Hanif Abdurraqib holding container of risotto in kitchen
Saúde

Cozinhar pratos complexos e demorados me ensinou a ser paciente comigo mesmo

Fazer risoto dá um trampo – e é triunfal, ou pelo menos melhor do que me esconder no meu quarto e comer só para sobreviver.
06 Janeiro 2020, 1:46pm

Dependendo do processo que você aperfeiçoou (ou não) pra fazer um risoto , o disco que você pra ouvir enquanto cozinha pode variar. E os passos da receita exigem mesmo música: algo animado para esquentar o caldo de galinha no começo. Um downtempo suave enquanto as cebolas refogam na panela com o arroz. Uma balada que vai crescendo enquanto você junta o caldo de galinha e o arroz branco e vai mexendo - aparentemente eternamente - enquanto o arroz cozinha e engrossa.

Acho que a melhor ideia é colocar discos com 45 a 52 minutos de duração: Take Me Apart de Kelela ou Affairs of the Heart de Jody Watley funcionam melhor nos dias que vacilo em algum passo, tipo esquecer de ligar a boca do fogão ou medir errado a quantidade de vinho e ter que cozinhar tudo por mais tempo. Nos dias mais focados, consigo terminar no finalzinho de Complete Discography do Minor Threat, ou Tapestry de Carole King. Gosto de cozinhar com o final teatral de uma música, então se acerto o tempo do meu risotto com Spoiled Girl de Carly Simon, posso virar a panela no prato enquanto a Carly está sem fôlego, dando tudo que pode em “Black Honeymoon”, a última faixa do disco, cantando “My blood's turned to ice, ice, ice. Now I don't feel undone”.

Me senti desnorteado por muito tempo antes de começar a fazer risoto. No meio dos anos 2000, comer era um fardo, e cozinhar parecia uma tarefa insuportável, quase impossível. Um pé na bunda barra-pesada foi seguido pela morte de um amigo, e depois perdi outro, o que levou a dissolução de uma turma que eu tinha. Depressão pode deslocar uma pessoa pra fora de quase todos os seus relacionamentos, mesmo se o relacionamento for uma necessidade; dependendo da estação do ano e do luto me assombrando, eu comia só o que estava ao alcance de um braço. Tirar mais do que o exigido de mim significava – pelo menos eu achava – que as pessoas teriam que lidar com minha tristeza desgrenhada, minha energia nervosa descontrolada engolindo os quarteirões onde eu morava. Nos meses depois de outro funeral, eu comia um sanduíche do Subway por dia – eu podia voltar do Subway até meu apartamento cortando por um beco para evitar ser visto.

Nunca fui um bom cozinheiro, mas era entusiasmado com cozinhar antes daquele ponto da minha vida, particularmente no final da adolescência e 20 e poucos anos, quando eu fazia panelões de macarrão ou assava caçarolas pros amigos espalhados nos sofás de madrugada depois de algum show. Cozinhar era algo que eu podia fazer para servir para as pessoas que eu amava, mesmo quando eu não tinha muita certeza de que amava a mim mesmo. Enquanto essas pessoas foram saindo da minha vida, o mesmo aconteceu com meu amor por cozinhar. Comer era só um jeito de manobrar o que eu podia fazer antes de despencar de novo no isolamento. Durante uma primavera e verão quando eu dormia o dia inteiro e trabalhava algumas horas como garçom à noite, sobrevivi do que o pessoal da cozinha me mandava, só precisando passar pelo meu turno para voltar pra casa. Nos meses que trabalhei como estoquista de um mercado, eu pegava qualquer coisa congelada que eu pudesse jogar no micro-ondas, ligar e voltar pra pegar depois.

No começo de 2019, consegui me livrar um pouco da minha tristeza de anos, mas uma vítima daquela era foi meu gosto por qualquer comida que não parecesse fácil e imediatamente acessível. Eu dava desculpas para não experimentar pratos novos, só para não ganhar alguma afeição por eles. Se enamorar de novo por comidas que não fossem isca de frango e sanduíches feitos na correria significava que eu também teria que testar os limites de largura da minha banda emocional além da comida – que eu tinha que reconsiderar as várias generosidades que eu era capaz de oferecer, e receber.

Eu nem sabia o que era risoto até experimentar – risoto de açafrão, especialmente – de um restaurante perto do meu apartamento em janeiro. Resisti a experimentar, mas me convenceram dizendo que era “tipo macarrão com queijo, mas com arroz”. Arroz era algo que eu tinha determinado como “Não Gosto”, sem nenhuma lógica por trás disso. Eu o rejeitei prematuramente como sem gosto e com textura não muito atraente. Experimentar aquele risoto foi entender que eu estava fazendo arroz errado, ou pelo menos sem me aventurar o suficiente. A descrição desse risoto era correta, e quando descobri que risoto é uma das muitas comidas que pegam o gosto de qualquer coisa que você acrescentar na hora de cozinhar, fiquei fascinado.

No meio de 2019, comecei a fazer risoto tanto por prazer como um mecanismo para me acalmar, parte do novo sistema de coisas que eu precisava fazer para me manter estável. Quando contei para amigos que estava colecionando receitas de risoto, muitos fizeram uma careta, ou lamentaram o trabalho famosamente repetitivo de fazer risoto: ficar esquentando a barriga no fogão por quase uma hora, colocar o caldo sobre o arroz um pouco de cada vez, e mexer num certo padrão na panela. Me acalma ter uma tarefa simples e circular para realizar e também me perder nela. Não posso ficar olhando muito no celular durante o processo. Não posso topar com alguma coisa ou me distrair com a pontuação de um jogo. Não sei exatamente quão bom sou em fazer risoto, mas gosto bastante do resultado final. O que mais gosto é a ampla margem de erro devido ao processo longo, e o fato de que o risoto é generosamente complementar. Ele é uma cama confortável para vários pretendentes: açafrão e salmão, limão e cogumelo, ervilha e camarão. Fazendo risoto, me sinto tipo “Alguém Que Sabe Cozinhar”, ou alguém capaz, com o pano de prato no ombro, mexendo sem parar, cantando junto com a trilha sonora que escolhi para o evento.

Agora, nos dias que tenho minha depressão e ansiedade razoavelmente controladas, me jogo no caos de uma agenda agitada. Estou lendo ou escrevendo (o que é parte do meu trabalho), ou correndo para não chegar atrasado na terapia, ou atendendo uma ligação que poderia ter sido um e-mail, ou respondendo um e-mail que deveria ter sido uma ligação. Aprendi a lidar com tudo isso do melhor jeito possível sem desequilibrar minha saúde mental. Me comprometi a ter pelo menos sete horas de sono por noite, e a me privar do desejo de passar por uma linha do tempo cheia de notícias ruins (ou piadas boas). Se um amigo mora longe, tiramos um tempo para conversar por telefone, só para ouvir a voz um do outro. Tudo isso se tornou parte do mesmo ecossistema pra mim, mas um que ainda vale a pena se esforçar continuamente para manter.

Numa tentativa de reafirmar minhas capacidades culinárias, comecei a fazer receitas que levam quase uma hora. Um prato que faça uma bagunça da pia da cozinha, com vários potes, panelas e caldos derramados. Um prato que deixa uma mancha, ou deixa uma dor no braço depois de mexer por períodos prolongados. Tenho uma explosão de excitação quando entro no processo de fazer qualquer coisa que eu não faria quanto estava paralisado de tristeza, ansiedade e com raiva. A produção da refeição em si é o que confirma a ideia que, pelo menos por enquanto, não sou quem eu era antes. Sou alguém paciente o suficiente para tirar uma noite para trazer esse prato complicado e comemorativo – que antes eu dispensava – à vida.

No Dia de Ação de Graças, fiz risoto de ervilha sozinho no meu apartamento. Um triunfo sobre uma versão passada de mim que se escondia atrás da porta trancada de um quarto e não reconhecia meu próprio desejo de comer. Prefiro cozinhar sozinho, ou compartilhar com meu parceiro. Ainda não estou tão certo da minha habilidade de fazer risoto para dividir com amigos. Também sou egoísta nesse momento; quero essa pequena nova tentativa de me curar só pra mim. Espero continuar buscando essas novidades, e qualquer outra novidade me esperando. Por enquanto, me conformo em ter me apaixonado por fazer risoto e encontrado pequenos prazeres de um trabalho que parece tão tedioso, muito parado, ou muito repetitivo. Isso me lembra que, mesmo quando acho que acabou, não acabou: o segredo de fazer risoto é lentamente cuidar do arroz até que ele fique grosso e pesado, agora capaz de sustentar o peso de sua companhia. Que sorte, enquanto a música cresce ao meu redor, testemunhar esse tipo de desabrochar.

Ilustração por Esme Blegvad

This Is Fine é uma série de ensaios da VICE sobre táticas pessoais que usamos para tornar o mundo um pouco menos angustiante. Nesta edição, Hanif Abdurraqib conta como aprendeu a se nutrir de novo depois de um longo período de desespero.

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