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MC Livinho: "Minha vontade era gravar um soul antigo, na pegada Nina Simone"

O cantor bateu um papo com a gente depois do lançamento de "Rebeca", que o alavancou ainda mais na direção do R&B.

por Amanda Cavalcanti
06 Março 2018, 12:00pm

Foto do Instagram

Já faz um tempinho que Oliver Decesary Santos, ou MC Livinho, ativamente se encarrega de trazer um lado mais R&B ao seu som: seja no megahit "Fazer Falta", no quase-posse cut "Os Maloca" e na parceria com MC Pedrinho "Tchau e Bença", as melodias vocais trabalhadas pelo cantor já são o bastante pra que ele possa ser considerado, digamos, o Frank Ocean do funk. Mas o MC decidiu se consagrar oficialmente no posto com o lançamento de "Rebeca" na última sexta-feira (2).

Mas "Rebeca" nem é tão Frank Ocean, pra falar a verdade. Considerando a batidinha levemente trap, instrumental atmosférico e as participações de rappers gringos (do Maejor, o mesmo da famigerada parte em inglês de "Vai Malandra"), é capaz que Livinho se encaixe mais entre uma galera que puxa mais pra esse lado, como o Brent Faiyaz e o próprio Luccas Carlos.

O Livinho, nesse momento, se encaixa num momento de carreira um pouco difícil de ler: apesar dos apelos ao pop, como esse single, a parceria com Ivete Sangalo e uma com Vanessa Jackson que está por vir, o MC continua fiel à estética do funk que o colocou como um MC promissor no início da década em singles como "Irmã Gostosa" e "Azul Piscina". Além disso, polêmicas como a agressão a um técnico de som e uma letra sobre assédio num som recente cercam Livinho.

Na sexta-feira do lançamento de "Rebeca", sentamos pra conversar com Livinho na ONErpm e perguntar sobre a faixa, o que ele fez e ainda quer fazer como MC e sobre sua visão do passado e do futuro do funk. Ouça "Rebeca" no player acima e leia o papo abaixo.

Noisey: O que te atraiu pra esse lado mais R&B/melódico do funk?
MC Livinho:
Desde criança eu sou músico, então a música e a melodia sempre me atraíram. Nesse caso, digamos, essa é outra barreira a ser quebrada. O músico não tem um “rótulo”, ele é músico. Se ele precisar ele canta um pagode, se ele precisar ele canta um rap. E o compositor também. Então esse lado versátil me faz ter essa visão mais ampla.

De onde veio a inspiração para compor “Rebeca”?
Eu não tenho inspirações, eu só me dou pro momento. Sinto uma vontade de compor uma música boa, mas nunca pego o caderno e vou escrever [na hora]. Eu espero o momento na minha mente. Meu funcionamento é assim. Digamos que eu quero compor uma música que fale de amor. Eu vou esperar o momento certo, mas já vou estar maquinando na minha cabeça. Em qualquer momento ela vai chegar — pode ser amanhã, pode ser daqui dez dias, ou pode ser daqui um minuto. Vem um ritmo e um começo de uma letra. Aí eu gravo um áudio, levo pra casa, chego em casa e vejo se é o momento de compor. Se for, as ideias começam a vir na minha cabeça, eu começo a escrever e sai a letra. É uma coisa que vem do nada. É um dom.

Você sempre compôs, desde criança?
Desde criança. Na época que eu comecei a cantar eu trabalhava no supermercado. e morava em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Eu sou paulistano, mas mudei pra lá pra morar com os meus pais. Foi aí que eu voltei pra São Paulo pra ir atrás das coisas, porque lá eu tinha meu trabalho mas não tinha estúdio, não tinha DJ, não tinha conhecimento. O fluxo mesmo estava aqui em São Paulo. Então foi aí que eu decidi mesmo correr atrás dos meus sonhos.

Quando a gente é criança a gente não tem o foco pra ir atrás. Mas eu cheguei numa idade em que eu bati o martelo de que se eu quisesse aquilo pra minha vida, eu tinha que correr atrás. E eu já tinha uma certeza dentro do meu coração que eu ia conseguir ter o olhar do público pro meu trabalho, pro meu talento.

De quando você era criança pra cá, o funk já passou por muitas mudanças. O que você se recorda de ouvir enquanto estava crescendo?
Eu ouvia muito proibidão — o proibidão é a realidade, tudo o que se fala naquela música é realidade, É como nos filmes, tipo o Doce Vingança, que é muito forte, até mais forte do que certas músicas que o público julga.

Na minha carreira tento cada dia mais me aperfeiçoar nas letras. Então o que eu ouvia antigamente era um tipo de letra, hoje em dia é outro. E a produção musical era um tipo, hoje é outro. Antigamente era só um remix de uma música antiga dos Estados Unidos — tanto que no rap eles fazem isso até hoje, é uma referência muito boa [dos produtores].

Eu comecei a cantar realmente por causa do Felipe Boladão, “Bonde da Tony Country”. Sou muito fã dele. Também do Daleste, que veio de um segmento que fez o funk ficar mais conhecido. Mas antigamente, os primeiros funks que eu ouvi eram Bonde do Tigrão, Cidinho e Doca, essa galera mais do Rio. De São Paulo também, o Pekeno do Saboó, Dinho da VP, Chiquinho e Amaral. Essas referências antigas que eu tive pra ser o que eu sou hoje.

De um tempo pra cá, você — e o funk como um todo — tem conquistado um público maior. O que isso mudou na sua carreira?
Mudou bastante coisa. Mudou a forma de eles verem o funk, a forma de eles tratarem os MCs.

Com “eles” você diz o público?
O público não, eu digo mais os críticos. Os críticos olhavam pro MC como uma pessoa sem cultura. Quem me conhece sabe meus gostos, mas mesmo assim eu falo gíria, xingo, tumultuo, porque é meu jeito. Eu fui criado de outra forma, curtindo outros tipos de música, mas não deixei de ser menino de rua, favelado, que corre atrás do sonho. O músico se aperfeiçoou ao funk, esse sou eu. Então já mudou o olhar da sociedade.

O “todo MC é bandido” mudou pra “esse MC toca teclado”, “esse MC toca violino”, “esse MC canta e faz parceria com Ivete Sangalo… esse MC merece respeito porque ele busca o conhecimento.” É essa a visão que eu passei pro público, na minha produção musical, nos meus arranjos, minhas afinações e notas, nos timbres que eu uso nas músicas. Isso tudo foi um ponto positivo pro funk e tá sendo um ponto positivo pra todos os MCs também, porque eles precisam ter qualidade. Se qualificar pra entrar no ramo hoje em dia. Não é só pegar o microfone e falar “eu sou MC”. Você tem que chegar com uma carta na manga. E é isso que eu tento fazer pra surpreender meu público sempre.

Apesar do funk ter ficado mais popular, você acha que ainda rola muito racismo e preconceito?
Isso vai rolar pra sempre. Depois da Lei Áurea ter sido assinada, ainda tem escravidão. Ainda tem preconceito. Isso nunca vai acabar porque isso é do ser humano. O que a gente precisa é pregar a paz e o amor, e não julgar o próximo. Em vez de todo mundo apontar para o erro de uma pessoa, tentar entender o que ela fez. E aconselhar a pessoa, parar com esse negócio de negatividade. Porque, querendo ou não, eu e você somos seres humanos, eu e você temos sentimentos, todos nós somos movidos por emoções. Você pode julgar as letras de um MC, mas de repente foi aquilo que ele viveu, aquilo que ele viu, aquilo que ele percebeu. Então não tem como falar que ele tá errado. Esse negócio de errado ou certo é muito relativo, são só visões diferentes.

Depois da sua parceria com a Ivete Sangalo, parece que você tem tentado enveredar por um caminho mais pop. Você tem tentado expandir seu público nesse sentido?
Isso aí. Eu tento expandir meu público mas ao mesmo tempo eu não perco a minha essência. Se eu falar pra você que eu vou escrever um poema lindo sobre dor e flores e esperança, eu vou fazer. Mas eu também posso fazer “vai, senta gostoso, mulher, vai rebolando, desce em cima de mim”, porque isso foi de onde eu vim.

Para atingir certo tipo de público, eu faço certo tipo de música. Mas o meu primeiro público eu não posso perder. Porque o público do “dança, sobe, desce, senta” foi o que me colocou aqui. Eu tenho que respeitar, não posso virar as costas pra eles. Jamais eu vou negar de onde eu vim ou levantar uma bandeira de uma coisa que eu não sou. Eu levanto a bandeira da música, do funk, do movimento. Então eu não tiro meu MC do nome, vai ser sempre MC Livinho. Não tem essa parada, eu posso cantar um pop, um funk, um samba ou um pagode, mas vou ser sempre MC Livinho.

Tem algum outro gênero que você ainda queira explorar?
Vou falar pra você que tem. Minha vontade era fazer soul, jazz, R&B. Antigo, numa pegada Nina Simone. Não é o que o público quer ouvir, mas seria uma realização minha ter uma faixa assim num CD, porque é de onde eu tirei minhas bases de harmonia, melodia.

Eu fiz uma parada mais parecida com isso com a Vanessa Jackson, que vai sair o clipe [no dia 8 de março]. É uma pegada mais romântica. É uma regravação de uma música do Brian McKnight e do Justin Timberlake. A gente fez esse dueto e traduziu a música pro português, e já foi uma conquista pra mim.

Tudo o que eu queria na minha vida eu consegui. quando conquistei a minha comunidade e as comunidades do Brasil. Subir no palco, ver aquela criançada cantando, ver o público pedindo pra tirar foto, reconhecendo a música. A partir desse momento, já foi uma vitória para mim. O que vem é consequência do meu trabalho.

Em que artistas você se inspira? Pode ser brasileiro, gringo…
Um artista que eu gosto muito e sempre vou falar é o R. Kelly. E outro que me inspira muito é o Sam Smith, pela voz.

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