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O Corrosion of Conformity achou longevidade na transformação

Pepper Keenan, agora de volta ao clássico grupo stoner, fala sobre o novo disco 'No Cross No Crown', Trump, New Orleans, Metallica e o quanto ele gosta de vir para o Brasil.

por Luiz Mazetto
12 Março 2018, 6:00pm

Na ativa desde o início dos anos 1980, o Corrosion of Conformity é um daqueles casos raros na música. A banda de Raleigh, na Carolina do Norte, sempre conseguiu manter a sua qualidade e integridade intactas em meio às diversas transições pelas quais passou nas últimas décadas, seja pelas mudanças de integrantes ou no estilo do som, que pode variar metal, punk, stoner, rock sulista e o que mais for, mas sempre de maneira muito própria.

Em 2015, após lançar dois ótimos discos como um power trio, Mike Dean (baixista), Reed Mullin (baterista) e Woody Weatherman (guitarrista) anunciaram a volta de Pepper Keenan ao grupo. O guitarrista e vocalista, que também toca no Down, esteve à frente da formação nos trabalhos mais bem-sucedidos do COC, como Deliverance (1994) e Wiseblood (1996), e estava afastado do grupo desde o ótimo In the Arms of God (2005), um dos grandes discos subestimados da última década.

Além de muitos shows pelo mundo (o Brasil recebe a banda em maio), essa volta de Keenan rendeu o recém-lançado No Cross No Crown (2018 / Nuclear Blast), décimo álbum de estúdio dos americanos. Primeiro trabalho a reunir os quatro integrantes desde 2000, quando foi lançado o apenas mediano America’s Volume Dealer, o mais novo disco do COC traz a banda mais inspirada e entrosada do que nunca para fazer o que sabe de melhor.

Na entrevista abaixo, feita durante uma turnê com o Black Label Society pelos EUA, o simpático Pepper fala sobre foi voltar a tocar e gravar com o COC após mais de 10 anos, a rotina que precisa seguir para cantar e tocar todas as noites na estrada, como foi convidado para tocar na banda do Danzig nos anos 1990, sua amizade com James Hetfield, do Metallica, e muito mais.

Noisey: O disco novo soa como uma mistura dos trabalhos anteriores mais clássicos do COC, como Wiseblood, Deliverance e In the Arms of God, mas talvez com um pouco mais de melodia. Vocês sentiram algum tipo de pressão para soar desse ou daquele jeito quando estavam escrevendo e gravando essas músicas novas?
Pepper Keenan: Acho que apenas fizemos o que nos pareceu natural e acabou ficando desse jeito. Não foi algo intencional, acho apenas que aconteceu assim ao juntar novamente nós quatro na mesma sala com o John Custer. Penso que apenas começou a evoluir e eventualmente ganhou vida própria. E nós apenas seguimos por esse caminho.

Já que citou isso, queria saber quais os benefícios, digamos, de ter a bordo um cara como o John Custer, que produziu todos os discos do COC desde o Blind (1991), sendo quase um integrante da banda? Como isso ajuda vocês, não apenas musicalmente, mas também no ambiente de produção, gravação e tudo mais?
Nós apenas temos um repertório e uma maneira de trabalhar juntos que são muito bons. E ele (John) tem tanto conhecimento sobre música... toca guitarra melhor do que qualquer um que eu conheço. Então apenas nos divertimos com isso. Realmente não colocamos muita pressão sobre nós mesmos até que as coisas começaram a tomar forma. O que as pessoas não entendem é que nós gravamos cada música de forma separada, não fizemos todas as baterias de uma vez. Gravamos uma música de cada vez, do início ao fim. Então é uma maneira bem diferente de fazer as coisas. Mas foi algo interessante e que fez com que cada música ganhasse vida própria, sabe?

E todas as músicas do disco eram coisas realmente novas ou vocês tinham coisas que tinha feito antes e gravado de alguma forma e que foram reaproveitadas agora?
Acho que tínhamos dois lances antigos que remodelamos de alguma forma e mudamos algumas coisas. Mas meio que partimos do zero. E muitas das coisas foram apenas um tipo de fluxo de consciência. Após tanto tempo nisso, é melhor você saber o que está fazendo (risos). Mas nós queríamos fazer um disco e não queríamos que soasse como se uns caras velhos estivessem fazendo algum tipo de “reunião”, tinha que ser algo real. Essa era a nossa principal prioridade.

E você está vivendo em Raleigh, na Carolina do Norte (cidade onde moram os outros integrantes do COC) atualmente ou continua em Nova Orleans?
Sim, estou em Nova Orleans. Eu ficava indo e voltando durante a gravação do disco.

Fazia muito tempo que vocês quatro não tocavam e não gravavam nada juntos. Mas também fazia muito tempo que você não cantava, já que toca apenas guitarra no Down, que foi o seu foco nos últimos anos. Por isso, queria saber o que foi mais difícil: voltar a tocar com uma banda com a qual não tocava há cerca de 10 anos ou voltar a tocar guitarra e cantar?
Ahh... Quero dizer, você não esquece realmente como fazer isso (cantar e tocar guitarra). Apenas levou algum tempo para voltar a ficar em forma para poder executar. E entrar no estúdio foi divertido. Já fazia 10 anos que eu não cantava, porra. Quer dizer, eu estive cantando em bandas pequenas, fazendo demos e coisas do tipo, mas nada deste nível.

Vocês fizeram muitos shows com o COC antes de entrarem em estúdio. Por isso, queria saber se gravar um disco já fazia parte do plano inicial da reunião ou se estavam apenas vendo onde tudo levaria vocês?
Bom, originalmente nos reunimos apenas para ver se funcionaria. E fomos para a Europa e as pessoas começaram a lotar os shows e acabamos indo para lá quatro vezes. E também fizemos umas quatro turnês nos EUA, rodamos todos os cantos do país. E então a Nuclear Blast nos procurou enquanto estávamos fazendo esses shows e nos ofereceu um contrato para fazer um disco. Não colocaram nenhum pressão em nós, disseram para levarmos o nosso tempo e fazer o disco do jeito certo. E foi isso que fizemos, apenas levamos o nosso tempo. Mas acabamos fazendo muito mais shows do que esperávamos inicialmente.

E vocês esperavam receber toda essa atenção após tanto tempo separados?
Eu sabia que as pessoas gostavam da banda, mas não tanto assim. É por isso que eu sabia que nós tínhamos de fazer um disco de verdade. Não queria que apenas lançássemos qualquer porcaria. Então levamos o nosso tempo porque realmente queríamos expandir os limites do lugar onde estávamos. Não há muitas bandas por aí que fazem o que nós fazemos, de modo tão amplo e dimensional como fazemos. Por isso, tinha de ser do jeito certo.

Vocês parecem ter uma vibe mais tranquila na banda, já que, tirando o Woody, todo mundo já saiu e voltou do COC, incluindo o Mike Dean, o Reed e você agora mais recentemente. Mas vocês sempre acabam encontrando um jeito de se reunirem. Você acha que isso ajuda a banda a soar tão bem após tanto tempo na estrada?
Acho que sim. Quero dizer, eu realmente parei de tentar ficar descobrindo esse tipo de coisa hoje em dia, sabe? (risos) Você só tem que meio que acompanhar as coisas. E se tiver uma oportunidade para se reunir e tocar, você faz. E foi apenas uma questão de timing. Eu tive uma parada com o Down, resolvemos dar um tempo na banda e tudo apenas se alinhou. Você não pode realmente planejar essas coisas no rock. Se fizer isso, vai acabar se fodendo (risos).

Você comentou que teve alguns projetos não muito sérios nesses últimos anos em que cantou, mas você já pensou em fazer um disco solo talvez?
Ah sim, com certeza. Quero dizer, é algo que está na lista. Eu estava sempre esperando até ficar mais velho para fazer um disco solo. E agora eu sou mais velho, sou mais velho para caralho (risos).

Você já vive em Nova Orleans há bastante tempo, certo? Por isso, queria saber se você foi influenciado diretamente pela música local da cidade, como os grandes artistas de jazz e blues?
Ahh, sim, é claro. Mais as coisas funk, eu acho. Quando era mais novo, costumava ouvir muito bandas como os The Meters e coisas assim. Também ouvia muita coisa de blues do Mississipi. Foi algo gigante, muito importante.

Do ponto de vista de um guitarrista, teve alguma diferença em voltar a tocar com o Woody após tanto tempo tocando com o Kirk (Windstein) e depois com o Bobby (Landgraf) no Down?
Ahh, na verdade, não. O Woody e eu temos um repertório muito bom. Tocamos bem juntos, temos a mesma atitude. Apenas meio que nos apoiamos nisso e seguimos em frente. Não é nada como ciência espacial.

Vocês tem uma música chamada "Vote With a Bullet", que foi a primeira faixa que você cantou no COC, a liás. Por isso, queria saber como você enxerga esse momento atual nos EUA com o Trump e no mundo de forma geral com essa onda conservadora? Acha que as coisas estão piorando?
Sim, sim, é o que parece. Não apenas nos EUA, mas meio que globalmente. Essa é uma das ideias por trás do disco novo, sem cruz e sem coroa. Penso que, entre a política e a religião, em todas as frentes, nós causamos muitos danos (risos). Em vez de apenas tentar vivermos como seres humanos.

Você tem uma relação próxima com o James Hetfield, do Metallica. Ele já gravou uma música com o COC, no Wiseblood, e vocês dividiram o palco diversas vezes. Por isso, queria saber como o conheceu, foi antes de entrar para o COC ou depois de entrar para a banda?
Eu o encontrei uma vez antes de entrar para o COC, mas depois que lançamos o Deliverance (1994), acho que viramos amigos. Foi apenas um lance de respeito mútuo. Ele realmente curtiu o Deliverance e achou que a nossa transição, de onde estávamos para onde estávamos indo, foi algo legal e não havia muitas bandas fazendo isso. Então nos tornamos amigos com o passar dos anos, cara; apenas meio que nos demos bem. Ele está na Itália agora e estava falando com ele por mensagem há pouco.

Já que citou isso, queria saber se você acha que o COC talvez tenha influenciado o Metallica a fazer a transição do Black Album (1991) para o Load (1996), que saiu mais ou menos na época do Wiseblood? É possível ouvir algumas coisas mais stoner nesse disco deles, aliás.
É... quero dizer, o Metallica é como qualquer outra banda em evolução. Eles apenas fazem o que querem. O que é algo legal, já que nós também fazemos isso. Mas nós temos uma identidade e o Metallica certamente também.

Vi que vocês fizeram alguns shows com o Danzig recentemente, certo? E antes disso, há muito tempo, tocaram com ele na época do Blind (1991), quando ele estava com o Danzig II. Como foram os shows naquela época? E li na Internet que você chegou a ser convidado para substituir o John Christ como guitarrista da banda. Isso é verdade? Caso sim, como foi?
Sim, isso foi uma coisa que aconteceu. O Glenn (Danzig) me ligou, mas era uma tarefa difícil naquela época. A turnê tinha o COC, o Soundgarden tocava em segundo e depois vinha o Danzig. Foi há muito tempo, mas foi uma tour boa.

Sempre gosto de perguntar isso. Por favor, me diga três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso.
Três discos? Eu teria que dizer os Ramones. Quando era moleque, eles eram muito importantes pra mim. O Robin Trower também foi muito importante, apenas pelo jeito dele tocar e construir frases na guitarra. O ZZ Top, por razões óbvias — os primeiros discos deles foram muito importantes pra mim. E eu poderia continuar falando por um bom tempo... O Black Sabbath foi muito importante pra mim, o Black Flag também (risos). Sempre mantive a cabeça aberta. É muita coisa para citar apenas três.

E quando você começou a tocar guitarra? Quantos anos tinha e quais eram as suas influências na época?
Eu tinha 14 anos de idade na época. Cara, Ramones e AC/DC eram as minhas duas bandas favoritas quando eu comecei a tocar guitarra. A partir daí, as coisas foram se abrindo.

Você já esteve no Brasil por duas vezes com o Down, em 2011 e 2013. Quais as suas lembranças dessas turnês? E há alguma chance de voltar ao país com o COC?
Cara, isso é tudo o que eu quero fazer! Eu e o Woody só falamos sobre isso, em voltar ao Brasil. Ficamos falando para as pessoas: “Alguém nos leve para a América do Sul! O COC quer desesperadamente ir para lá”. Adoro tudo por aí, a cultura, a comida, as pessoas; também gosto da atitude de vocês. Me divirto pra caralho sempre que vou praí.

(Nota do repórter: a banda acabou confirmando dois shows no Brasil em maio de 2018, em SP no dia 12/5 e no RJ em 13/5, algumas semanas depois da entrevista ser feita.)

E você conhece algum artista ou banda brasileiros além do Sepultura?
Além do Sepultura? Na verdade, não. As únicas outras bandas (brasileiras) que já vi foram no Jazz Festival e eventos do tipo em Nova Orleans. E eram artistas brasileiros de verdade, esse tipo de coisa.

E o que tem escutado ultimamente? Algo mais novo por acaso?
Cara, eu estive tão focado no disco (novo) que meio que “fritei” o meu cérebro, sabe? (risos) Foi um caminho longo para chegar até lá, trabalhamos muito. Mas em termos do que tenho escutado ultimamente, não tenhou ouvido merda nenhuma. Quer dizer, nós ouvimos ZZ Top e tudo mais depois do show, quando estamos no ônibus bebendo cerveja (risos). Mas vou te dizer uma coisa: o disco novo do Zakk Wylde tem algumas músicas legais, estamos em turnê com ele agora ( nota: com o Black Label Society, banda do guitarrista/vocalista).

Li um texto que você escreveu falando sobre a importância do Led Zeppelin na sua vida e que você entendia o fato de eles não se reunirem mais para tocar ao vivo. E há cerca de um ano o Black Sabbath fez o último show da carreira. Como é viver num mundo sem shows do Led Zeppelin e do Black Sabbath?
É, e o Slayer também vai se aposentar... o Lynryd Skynyrd também, o AC/DC. Não vão sobrar muitos por aí. Agora a bola está com nós, as bandas mais novas. Então é isso que estamos tentando fazer, eu acho.

E você pensa nesse tipo de coisa, em parar de tocar e tudo mais? Isso já passou pela sua cabeça?
Isso aconteceu recentemente quando estava apenas pensando em outras bandas e coisas do tipo. Quer dizer, você sabe que o seu tempo é limitado, especialmente no tipo de música que nós fazemos. Então é, é uma viagem do caralho. Estou ficando mais velho, estou com 50 anos de idade, cara. Comecei nisso quando tinha 19 anos, o tempo voa.

Falando nisso, pensa que é mais difícil se cuidar hoje em dia para conseguir tocar e cantar todas as noites na estrada?
Sim, sim. Quer dizer, eu não sou um padre nem nada do tipo (risos). Mas definitivamente não é mais como era antigamente.

Li que você tinha um bar em Nova Orleans. É isso mesmo?
Isso mesmo, eu tenho um bar em Nova Orleans. Agora está acontecendo o Mardi Gras na cidade e as coisas estão uma loucura por lá.

Ah sim, é na mesma época do nosso Carnaval aqui no Brasil, que começa amanhã.
Está acontecendo agora também aí? Legal. Em Nova Orleans também.

E você costuma ir ao bar sempre quando não está em turnê com as bandas por acaso?
Não, não todas as noites. É um negócio estabelecido, já está lá há bastante tempo.

Essas são as duas últimas perguntas. Primeiro: do que você tem mais orgulho na sua carreira?
Acho que teria de dizer apenas a longevidade. O fato de poder estar em duas bandas muito especiais. E nunca ter enganado ninguém. Sempre tentei manter as coisas verdadeiras e realistas. E ser respeitoso nesse sentido tem sido legal.

Aliás, você tem algum disco favorito com o COC e com o Down?
Ahh, cara. Acho que eles são todos bons do seu próprio jeito. Mas acho que o In the Arms of God (2005) foi um grande disco do COC. E acho que o segundo álbum do Down (nota: Down II: A Bustle In Your Hedgerow, de 2002) foi um trabalho muito forte. Mas acho que a maioria das nossas coisas são bem sólidas, quando você para e pega para ouvir.

Essa é a última pergunta. Como você quer ser lembrado?
Apenas como alguém que fez as coisas direito, que disse a verdade, sabe? Não enganou ninguém no meio musical, manteve as coisas verdadeiras. Isso seria o mais importante.

Corrosion of Conformity no Brasil
São Paulo
Sábado, 12/5
Vic Club – R. Marquês de Itu, 284 – Vila Buarque, São Paulo

Rio de Janeiro
Domingo, 13/5
Teatro Odisseia – Av. Mem de Sá, 66 – Centro, Rio de Janeiro

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