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Curtindo a balada numa zona de guerra

Região separatista da Ucrânia, a República Popular de Donetsk é um lugar em que há toque de recolher e bombardeios diários. Ainda assim, a noite do lugar continua a funcionar.

por Clive Martin
14 Outubro 2016, 5:53pm

Foto por Anton Skyba

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

A República Popular de Donetsk (antes apenas "Donetsk") é um lugar estranho. Depois que a região foi tomada da Ucrânia por milícias locais e forças russas em 2015, a área — que se vê como etnicamente, culturalmente e politicamente russa — virou uma espécie de micro espaço geopolítico cheio de armas. Para ter uma ideia de onde a cidade está agora, você pode ir até o TripAdvisor, YouTube ou Facebook, mas não vai achar muita coisa sobre o lugar desde que a guerra começou. Fora os despachos de guerra, a maior parte da informação que você encontra é de antes do conflito, quando essa era a segunda maior cidade da Ucrânia, com cenas de arte e vida noturna prósperas, e um time de futebol que estava começando a chamar a atenção do mundo.

Dezoito meses e quase 10 mil mortos depois, a instituição de artes agora é uma instalação militar e o time de futebol joga no outro lado do país, na Ucrânia europeia onde é mais seguro.

A República Popular de Donetsk, também chamada de RPD, é um lugar separado, partidário e paranoico. A guerra oscila, mas só até um impasse. As bombas não alcançam mais o centro da cidade e a vida parece correr normalmente, mas dos restaurantes de sushi e do hotel Ramada você ainda escuta os morteiros e foguetes das linhas de frente. E as explosões e tiros se tornam muito mais audíveis depois das 23h, quando o toque de recolher para os civis começa. As ruas se esvaziam rapidamente, e quem fica pode pegar até 15 dias de cadeia por desobediência. O toque de recolher termina às 5h, e aí você consegue ouvir os carros passando na rua de novo.

O coletivo de BMX "Pilz" de Donetsk (foto por Rhys James).

Donetsk é, sobretudo, uma cidade de trabalho, e as pessoas ainda vivem, trabalham e conseguem ter algo que lembra diversão aqui. Alguns clubes noturnos continuam funcionando (pelo menos até as 23h), por isso fui até a cidade para filmar um episódio da série Big Night Out da VICELAND: eu queria ver como as pessoas ainda conseguiam achar tempo para a balada num lugar como esse. A maioria da mídia foi expulsa pelo regime, mas como estávamos fazendo um filme sobre a vida noturna, eles nos deixaram entrar. Até hoje não entendi muito bem por quê.

Nosso contato era um finlandês chamado Janus Putkonnen, um excêntrico político que tinha conseguido uma posição relativamente sênior dentro do governo da RPD, apesar de não falar uma palavra em russo. Janus é exatamente o tipo de pessoa que ganha prestígio num lugar como a RPD; antigo ator de novelas, diretor de teatro a blogueiro alternativo, ele era um comunista old school que viu a RPD como a vanguarda de uma "revolução mundial".

Não é difícil imaginá-lo como um Coronel Kurtz, ou o Lord Haw-Haw, da RPD, um estrangeiro que encontrou um certo nível de poder num lugar onde ninguém mais ousaria ir. Ele é o tipo de pessoa que sempre acaba num lugar como esse. Um mercador de esquisitice. Duvido que essa seja a última vez que vamos ouvir falar nele.

Leia: "A insurreição da Ucrânia"


Para chegar a Donetsk você precisa cruzar postos de controle do lado ucraniano e russo. Uma estrada desmilitarizada de alguns quilômetros separa os dois estados, com minas terrestres pontuando os vastos campos de girassóis dos dois lados da pista. O lado ucraniano parece mais oficial, como um aeroporto com algumas armas a mais e verificação regimentada dos veículos. O lado russo, ou da DNR, é mais selvagem e intimidador, porém muito mais fácil de atravessar. Cachorros selvagens passam embaixo das AK-47s penduradas na cintura dos jovens soldados. Não dá para não notar os Ray-Bans e os Nikes Flyknits novos deles.

"Foda-se a Ucrânia", um dos soldados falou quando estávamos saindo.

Você vai para essa parte o mundo esperando guerra total, mas o que encontra é uma bizarrice palpável. No final você se acostuma com os sons de tiro à distância, que são tão separados, rotineiros e focados entre duas forças separadas que — em segurança no centro da cidade — parecem quase intangíveis. As coisas que realmente te incomodam são os homens no saguão do hotel que parecem estar te observando ("são só os mafiosos", nossos fixers garantiram), notificações do Facebook sobre atividade suspeita na sua conta e pessoas entrando em cafés e restaurantes com armas. No ginásio do hotel, vi um oficial local mais velho, pesadamente armado, mandando mensagens de texto pelo celular e assistindo a clipes de música eletrônica russa na TV.

O autor e amigos num clube de Donetsk (foto por Rhys James).

Mas a RPD tem lá seu charme. A maré stalinista que atravessa o lugar significa que todo mundo é ferozmente contra a globalização. Todas as cadeias e marcas — fora o solitário espectro americano do Ramada — foram expulsas. Também não há bancos, e andando pelas ruas é difícil não aplaudir esses caras por realmente fazer o que a esquerda Ocidental vem falando em fazer há tanto tempo. Donetsk é o sonho de Russel Brand, mas realizado em circunstâncias que até os esquerdistas mais fervorosos não conseguiriam perdoar.

Ainda assim, no meio desse controle extremo o caos reina, e a vida noturna continua. Uma festa da espuma num resort de praia, um clube cheio de soldados fazendo danças tradicionais, uma crew de BMX formada por adolescentes que se chamam de coletivo "Pilz" (tipo uma versão russa da Palace, com chapeuzinhos cata-ovo e tudo mais). E dentro disso, você vê a perseverança das pessoas e da necessidade de botar os demônios pra fora. Uma imagem que faz todas as suas noções românticas escapistas de "TGIF" parecerem bem insignificantes.

@thugclive / @RDRhysJames

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