para fundar uma nação sob os princípios do "Patrimônio Europeu", dos "Valores Ocidentais" e do "Nacional-Socialismo" num país majoritariamente negro do sul da África.

Anônimo: "99 US$ e você faz um teste de DNA. Se você for europeu puro, você é bem-vindo." Uma postagem típica do fórum.

Os aspirantes a colonos do 8chan acreditam que a África é um espaço sem lei, onde brancos empreendedores podem tirar uma lasquinha do Império pra si. Eles são movidos pelo que o Kommandant chama de "amor por uma cultura imortal e um povo sob ataque sistemático" (ou seja, o povo branco). E os usuários do fórum decidiram que a melhor maneira de evitar esse ataque sistemático é fundando sua cidadela numa nação que combateu uma insurreição supremacista branca apenas 25 anos atrás. Alguns usuários do fórum parecem só querer rir da cara dos nazistas, mas outros estão levando a ideia a sério.

O projeto é, principalmente, retórica empolada, mas houve algumas tentativas de organização. Mais de 150 pessoas se ofereceram para se juntar aos colonos; além disso, planos toscos têm sido traçados para a fundação do país, e uma votação escolheu para essa nação o nome de "Nova Rodésia" – em homenagem a como o Zimbábue era chamado quando tentava manter o governo do apartheid.

Um mapa postado por um usuário para ajudar a decidir quem será permitido na colônia.

Um dos problemas para se tirar o plano do papel, por incrível que pareça, é que pessoas não brancas andam querendo participar. É como um usuário exasperado postou:

"Podemos parar com essa coisa de 'Posso participar, caras? Não sou branco, MAS'. Não, não pode. Isso é para brancos... não é que te odiamos (apesar de que alguns odeiem, imagino), é que não queremos viver perto de você."

Não quer morar perto de gente não branca? Melhor ir à África, colega.

O projeto avançou recentemente graças à explosão de pensamento crítico de um usuário, que apontou que o governo da Namíbia podia não curtir a ideia de um Coronel Kurtzs fajuto tentando fundar lá uma nação sob os princípios da supremacia branca. O usuário "Curonian", um advogado letão, foi quem pensou no golpe de mestre: a criação de uma ONG chamada "Projeto de Bem-Estar Civil Letão-Africano", que seria fundada sob o disfarce de se "ajudar os pobres famintos da África".

A ONG forneceria a boa-fé para a colônia se estabelecer até se tornar forte o suficiente para se livrar dos não brancos usando métodos neonazistas mais conhecidos. Como um usuário descreveu, "Não se preocupem: vamos nos fingir de tolerantes enquanto estivermos sob a autoridade namibiana, mas, quando conseguirmos a independência, todos os não brancos vão levar bota ou bala".

Os colonos já identificaram algumas áreas na Namíbia prósperas para o assentamento; inclusive, a "Operação: Primeiro Contato" enviou batedores para atrair africanos brancos locais. Enquanto isso, os voluntários vêm explicando as habilidades que podem oferecer ao enclave da Nova Rodésia.

Um dos usuários se descreveu como "um homem branco que viveu entre negros a maior parte da vida e que fala alemão passável". Outro afirma ter experiência com logística ou operações militares, enquanto um aspirante a Goebbels acredita que seu diploma em Estudos de Mídia vai ajudar a "promover a causa do nacional-socialismo".

Outro usuário, um polonês com bacharelado em Estudos da Guerra, afirma ter "conexões na Extrema-Direita Britânica" e em organizações de direita mais mainstream, incluindo o Conservative Monday Club e o Western Goals Institute. Ele diz "ter contato com alguns parlamentares do UKIP, alguns tories e conhecer pessoalmente o [ex-candidato da UKIP] Godfrey Bloom e Paul Weston", um político de extrema-direita ligado à Liga de Defesa da Inglaterra. O que não quer dizer que essas pessoas e organizações estejam envolvidas, ou sequer simpatizem, com os objetivos dos colonos.

Anônimo: "Não vai ter mulher nessa porra de colônia. Vocês acham que tem alguma mulher nesse fórum? Além disso, e os bissexuais? Eles podem ter filhos.

Anônimo: "Como vamos nos reproduzir? Vocês sabem que vai ser uma festa da salsicha, certo? Ou vocês vão querer acasalar com o povo macaco local? Boa sorte em conseguir uma fêmea normal pra essa colônia nacionalista branca paga-pau nessa pocilga. [spoiler] Espero que dê certo: eu participaria, odeio isso aqui. E que tal permitir bandeiras? [spoiler]"

Os colonos discutem reprodução.

Mas, no momento, um recurso supera qualquer suposta conexão com políticos britânicos: se ter um útero. O projeto tem um certo desequilíbrio de gêneros. Como um futuro colono apontou, "para evitar endogamia, considerando que somos uns 200 no máximo, e que precisamos de mais 5 mil para criar uma piscina genética seletiva naturalmente segura, precisamos de pessoas que possam reproduzir em abundância". Logo depois, acrescenta: "nada de gays".

A usuária "Concerned Citizen" informa ser uma "fêmea britânica de 22 anos livre de doenças e deformidades". A moça, que perdeu a chance de ser escritora de ficção erótica, se descreve como, "num sentido impessoal, uma reprodutora ideal".

Ela colocou uma questão urgente diante do alto comando:

"Agora, estou curiosa: se vocês alguma vez quiseram que esse planinho realmente produzisse alguma coisa, como exatamente iam convencer mulheres a irem pra lá com vocês? Quero muito saber, porque uma colônia não vai durar muito tempo sem uma nova geração em potencial, e isso exige mulheres; e, com a falta de mulheres, como vocês vão evitar que a colônia se desfaça? Violando leis e estuprando todas as mulheres disponíveis, independentemente de terem falado com elas ou não?".

Estranhamente, ninguém tentou responder por que fugir com caras que só sabem falar de pureza racial não é uma perspectiva tão atraente. Essa pergunta tem sido feita com frequência, resultando na observação de países que têm uma alta proporção de mulheres.

Mas, se eles realmente conseguirem ter filhos lá, um usuário já deu algumas dicas de como criá-los do jeito certo:

"Crie as crianças em paz. Argumente com elas. Nunca use seu poder físico ou mental, como adulto, para sobrepor suas preferências. Ensine negociação em que todos vencem. Converse sobre a mídia a que elas estão expostas. Explique o contexto, pergunte o que elas acham, diga o que você pensa. Pergunte se elas gostam de ter você como pai. Fale sobre as coisas que elas fazem que você não gosta. Isso as torna imunes a judeus."

Outros usuários preferem jogar Age of Empires na vida real, discutindo cores de bandeiras e organizações militares, enquanto questões práticas mais chatas recebem bem menos atenção. Eles decidiram, por exemplo, que provocar os elefantes não é uma boa ideia:

Anônimo: >elefantes "Eles são amigáveis? Podem ser usados para trabalho? Eles atacam?"

Sage: "Elefantes africanos podem te foder. Se os deixarmos em paz, vamos ficar bem"

Outra discussão é o que eles poderiam fazer para se divertir lá, já que "coisas degeneradas", como anime e homossexualidade, estão proibidas:

Anônimo: "Eu sei que formas óbvias de degeneração serão proibidas, mas e o jogo? Cassinos, bingos, loteria, raspadinhas e coisas assim?"

Talvez eles possam ouvir a poesia desse cara:

E. "Escrevi uma coisa para vocês, seus bastardos gloriosos. OK, lá vai... Há muito jogados pela tempestade da mudança, nós, Os filhos da velha Europa,Embarcamos mais uma vez para sermos livres; E liberdade encontramos nas costas de ouro. Nossos pés estão cansados de tanto fugir, Nossas mãos estão estendidas em súplica; 'Salve-nos da noite que vem!' Gritamos enquanto lutamos por nossa Nação. Ansiamos por ser orgulhosos e livres mais uma vez"

Anônimo: "Seu poema foi lindo. 8/10 Escreva mais."

Recentemente, a discussão principal do projeto passou do fórum público do 8chan para uma sala de chat protegida por senha, o que deixou alguns usuários preocupados com o futuro do projeto. Difícil saber se essa foi uma decisão tática para evitar exposição ou uma resposta a críticas e trollagens.

Um complexo documento de planejamento.

Infelizmente para os colonos, os namibianos já estão sabendo do projeto. Um artigo intitulado "Racistas criam plano de uma nação Boer na Namíbia" foi publicado no jornal Namibian Sun. Parece que, se conseguirem chegar lá, os colonos nazistas não serão muito bem recebidos.

Tradução: Marina Schnoor