A Incompreendida Psicoterapia de Wilhelm Reich

Documentário se propõe a desvendar definitivamente as ideias do psiquiatra, físico e cientista austríaco, para quem a neurose era uma manifestação somática dos conflitos e das práticas de poder do cotidiano.

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jun 2 2015, 12:30pm

Foto via.

Há uma centena de pessoas por aí que adoraria conceder uma entrevista repleta de declarações seguras sobre o que Wilhelm Reich (1897-1957), psiquiatra, físico e cientista austríaco, pensava ou pensaria sobre uma série de questões. Escritores, palestrantes, terapeutas, ideólogos, pesquisadores, historiadores, intelectuais e pseudointelectuais das mais variadas ordens, tão convencidos sobre o seu entendimento acerca das ideias de Reich. Mas Kevin Hinchey não é um desses tipos. Kevin atua desde 2002 como codiretor do Wilhelm Reich Infant Trust, em Rangeley, no Estado de Maine, EUA. Trata-se de um instituto criado pelo próprio Reich em seu testamento que administra o material de arquivo do psiquiatra, publica livros e artigos, entre reeditados e inéditos, além de também operar um museu no mesmo local. Kevin está fazendo um documentário para justamente mostrar ao mundo que várias das coisas que se espalham e que se atribuem a Reich são pura lorota. Em nossa entrevista, todas as vezes em que tentei entrar em algum tipo de especulação, ele foi enfático em sugerir que as pessoas leiam as coisas escritas de próprio punho por Reich ao invés de se apegarem aos artigos interpretativos que inundam a mídia desde sua morte – e que é o que geralmente se faz. Uma das deturpações sobre Reich prega que ele teria sido o ideólogo do amor livre. O lance de Reich não era bem esse. Embora ele afirmasse que orgasmos levavam a uma vida melhor e fosse um crítico da educação sexual e da estrutura familiar, transformá-lo num escudo panfletário para esse tipo de causa é puro reducionismo.

Entre muitas percepções surpreendentes, Wilhelm Reich foi o cara que identificou a neurose no corpo das pessoas. A partir de suas pesquisas, ele descobriu que a neurose era causada pelo desequilíbrio energético. Mas ele não focava apenas a energia psíquica, e sim a energia única que circula por todo o nosso corpo, à qual se designaram modos diferentes de chamar com o mesmo significado: bioenergia, energia orgônica ou energia vital. Ex-pupilo de Freud, abandonou o divã e passou a estudar aspectos como tom de voz, postura, respiração e outros indícios corporais que observava durante as terapias. Ele rompeu com o padrão psicanalista de não se olhar no olho do paciente e de colocar em segundo plano a percepção das modificações de postura e gestos: sua proposta era a de integrar a análise corporal com a escuta. Assim, Reich detectou sete regiões corpóreas onde se formam as tensões musculares que chamou de "anéis" ou "segmentos de couraça": ocular, oral, cervical, torácica, diafragmática, abdominal e pélvica. Seria, portanto, a distribuição imprópria da energia orgônica, sobretudo na musculatura voluntária, a causa da formação da "couraça caracteriológica" ou "couraça muscular do caráter". Outro pilar fundamental do pensamento de Reich é que os conflitos emocionais surgem das relações sociais, e não de algo eminentemente individual. Sob tal prisma, a neurose e as psicoses podem ser entendidas como fenômenos decorrentes de conflitos e práticas de poder postas em prática na vida cotidiana – está aí a origem política da neurose. Na visão de Reich, a psicanálise ficava presa ao estudo simbólico dos acontecimentos e às suas interpretações. Enquanto isso, ele acreditava na necessidade de se valorizar mais a maneira como o paciente apresenta certas dificuldades do que o porquê.

Mas isso é o básico, a primeira camada da cebola, a respeito das ideias de um intelectual que morreu sem ser apropriadamente compreendido. Por isso, o filme que está sendo produzido pelo Kevin Hinchey se faz importante. Pela primeira vez na história, alguém gabaritado, à frente da instituição que foi idealizada pelo próprio Reich, se propõe a realizar o documentário definitivo sobre sua trajetória, suas principais teorias e seus estudos. Assista ao trailer do projeto e acompanhe a entrevista:

VICE: Qual é a história por trás do Acumulador de Energia Orgônica? Existe um sólido estudo que mostre a capacidade dessa invenção em realmente promover curas para doenças mentais e corporais, como o câncer?
Kevin Hinchey: O acumulador orgônico é uma caixa Faraday modificada que Reich desenvolveu entre 1939 e 1940 para apreender e observar a radiação orgônica que ele originalmente descobriu que emanava de organismos microscópicos aos quais ele deu o nome de bions. Esses primeiros acumuladores eram pequenos caixotes. Mais tarde, em 1940, quando Reich descobriu que essa mesma energia também existia na atmosfera, ele reconheceu a capacidade do acumulador orgônico em, de fato, atrair e concentrar essa energia presente no ar à nossa volta para experimentações médicas e científicas. Depois de promissores resultados no tratamento de câncer em ratos de laboratório com os acumuladores, Reich construiu acumuladores de energia orgônica maiores para a experimentação médica em humanos que sofriam de várias enfermidades, incluso aí o câncer. Os resultados desses experimentos médicos e científicos estão compilados no livro The Cancer Biopathy, que eu recomendo intensivamente que as pessoas leiam. Lá estão as descobertas de Reich em suas próprias palavras, e não as de outras pessoas. Desde a morte de Reich, várias pessoas fizeram experimentos com acumuladores orgônicos e publicaram seus resultados. Outros filmes já abordaram esse tema – o meu não abordará. O recorte da produção será focado numa apresentação factual apurada do trabalho de Reich tal qual conduzido por ele ao longo de sua vida.

Qual a diferença entre o acumulador e o chamado cloudbuster, ou orgone gun, que ele criaria tempos mais tarde?
O cloudbuster era uma invenção de Reich capaz de influir naquilo que ele chamava de "potencial orgonômico" da energia orgônica presente na atmosfera por meio da criação de nuvens ou as destruindo, além de aumentar sua densidade e umidade na atmosfera. Tem um excelente capítulo sobre esse tópico no livro Selected Writings – An Introduction to Orgonomy , que é uma reedição de alguns artigos publicados na década de 1950 em seus cadernos de pesquisa.

Como surgiu o termo "orgasmatron"? Qual a relação disso com o acumulador de Reich?
A palavra "orgasmatron" apareceu pela primeira vez numa comédia futurística do Woody Allen, chamada Sleeper, na forma de uma espécie de cabine onde as pessoas entravam e conseguiam atingir orgasmos. Até o ponto em que eu sei, Woody Allen nunca deu nenhuma declaração específica de que a orgasmatron tenha sido inspirada no acumulador de energia orgônica... no entanto, é bem capaz de que tenha sido. De qualquer modo, todo mundo saiu afirmando que existia essa relação, e a cômica orgasmatron de Woody Allen ficou para sempre atrelada ao acumulador.

Wilhelm Reich. Foto via.

Já que o principal foco do documentário é confrontar as distorções feitas sobre o verdadeiro trabalho e as ideias de Reich, pergunto: quais são os pontos específicos comumente tratados com desonestidade e sem o devido cuidado?
A proposta desse documentário é fazer aquilo que nenhum outro cineasta conseguiu realizar nas últimas décadas: apresentar uma narrativa precisamente factual da vida e do trabalho de Reich baseada em informações documentadas a partir de um material de fonte primária, e não baseada nas "opiniões", "interpretações" ou "especulações" de outras pessoas sobre ele. O filme é sobre a vida e o trabalho de Reich, suas atividades ao longo da vida. Não é um filme para promover qualquer organização ou corpo de trabalho, tampouco qualquer indivíduo que tenha começado a lidar com essas ideias depois de sua morte em novembro de 1957. É sobre Reich, e ninguém mais. E, ao apresentar os fatos por meio desse filme, as principais distorções a respeito de Reich ficarão evidentes e os fatos prevalecerão. Entre as principais distorções sobre Wilhelm Reich, estão as seguintes:

1. Ele estava promovendo o acumulador de energia orgônica como algum tipo de aparato sexual que ajudaria as pessoas a atingirem orgasmos.

Isso é completamente falso. Não existe menção alguma em suas publicações, nem mesmo gravações de voz, em que ele diga qualquer coisa parecida com isso. De fato, posso até te mostrar declarações de Reich em que ele diz especificamente que isso não é verdade. Se alguém, em algum lugar, conseguir apresentar provas concretas endossadas pelo próprio Reich em que ele esteja promovendo o acumulador como um dispositivo sexual para ajudar as pessoas a atingirem orgasmos, então deixem essa pessoa passar.

2. Wilhelm Reich afirmou que poderia curar o câncer.

Completamente falso. Em lugar algum, seja em publicações ou gravações de voz, Wilhelm Reich jamais disse isso. Na verdade, posso apresentar declarações publicadas por Reich em que ele especificamente frisa que não tem a cura do câncer. Se alguém, em algum lugar, tiver declarações de Reich em que ele especificamente clame que pode curar o câncer, então deixem essa pessoa passar.

3. Reich esteve em asilos mentais na Europa e nos Estados Unidos.

Outra completa inverdade. Esse tipo de calúnia sobre Reich ter sido trancafiado numa instituição mental na Europa iniciou-se nos anos 1930 por um ex-amigo e colega, Otto Fenichel. Em 1927, Reich passou um breve período internado em Davos, na Suíça (a mesma que acolheu Thomas Mann, do romance The Magic Mountain), para tratar de uma tuberculose, mas jamais numa instituição mental. Se alguém for capaz de provar que Wilhelm Reich esteve em um asilo mental na Europa ou nos EUA, então deixem essa pessoa passar.

Der Fall Wilhelm Reich from Filmfonds Wien on Vimeo.

Quais são as locações que você está usando para rodar o filme e qual será o formato dele? Você vai entrevistar alguns personagens, usar imagens históricas, coisas assim?
Vamos gravar entrevistas em locações como Rangeley, Hancock, Ellsworth Falls e Portland, em Maine; Nova York; Washington, D.C.; Pensilvânia; Viena; Berlim; e Oslo. A parte visual também contará com centenas de fotografias históricas, filmes pessoais e científicos pertencentes a Reich, cinejornais de fatos históricos, material dos arquivos de Wilhelm Reich, como diários pessoais, bloquinhos de laboratório, correspondência, documentos legais, manuscritos, etc. O filme também incluirá trechos de gravações de voz de Wilhelm Reich. O documentário está sendo filmado com uma câmera profissional de alta definição digital. A previsão é de que ele esteja pronto dentro de um período de dois anos.

Desde quando você está envolvido com o legado de Reich e como tomou contato com suas ideias ao ponto de assumir isso como uma profissão?
Quando eu estava crescendo, minha família costumava passar as férias de verão em Rangeley, Maine. Então, eu era muito jovem quando vi pela primeira vez o nome Wilhelm Reich. Mas foi somente a partir dos 18 anos – no verão posterior ao meu primeiro ano na faculdade – que aprendi sobre quem era Wilhelm Reich e visitei pela primeira vez o Wilhelm Reich Museum. Foi quando comecei a ler seus livros: em agosto de 1972. Ao longo dos anos seguintes – e até hoje –, eu venho lendo todos os livros escritos por Wilhelm Reich e quase todos os principais livros a respeito de Wilhelm Reich. Depois da faculdade, eu ingressei na New York University Graduate Film School e tirei meu M.F.A. em cinema e tevê. E, desde aquela época, eu sempre quis produzir um filme factualmente apurado sobre Wilhelm Reich, fosse como uma cinebiografia ou como um documentário. Estive em visitas a Rangeley, Maine, ao longo de toda a minha vida. Sempre foi um lugar muito importante para mim, um lugar aonde eu ia para fazer caminhadas, canoagem, esquiar, pescar e explorar, e onde sempre fiz muitos amigos. Fui dono de uma cabana lá por treze anos. Então, era inevitável, acredito, que eu eventualmente acabasse me envolvendo com o Wilhelm Reich Museum e o Wilhelm Reich Infant Trust, do qual sou codiretor desde 2002.

Como é a rotina do Wilhelm Reich Infant Trust e quais são as principais ações e sortimentos na promoção das ideias de Reich?
O Wilhelm Reich Infant Trust foi criado pelo próprio Reich em sua declaração de últimos desejos e testamento de 1957 a fim de preservar e transmitir seu legado científico para as futuras gerações e prevenir as distorções sobre seu trabalho. Reich também estipulou que sua propriedade deveria se tornar um museu e que nada poderia ser mudado em seus arquivos, e que esses arquivos não poderiam ser consultados por ninguém num período de 50 anos.

O Trust assumiu os desejos de Reich:

1. Criar e operar o Wilhelm Reich Museum em nome de Reich.

2. Gerenciar os Arquivos de Reich e se responsabilizar em encontrar uma casa para esses arquivos na Countway Library of Medicine, dentro da Harvard Medical School.

3. Tornar esses arquivos acessíveis a todos os estudantes e pesquisadores a partir de novembro de 2007, exatamente 50 anos depois de sua morte, tal qual estipulado em sua declaração de desejos.

4. Desde 1959, o Trust vem trabalhando com a editora nova-iorquina Farrar, Straus and Giroux no relançamento de todos os livros escritos por Reich que foram banidos e queimados em 1956 e 1960, além do lançamento de treze títulos inéditos.

5. O Trust também disponibiliza, por meio da Wilhelm Reich Museum Bookstore, reedições de todos os relatos e boletins de pesquisa de Reich datados entre 1942 e 1960.

6. Atualmente, como fruto do esforço do Trust, há cerca de 7.500 páginas de escritos de Reich disponibilizadas publicamente para qualquer um que queira adquirir e ler.

7. Alguns anos atrás, o Trust reuniu um pequeno grupo de acadêmicos e criou um curso de graduação sobre Wilhelm Reich que, hoje em dia, é ministrado como eletivo no departamento de ciência da Franklin & Marshall College pelo historiador e professor James E. Strick, que é PhD (autor de um livro que está para ser lançado pela Harvard University Press: Wilhelm Reich, Biologist).

8. Todo o acervo do Trust (o museu, as publicações, os arquivos) será usado como fonte no projeto do documentário fílmico sobre Wilhelm Reich.

9. Anualmente, desde o começo dos anos 1980, é realizada uma Conferência de Verão no Wilhelm Reich Museum.

É muito comum encontrar artigos sobre Wilhelm Reich na internet e nas revistas apresentando-o como o cara que inventou o amor livre. Você acha que essa é uma afirmativa que faz sentido?
Isso é completamente falso. Reich não era um militante do "amor livre" e ele não diz nada especificamente relacionado a isso em suas publicações. Em verdade, ele era um contundente crítico do casamento tradicional, da estrutura familiar e das leis que governam o divórcio, a educação sexual e os direitos sexuais. Mas ele não promovia o conceito de "amor livre" nem o comportamento irresponsável envolvendo as relações sexuais. Essas afirmativas são boatos espalhados por pessoas que nunca realmente tiveram uma leitura substancial dos escritos autorais de Reich e acabam se baseando naquilo que leram ou ficaram sabendo pela boca de alguém. Outra vez, se alguém puder chegar e nos mostrar em que ponto Reich, por conta própria, advoga o amor livre, então deixem essa pessoa passar.

Sendo Reich um pupilo de Freud, quanto das ideias de Freud ele acabou importando em seus próprios estudos e conclusões posteriores?
Eu prefiro deixar Reich falar por si mesmo e não ser mais um dentro daquele aparentemente infindável número de irresponsáveis intérpretes de Reich. Eu recomendo a leitura do livro Reich Speaks of Freud, a transcrição de uma longa entrevista que ele deu a um representante do Freud Archives em 1952. Naquela entrevista, Reich falou eloquentemente sobre os pontos em que ele discordava de Freud e por que ele discordava. Trechos do áudio dessa entrevista serão incluídos no documentário.

REVERBERAÇÕES REICHIANAS NO BRASIL

Por Dentro da Somaterapia de Roberto Freire – Uma Terapia Corporal Anarquista

João da Mata ao lado de Roberto Freire, o criador da Somaterapia. (Foto de Rui Takeguma cedida por João da Mata).

A obra de Wilhelm Reich serve como espinha dorsal para a chamada Somaterapia. Criada no Brasil pelo médico e instaurador libertário Roberto Freire (1927-2008) nos anos 1970, no período da ditadura civil-militar, a Somaterapia procura entender o comportamento humano a partir das relações sociais desenvolvidas no cotidiano dos indivíduos. Trata-se de uma prática que estabelece associação entre psicologia, corpo e política. Nesse sentido, dois fatores são fundamentais para os somaterapeutas: a implicação do corpo na clínica e a análise das práticas de poder nas relações sociais e seus efeitos sobre as emoções e os comportamentos. "Acreditamos na necessidade de voltar nosso olhar para as microrrelações sociais, pois é a partir delas que compreenderemos os mecanismos basais de poder e suas extensões para planos mais amplos da sociedade", explica o somaterapeuta João da Mata. "Tais mecanismos funcionam como o germe do autoritarismo que se alastra por diversos pontos das interações humanas, produzindo inegáveis influências sobre áreas vitais do comportamento e das relações sociais." Roberto Freire, que era anarquista, encontrou na obra de Reich a confirmação de suas impressões sobre a influência dos conflitos de poder no comportamento individual, além da implicação do corpo nesse processo. Segundo sua conclusão, a obra de Reich indicava uma noção importante que deveria fazer parte de sua terapia libertária: desencadeada por um processo de ajustamento social, a neurose não residia no pensamento e na cabeça, mas em todo o corpo.

A busca pela compreensão dos motivos que estimulam o emocional a fabricar sinais de neurose fundamentou sua crítica às relações de poder que reprimem, disciplinam e bloqueiam a liberdade das pessoas nas sociedades hierarquizadas. Para Freire, alguém tolhido de agir como realmente é, sem poder expressar seus ideais e desejos, entra, defensivamente, em estado neurótico. "Ao articular o pensamento e a obra de Wilhelm Reich com o anarquismo e sua crítica ao poder, Freire defendia a ideia de se trabalhar também sobre a esfera ética e política das pessoas. Afirmava que, para eliminar os efeitos da neurose, não basta acabar com os sintomas resultantes da couraça, e sim combater suas causas sociais e políticas", detalha João da Mata. Segundo ele, "sintomas como angústia e depressão, por exemplo, são 'sinais de alarme', indicando que algo de errado está acontecendo na vida do indivíduo. Apagar essa 'luz vermelha' seria como eliminar uma febre sem combater a infecção: os sintomas apenas sinalizam algo." Por isso, a Somaterapia enfatiza os processos grupais, nos quais o coletivo serve como laboratório de diagnósticos e transformações dessas práticas sociais e seus impasses. "Um grupo de Soma, que tem duração pré-definida, utiliza-se de um conjunto de técnicas e dinâmicas de grupo que estabelece uma relação permanente entre o comportamento individual e a construção de sociabilidades menos hierarquizadas", diz da Mata.

Atividade Somaterapeuta. (Foto cedida por João da Mata).

A Somaterapia visa mobilizar a energia orgônica pelo nosso corpo, restabelecendo o equilíbrio energético e aumentando a potência vital. Reich acreditava que as funções vegetativas (referentes ao sistema nervoso autônomo) deveriam funcionar livremente. "Tais funções se tornam desequilibradas especialmente pela criação de estases energéticas que limitam a circulação da energia vital. Esse bloqueio se dá por meio da frustração do prazer durante o desenvolvimento da criança", pontua da Mata. Reich considerava a repressão sexual como a principal fonte das neuroses. João da Mata discorre sobre a questão: "A moral conservadora, base da cultura patriarcal, procura condenar os impulsos genitais naturais. Isso leva à criação de impulsos secundários ou pornográficos, tornando a sexualidade uma mera realização do coito, muitas vezes desprovida de qualquer sentimento. Ao mesmo tempo, ergue-se um conjunto de leis e normas moralistas desastrosas contra a mesma mente humana pornográfica criada pela condenação da sexualidade natural".

A obra de Reich A Função do Orgasmo mostra como o orgasmo sexual pleno e satisfatório, além de proporcionar grande prazer e bem-estar, tem uma segunda função capaz de agir sobre a couraça, dissolvendo-a por alguns instantes através de um "curto-circuito energético" que solta a musculatura tensa e restitui a harmonia energética. "Devido a uma poderosa descarga energética, o corpo entra em estado de relaxamento, proporcionado pela circulação livre da bioenergia e por uma dissolução provisória das couraças", observa da Mata. Nesse aspecto, o somaterapeuta ressalva que, "interessado em buscar outras possibilidades de mobilização energética além do orgasmo, Reich passou a pesquisar o que ficou conhecido como os equivalentes orgásticos. Existem equivalentes ditos 'naturais' do ponto de vista bioenergético, como o ato de dançar, de gargalhar, de bocejar, de espreguiçar e uma série de outras possibilidades disponíveis ao homem como forma de relaxamento." E prossegue: "Ao relacionar a neurose às perturbações da função genital, a atividade orgástica passa a ter um significado importante no tratamento e [na] elaboração da saúde somática e psíquica de seus pacientes. A partir daí, ele defende a ideia de que a função orgástica se autorregula por um processo de tensão-carga-descarga-relaxamento, que se transformaria numa das principais bases para a formulação do conceito de pulsão de vida, em contraponto à pulsão de morte freudiana".

Praticantes da Somaterapia jogando Capoeira da Angola. (Foto cedida por João da Mata).

Aqui, vale frisar que ele não está falando da mera realização do gozo, mas de uma profunda e ampla ligação ao outro. Reich refere-se à experiência emocional primária da fusão de dois organismos. Nada a ver com a relação genital, e sim com a experiência emocional concreta da perda do ego. Uma das descobertas fundamentais de Wilhelm Reich nesse campo foi detectar, no orgasmo sexual, o instrumento natural e espontâneo da nossa fisiologia para corrigir a má distribuição energética. Como consta em A Função do Orgasmo, a restituição circunstancial do equilíbrio energético seria alcançada graças ao que Reich chamou de "potência orgástica", condição almejada ao final do processo terapêutico. Foi justamente o reducionismo dessa ideia de Reich, associado às teorias da liberação sexual, que contribuiu para o esvaziamento da importância de suas pesquisas e prejudicou o entendimento da ideia central de seu pensamento, que estendia a noção de orgasmo para além do sexo, transportando seu conceito para outras áreas da vida. "Ou seja", conclui João da Mata, "ter orgasmos na vida significa entregar-se à plenitude e abandonar-se às experiências: deixar de ser governado."

A famosa caixa acumuladora de energia orgônica. Foto via.

O Núcleo de Psicoterapia Reichiana Propõe uma Abordagem Contemporânea das Ideias de Reich

Ernani Eduardo Trotta é um dos coordenadores do Núcleo de Psicoterapia Reichiana, com sede no Rio de Janeiro. Psicoterapeuta reichiano com prática clínica desde 1982, ele começou pela psicanálise, mas ao mesmo tempo sentiu-se impelido a vivenciar e estudar outras abordagens, como a bioenergética, o psicodrama, o teatro terapêutico e variados métodos corporais e energéticos. Além de psicologia, estudou ciências biomédicas, área em que concluiu seu doutorado. "Essas buscas terminaram se convergindo para um aprofundamento em Reich", conta ele. "Viajei à Inglaterra para fazer um pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria de Londres e, paralelamente, fiz um curso de formação em psicoterapia reichiana com discípulos de Ola Raknes e Asbjorn Faleide. De volta ao Brasil, buscando aperfeiçoar minha formação, me tornei paciente e aluno de Felipe Fernandez, orgonoterapeuta recém-chegado da Argentina."

Ernani participou da primeira instituição reichiana carioca, o CIO (Centro de Investigações Orgonômicas W. Reich), e também ministrou cursos de formação terapêutica em Porto Alegre, a convite de Ralph Vianna, que, na época, editava as revistas Rádice e Luta e Prazer, além de organizar simpósios com ênfase em Reich. Foi essa experiência que acabou se desdobrando na fundação da Sociedade Wilhelm Reich no Rio Grande do Sul. "No Rio de Janeiro, continuei coordenando grupos de formação e, em companhia de alguns ex-alunos, fundamos o Núcleo de Psicoterapia Reichiana, uma instituição que acreditamos ter um papel importante na pesquisa, na clínica e no ensino da abordagem rechiana na atualidade", explica.

Sendo o Núcleo uma instituição formada por psicoterapeutas especializados em uma versão contemporânea da abordagem clínica criada por Reich, o pilar-chave daquilo que propõe, segundo Trotta, "é a compreensão do ser humano como uma unidade corpo-mente indissociável. E essa visão orienta a análise e as intervenções do terapeuta. Existem diferentes linhas de psicoterapia reichiana. Utilizamos uma integração da abordagem inglesa e norueguesa oriundas de Ola Raknes e da escola norte-americana iniciada por E. Baker, com importantes contribuições de B. Koopmam, como a foto-estimulação; também incorporamos algumas das contribuições de F. Navarro." Quase 60 anos desde a morte de Reich, a metodologia clínica criada por ele evoluiu, principalmente diante das descobertas recentes no campo das neurociências, da psicomotricidade e da psicologia do desenvolvimento.

"Uma melhor compreensão da influência dos estados emocionais sobre os mecanismos cerebrais de processamento de informações e memórias, e dos efeitos de estímulos sensoriais sobre essas funções cerebrais, permitiram o aperfeiçoamento dos métodos clássicos e a criação de novos métodos terapêuticos", esmiúça Trotta. "Incorporamos também conhecimentos e técnicas de outras abordagens terapêuticas que se mostram compatíveis com a reichiana. Reconhecemos e valorizamos os aperfeiçoamentos e inovações incorporados, porém ressaltando que continuamos a seguir em essência todos os referenciais teóricos e metodológicos propostos por Reich." No que tange a esse tópico, ele chama atenção para o fato de que, ultimamente, muitas abordagens terapêuticas psicocorporais, com os mais variados nomes, vêm sendo apresentadas como novidadeiras. Contudo, elas lançam mão dos mesmos conceitos básicos da abordagem reichiana sem fazer qualquer tipo de menção a Reich. "É como se alguém descrevesse hoje uma teoria essencialmente idêntica à teoria da relatividade, dizendo que se trata de algo novo, porém sem fazer qualquer referência a Albert Einstein", critica.

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