o mundo depois do Coronavírus
Ilustração: Cathryn Virginia.

O mundo depois de tudo isso

Não vamos voltar ao “normal” depois do coronavírus. Aqui vão exatamente como as coisas precisam mudar pro bem, e para o melhor.
25 Março 2020, 10:00am

Hoje, não tenho ideia do perigo espreitando do lado de fora da minha porta, exceto uma estranha falta de pessoas. Nossas vidas estão sendo restringidas por um vírus que é invisível a olho nu, quase à beira da abstração, e ainda aterrorizantemente real. Compare isso com todos os jeitos como nossas vidas são restritas por muitas regras brutais, dinheiro e punições do capitalismo, que agora estão se revelando fabricações que estavam sujeitas a mudanças rápidas e substanciais esse tempo todo – em outras palavras, falsas pra caralho.

A diferença é: não podemos mudar o fato de que um vírus está atacando a espécie humana. Podemos mudar o fato de que o capitalismo também está atacando a vida humana.

De limites de dados arbitrários sendo suspensos por provedores de internet, proibições de despejo, até proteções implementadas repentinamente para alguns trabalhadores, estamos vendo coisas que sempre disseram que eram impossíveis e inviáveis acontecerem de repente. E enquanto estimativas sobre quanto tempo o novo mundo de “distanciamento social” vai durar variam de semanas, meses até um ano, é cada vez mais provável que quanto tudo isso acabar, não vamos poder voltar ao “normal”, mesmo querendo. Mas por que iríamos querer?

Está claro que o capitalismo fracassou quando tanta gente precisa de apoio pra sobreviver. A sociedade que construímos sob premissas de rancor, desperdício, crueldade e ganância, não é um que pode sobreviver mesmo a perturbações moderadas como um vírus novo sem mortes em massa e vidas e corpos destruídos. O que precisamos urgentemente, agora e na próxima crise, é uma sociedade construída sobre resiliência, solidariedade, visão do futuro e compaixão.

Neste momento crítico, quando qualquer coisa parece possível para melhor ou pior, precisamos imaginar como as coisas podem mudar para melhor e para evitar futuras catástrofes. Quase nada de bom vem sem grandes lutas, então seria ingênuo achar que qualquer coisa vai “simplesmente” acontecer porque é óbvio pacas que precisamos salvar vidas. Ninguém sabe o que vem agora, mas o mundo precisa ser melhor que antes. E é assim que o mundo poderia ser. – Jordan Pearson

Saúde gratuita e universal

Semana passada, a representante da Califórnia Katie Porter questionou Robert Redfield, diretor do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), sobre o custo que um americano sem seguro encararia para fazer um teste de coronavírus: $1.331. Em cinco minutos, Porter fez Redfield concordar em invocar uma regulamentação que permitiria que ele, e só a ele, remover o custo do exame.

Em 13 de março, a Câmara aprovou uma legislação para tornar os testes gratuitos de qualquer forma, mas a regulamentação em que o argumento de Porter se baseou poderia ser aplicada para remover o custo pessoal para qualquer doença e qualquer intervenção, incluindo exames, tratamento e até transporte. É fácil pensar em várias doenças ou despesas médicas que o CDC poderia cobrir unilateralmente em massa, especialmente quando a doença representa um risco maior para a comunidade no geral que para um indivíduo.

Testes inadequados prejudicaram a resposta dos EUA à pandemia, mas países com acesso universal a saúde têm isso coberto: a Coreia do Sul, por exemplo, testou centenas de milhares de pessoas, enquanto os EUA está ficando pra trás. Mas o custo e disponibilidade de testes para COVID-19 é só um sintoma dos problemas subjacentes no sistema de saúde americano que o coronavírus está revelando agora.

Já ouvimos o mote de um político em particular, o senador Bernard Sanders, que saúde é um direito humano básico: depois que o fardo da pandemia diminuir, podemos e devemos investigar como o sistema atual se compara com sistemas de pagamento único da Grã-Bretanha ou Austrália, e mudá-lo de vez. Isso afetaria não só tanto a vida das pessoas que a sociedade americana nunca mais seria a mesma, mas nos tornaria mais resistentes à próxima crise. – Maddie Bender

Abolir o ICE e prisões

Quando o ICE determina se vai deter ou liberar imigrantes ou pessoas buscando asilo, ele usa um algoritmo fraudulento que só dá um resultado: Detenção. Agora, na esteira da pandemia COVID-19, as dezenas de milhares de pessoas que esse sistema propositalmente falho mandou para instalações de detenção superlotadas estão encarando um vírus mortal prestes a se espalhar rapidamente entre populações encarceradas nos EUA.

Grupos como a organização de direitos dos imigrantes Mijente pedem que o ICE pare imediatamente suas batidas e prisões, que usam tecnologia fornecida por empresas como Palantir, Dell e Microsoft. Mesmo agora, a agência de imigração continua fazendo negócios como sempre – prendendo pessoas na frente de hospitais, comprando comida e até buscando os filhos na escola.

O ICE é um risco para a saúde pública

Prender pessoas em centros de detenção lotados e insalubres “aumenta os riscos de infecção, significando que agora o ICE está ativamente colocando em perigo a saúde pública na sua missão simplista de prender imigrantes sem documentos”, diz uma carta aberta que a Mijente mandou para empresas sobre a crise do COVID-19. Em outras palavras, o ICE agora é um risco para a saúde pública.

Isso não é algo único da agência de imigração. Nas prisões e cadeias – que geralmente são superlotadas, insalubres e cheias de pessoas acusadas de crimes não-violentos – doenças se espalham rapidamente entre a população encarcerada. Na quarta-feira, a prisão Riker's Island de Nova York informou que duas pessoas (um detento e um carcereiro) tinham dado positivo para coronavírus. Ativistas alertam há décadas que nosso sistema carcerário inteiro não é pensado para promover a saúde e bem-estar dos encarcerados. E como especialistas em saúde alertaram, o que acontece dentro dessas instalações sempre se espalha rapidamente para as comunidades ao redor.

Autoridades estaduais e federais estão sob pressão para reduzir dramaticamente as populações de cadeias e prisões. Vários estados, incluindo Ohio e Califórnia, começaram a libertar centenas de pessoas para desacelerar a propagação do vírus, e alguns procuradores estão se recusando a processar ofensas não-violentas. Mas no final das contas, como especialistas em medicina já apontaram várias vezes, estrutura e propósito das prisões e cadeias – e policiais e procuradores que as enchem de seres humanos – são idênticos aos da saúde pública. Encarando uma crise de saúde sem precedentes, não houve um momento mais urgente para doar para seu fundo de fianças local e exigir que oficiais eleitos esvaziem celas antes que elas estejam cheias de cadáveres. – Janus Rose

Proteger e empoderar trabalhadores

No meio da pandemia de coronavírus, algumas companhias como Patagonia e R.E.I. fizeram a coisa certa e fecharam lojas enquanto continuam pagando seus funcionários. Mas milhões de trabalhadores da gig economy, terceirizados, temporários e trabalhadores de restaurantes de fast food não tiveram tanta sorte, muitas companhias, querendo espremer lucros da histeria de estocagem da pandemia, continuam de portas abertas e se recusam a fornecer proteções básicas como licença paga para trabalhadores doentes. Citando só algumas: funcionários dos armazéns da Amazon, motoristas de Uber e Lyft, funcionários do Whole Foods, GameStop e BestBuy não recebem licenças pagas quando doentes (a menos que deem positivo para COVID-19), e muitos continuam indo trabalhar mesmo doentes ou em alto risco.

Uma das grandes conclusões da pandemia de coronavírus é que todos os trabalhadores precisam receber licenças pagas (que não afetem folgas ou férias), licença maternidade e acesso à saúde. Sem essas proteções, a saúde e segurança de todos são colocadas em risco, particularmente para os mais vulneráveis da sociedade. Estudos mostram que pagar os trabalhadores para ficar em casa quando doentes reduz a propagação da gripe.

Agora mais que nunca é hora de imaginar um mundo melhor para os trabalhadores, que tiveram um vislumbre disso esta semana com a expansão de benefícios de licença de saúde. Mas infelizmente, companhias que estenderam seus benefícios durante a pandemia vão voltar atrás quando tudo isso terminar.

Sendo assim, mudanças reais e duradouras para trabalhadores precisam acontecer num nível sistemático, com novos benefícios e proteções para trabalhadores da gig economy, trabalhadores de franquias, terceirizados, temporários e trabalhadores da indústria de serviços. Isso pode acontecer com um movimento robusto de sindicatos (trabalhadores sindicalizados têm mais chances de ter licenças pagas, benefícios de saúde e pagam menos em planos de saúde que os não-sindicalizados) e políticos dispostos a lutar por essas mudanças em todos os níveis do governo. – Lauren Kaori Gurley

Um clima mais saudável

No começo da década, muitos ambientalistas pediram que 2020 fosse o ano em que as emissões de carbono diminuíssem definitivamente. Agora, graças à pandemia global, isso está acontecendo numa escala que ninguém poderia ter imaginado.

A China, o maior emissor de carbono do mundo, viu sua pegada de carbono encolher para um quarto em fevereiro, enquanto a nação tomava medidas extremas para combater o COVID-19, incluindo desacelerar significativamente indústrias pesadas. Na muito afetada Itália, o uso de eletricidade e a poluição do ar despencaram nas últimas semanas. O setor aéreo está em queda livre e implorando por resgastes financeiros.

Mas não tem nada de bom em reduzir emissões assim. Na verdade, se o crash financeiro de 2008 é um indicador, as emissões de carbono vão decolar assim que a crise acabar. Enquanto as nações lutam para colocar suas economias de volta nos trilhos, objetivos de clima podem acabar colocados de lado, especialmente se o preço do petróleo continuar baixo. Mas não precisa ser assim.

Em vez de voltar para os “negócios como sempre”, os governos podem colocar o clima no centro de seus planos de recuperação econômica. Pacotes de estímulo pode incluir deduções fiscais para energia renovável e veículos elétricos, além de grandes investimentos em infraestrutura verde, como instalações de armazenagem de energia e postos de carregamento de veículos elétricos. Resgates para setores poluidores podem incluir cláusulas de corte de emissão na linha do que a ciência diz ser necessário para evitar uma catástrofe climática. Fizemos muito disso em 2009 – e o resultado? A economia se recuperou.

Agora, preocupações com o clima estão pegando carona com a crise de saúde pública. E isso é algo bom. Mas enquanto começamos a pensar como reconstruir nossas vidas na esteira de uma turbulência sem precedentes, teremos a oportunidade de fazer isso de um jeito que evite muito mais mortes e sofrimento no futuro. E seria idiotice não aproveitar. – Maddie Stone

Banda larga mais rápida e acessível

Enquanto milhões de americanos ficam em casa para desacelerar a propagação do COVID-19, a disfunção da banda larga dos EUA está desnuda. Muitos americanos presos em casa vão ver a conectividade fora de alcance, e esforços para tirar seus direitos básicos de consumidor deixaram os cidadãos com abusos de privacidade e fraudes de faturamento dos provedores. Além de tratar mal os consumidores, o COVID-19 expôs como os funcionários dessas companhias não são tratados muito melhor. Há décadas, grupos de direitos do consumidor, analistas e especialistas em telecomunicações vêm alertando que as redes de banda larga dos EUA estavam aquém. Estudos recentes sugerem que 42 milhões de americanos não têm acesso à banda larga de nenhum tipo. Consumidores nos EUA pagam as taxas mais altas por banda larga no mundo desenvolvido, e muitos simplesmente não podem pagar por uma conexão de banda larga.

Enquanto isso, a banda larga americana e ranqueada como medíocre na melhor das hipóteses por todas as medidas que importam, graças não só a falta de competição – mas lobby e políticos ansiosos para defender o lucrativo status quo. Toda vez, o bem-estar público não é considerado importante para os lucros trimestrais dos monopólios de telecomunicações.

Enquanto os EUA percebe que banda larga é um serviço essencial, tudo desde os péssimos mapas de banda larga no país até justificativas meia-boca para limites de uso de banda larga estão sendo expostos como fantasia. Redes de banda larga de propriedade comunitária, há tempos demonizadas e até proibidas por lei em muitos estados, parecem uma alternativa melhor que nunca na esteira da crise nacional.

Como em incontáveis outros setores, a pandemia criou uma oportunidade para derrubar ilusões de exceção e reconstruir sistemas visando disponibilidade, baixo custo, responsabilidade e bem comum. No processo podemos sacudir monopólios que impedem o progresso, destroem proteções ao consumidor, e deixam muitos desconectados e vulneráveis. – Karl Bode

Destruir o estado de vigilância

Os EUA usou os ataques de 11 de Setembro e a ameaça sempre presente do “terrorismo” em geral para justificar a implementação de um estado de vigilância. Isso levou à aprovação do Patriot Act, que incluiu autoridade legal para vigilância em massa dos cidadãos americanos pela National Security Agency. Isso também levou à militarização das polícias locais e estaduais. Cidades pequenas e grandes de todo o país agora têm tanques, por exemplo. Antes do coronavírus, estávamos apenas começando a imaginar como reverter alguns dos excessos do Patriot Act.

Essa nova pandemia não pode ser usada como uma razão para infringir as liberdades civis e privacidade de milhões de pessoas. Estamos vendo muitas empresas de vigilância – muitas sem testar – dizendo que podem usar câmeras com inteligência artificial para detectar pessoas infectadas com o coronavírus. Companhias de telecomunicações israelense estão usando uma base de dados secreta de localização de usuários para rastrear os infectados e aqueles que podem ter entrado em contato com eles. E empresas americanas já consideraram seguir o exemplo.

Não podemos aceitar ser constantemente rastreados e monitorados pelos governos e grandes corporações como se fosse o novo normal

Tecnologia precisa ter um papel na nossa resposta para o coronavírus, e como estamos no meio de uma crise, provavelmente vamos aceitar coisas que não aceitaríamos em tempos normais. Mas quando chegarmos ao outro lado, qualquer vigilância que foi usada para desacelerar a propagação do coronavírus deve ser revertida. Não podemos aceitar ser constantemente rastreados e monitorados pelos governos e grandes corporações como se fosse o novo normal. Decisões sobre como e quando essa tecnologia é desenvolvida e empregada devem ser feitas com a aprovação dos vigiados, e essas decisões precisam ser transparentes. Não vamos, por exemplo, dar grandes contratos do governo para empresas tentando vender AIs não-testadas e eticamente duvidosas. Saindo dessa crise, teremos a oportunidade de falar sobre o tipo de mundo em que queremos viver, e temos que deixar claro que é um mundo que respeita a privacidade. – Jason Koebler

Riqueza bilionária

Os últimos anos mostraram quantos problemas da sociedade são causados pelo fato que indivíduos podem juntar riquezas particulares incompreensíveis que poderiam, se empregadas de maneira altruísta, aliviar o sofrimento de literalmente milhões de pessoas basicamente da noite pro dia. E onde estão os ricos agora, durante uma crise de saúde pública? Eles estão mandando pessoas trabalharem enquanto vão de helicóptero para luxuosos bunkers do fim do mundo, fazendo testes de COVID-19 enquanto pessoas normais não podem, e cantando “Imagine” de destinos bucólicos.

É bem óbvio o que precisa ser feito se vamos ter algum tipo de chance de ser uma sociedade mais resiliente: expropriar a riqueza deles e a colocar para trabalhar. Isso não é mais questão de política, mas de sobrevivência. – Jordan Pearson

Transporte público que funcione

Agências de transporte público precisam de dinheiro e precisam agora. Mais de 220 oficiais eleitos, cidades e organizações assinaram uma carta para o Congresso americano pedindo quase $13 bilhões em financiamento de emergência para que agências de transporte possam continuar fornecendo serviços para trabalhadores essenciais, mesmo que as viagens tenham caído quase 90%. O Congresso dar dinheiro para transporte público não é novidade, mas o jeito como isso será dado é crítico para garantir que ele vá para o lugar certo.

Como cobri recentemente, o Congresso dá dinheiro para agências de transporte para construir novas coisas ou comprar novas frotas de trens e ônibus, não para cobrir os custos de gerenciar os serviços diariamente. Foi assim que o estímulo da Grande Depressão funcionou, e é por isso que quase toda cidade teve que cortar serviços e demitir motoristas mesmo enquanto contratavam trabalhadores e construíam novos centros de trânsito. Essa abordagem não vai funcionar desta vez, e é hora de riscar essa regra.

E também já passou da hora de permitir que dinheiro federal pague pelo transporte básico que as pessoas querem: serviços frequentes e confiáveis que vão para onde precisam ir. Muitas coisas estão falhando sobre o jeito como o governo federal financia transporte público neste país. No nível mais fundamental, nunca houve uma estratégia formada sobre que objetivos esses financiamentos devem alcançar (redução do tráfego? Meio ambiente? Custo?) e como esses objetivos podem ser alcançados.

Sim, temos anos extremamente difíceis financeiramente no futuro numa indústria difícil mesmo durante os melhores momentos. Enquanto isso, o Congresso está pronto para priorizar resgates de linhas aéreas e da indústria de cruzeiros antes de se voltar para o transporte público, por razões que acho ruins e idiotas.

Mas há oportunidades: se o Congresso eventualmente mudar o jeito como considera o destino de uma indústria que transporta dezenas de milhões de pessoas todo dia, ele pode começar a perguntar para essas mesmas pessoas o que elas querem que seja feito com o dinheiro do contribuinte, e realmente fazer isso. Se começarmos a pensar nas políticas de transporte público, podemos melhorar as coisas rápido. – Aaron Gordon

Direito de consertar

O coronavírus expôs que a falta de leis de direito de consertar nos EUA é um golpe. Antes do vírus, fazendeiros não podiam conserta os próprios tratores John Deere, e quem consertava o próprio iPhone podia acordar um dia e descobrir que a Apple desativou seu aparelho.

Agora, o direito de consertar se tornou uma questão de vida e morte. Os EUA não tem ventiladores suficientes para atender a demanda que os pacientes de COVID-19 vão apresentar. Para manter ventiladores mais antigos e outros aparelhos médicos cruciais funcionando, técnicos precisam poder consertá-los. Mas, como iPhones, os fabricantes de aparelhos médicos usam software que torna os reparos difíceis e fazem todo o possível para manter seus manuais de reparo em segredo.

Mesmo diante da crise, fabricantes continuam guardando segredos e dificultando consertar aparelhos com mau funcionamento. Para atender a demanda por ventiladores e peças, grupos estão se juntando na internet para compartilhar receitas DIY. A companhia de consertos iFixit está construindo uma base de dados de manuais e informações de reparo para aparelhos médicos. E médicos estão compartilhando técnicas arriscadas, mas que podem salvar vidas, para hackear ventiladores para melhorar a capacidade de pacientes. Na Itália, fabricantes estão ameaçando processar pessoas que estão fazendo impressão 3D de peças de seus aparelhos médicos usados para tratar pacientes.

Não deveria ser assim. As pessoas deveria ter o direito de consertar o que compraram, especialmente se isso é um aparelho médico que pode salvar vidas durante uma pandemia. Não deveríamos ter que depender de Elon Musk fazer ventiladores para nos salvar. Podemos salvar a nós mesmos. Legislação do direito de consertar está progredindo nos EUA. O vírus mostrou claramente por que isso deve ser protegido por lei. – Matthew Gault

Ciência para o povo

O COVID-19 não é a primeira batalha da humanidade com um coronavírus mortal. De 2002 a 2003, um surto de síndrome respiratória aguda grave (SARS), também causado por um coronavírus, matou centenas de pessoas. Isso abriu os olhos de muitos cientistas sobre a ameaça em potencial de uma cepa de coronavírus virando uma pandemia.

Por isso uma equipe liderada por Peter Hotez, reitor da National School of Tropical Medicine do Baylor College of Medicine em Houston e codiretor do Centro de Desenvolvimento de Vacinas do Hospital Infantil do Texas, desenvolveu uma vacina para SARS em 2016. O problema? Nenhuma empresa farmacêutica ou bioquímica se interessou em financiar testes da vacina em humanos. O surto de SARS tinha saído da atenção do público, e não havia lucro em fazer uma vacina que parecia não ter procura imediata.

Fomos pegos de surpresa por uma fixação em “inovação” e falta de opções públicas

Esses vácuos estruturais de financiamento para vacinas negligenciadas agora voltaram para puxar nosso pé, com consequências trágicas. O COVID-19 é 80% similar ao SARS, como Hotez apontou num testemunho recente para o Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes dos EUA, mas fomos pegos de surpresa por uma fixação em “inovação” e falta de opções públicas. Agora, provavelmente vai levar de 12 a 18 meses para desenvolver uma vacina que possa ser administrada com segurança no público.

“O sistema de revisão por pares influencia pesadamente a inovação, então, às vezes – tipo, por exemplo, algumas vacinas que usamos, que tradicionalmente são tecnologia de recombinação de proteína – não há interesse mesmo para algo importante como produto de saúde”, Hotez me disse por telefone. A única razão para a equipe de Hotez eventualmente ter criado a vacina de SARS foi graças a um subsídio generoso do governo para biodefesa, ele disse.

Essa pandemia sem precedentes exige investimentos mais agressivos em organizações como parcerias de desenvolvimento de produtos sem fins lucrativos (PDP em inglês), que podem trabalhar em vacinas para doenças negligenciadas como ancilostomose, leishmaniose, doenças de Chagas – e sim, coronavírus. Isso vai ajudar a comunidade médica global a antecipar e cortar surtos futuros da escala de gravidade do COVID-19. – Becky Ferreira

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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