reportagem

Facada e neonazismo mobilizam pais e professores em São Paulo

Aluno suspeito de ser adepto do nazismo apunhalou um colega. Duas semanas depois e ainda perplexos, adultos formam grupos de trabalho para refletir a questão.

por Eduardo Ribeiro
11 Abril 2018, 2:32pm

Imagem via Google Street View

Na manhã do último sábado (7), às 8h, professores, uma aluna, pais de alunos e gestores se reuniram numa das salas da Escola Estadual Professora Zuleika de Barros M. Ferreira, no bairro paulistano da Pompeia, para refletir sobre o alarmante caso ocorrido em 26 de março. Naquela manhã, durante o intervalo das aulas, um aluno de 19 anos, indicado pelos colegas como adepto do neonazismo, apunhalou no braço, à altura do ombro, outro rapaz, de 17 anos, quando este foi até ele questionar os seus ideais. Conforme a reportagem da VICE noticiou no calor do momento, ambos foram levados ao 23º DP, onde prestaram depoimento.

O agressor responde por lesão corporal e, segundo boatos, teria sido transferido pelos pais para outra escola pública da região. Não conseguimos confirmar tal informação, pois, de acordo com a direção da escola, até a publicação desta matéria ninguém apareceu para buscar os documentos necessários à sua transferência.

Vinte pessoas estavam presentes na reunião comunitária a que tivemos acesso. “Na primeira reunião tinha muito mais gente”, reclamou uma mãe. “Por outro lado, agora fica quem realmente se importa. Melhor assim”, ponderou ela. Tratava-se do terceiro encontro em busca de soluções. A respeito do primeiro, os pais se disseram decepcionados com o fato de que a Secretaria da Educação enviara a assessoria de imprensa, ao invés de uma autoridade legal, para participar. “E a polícia disse que viria e não veio também”, acrescentou um deles.

"A presença de um entusiasta do nazismo na escola já incomodava os alunos há mais de um ano. Estudantes contam que alertaram aos professores, mas nada adiantou."

Segundo relatos, a questão sobre a presença de um entusiasta do nazismo na escola já incomodava os demais alunos há mais de um ano. Estudantes contam que alertaram aos professores, mas nada adiantou. Isso gerou revolta em alguns jovens, que decidiram agir por conta própria, formando um grupo para intimidar o rapaz. Em 2017, fala-se que uma briga na porta da escola ocorreu entre as partes, que foram advertidas, mas a animosidade seguiu. Em desfecho, uma discussão terminou com o saldo da canivetada no braço.

Impaciente por alguma resolução prática, um pai interrompe a diretora, recém-chegada das férias, que abriu a reunião e tinha para si a exclusividade da palavra já há quase meia hora. “Você se lembra de mim?”, surge a voz uma mãe. “Você não respondeu nenhum e-mail que mandei. Nunca mais eu fui convocada pro conselho. As coisas o ano passado foram omissas, a gente nunca era convocado pra acompanhar nada. E mais: pelo menos uma vez por dia os alunos ficam no pátio sem aula.”

“O inspetor não deixa ninguém entrar sem uniforme, mas deixava esse menino circular com camiseta dos confederados” – afirmou uma mãe de aluno

O ping-pong seguiu: reclamação sobre falta de acesso às tomadas de decisões nos rumos da escola por parte dos pais, de um lado; do outro, acusação de que os pais eram igualmente desinteressados – “Eu adoro pai presente, quando aparece alguém, eu até agradeço, porque é raro”, ironizou uma professora.

No meio disso, a única aluna por ali, uma das organizadoras da manifestação acontecida no dia 27 de março, não deixava por menos: “Avisamos faz tempo que ele desenhava suástica na lousa, o professor até apagava antes de dar aula, mas ninguém tomou uma atitude.” E uma mãe complementava: “O inspetor não deixa ninguém entrar sem uniforme, mas deixava esse menino circular com camiseta dos confederados”. [Os Estados Confederados foram partidários da escravidão durante a Guerra Civil nos Estados Unidos (12 de abril de 1861 - 9 de maio de 1865)]

No fim, quando todos se reconheceram vítimas da mesma precarização social, algumas barreiras começaram a cair. A verdade é que poucos pareciam saber a melhor atitude a ser tomada. “A escola é pública, não posso selecionar os alunos”, desabafou o coordenador pedagógico. Com certo esforço, e ouvidos atentos às sugestões da aluna presente, pais, professores e gestores foram chegando a alguns consensos e a um diálogo mais produtivo.

Grupos de trabalhos foram designados. Atividades regulares de conscientização sobre a importância do respeito à diversidade, contra o racismo e a violência já estão em andamento. Acerca da polícia, o grupo adoraria poder contar com atenção especial. “O problema é que chegam uma hora depois do chamado”, lamentou uma professora.

Após a reunião, pedi para conversar com o professor Tony Nakatani, um dos trabalhadores da escola que se sentiram contrariados em relação à abordagem midiática do caso bem como seu desdobramento nas redes sociais. Ele concedeu esta breve entrevista:

VICE: Professores e gestores da escola se mostraram incomodados com a abordagem da mídia e a repercussão nas redes sociais. Pessoalmente, o que lhe deixou incomodado?
Tony Nakatani:
O que mais me deixou incomodado é o fato da mídia não ter tomado qualquer cuidado na apuração dos fatos, tomando como verdade as declarações de alunos e pais, sem ao menos ter a preocupação de procurar o corpo gestor da escola. Caso tivessem vindo atrás, teriam reportado que a escola não quis se pronunciar. Houve vários erros de condução dos acontecimentos por parte da escola, no entanto, ao não realizar essa apuração, deixar a escola ser o alvo maior, dando chance para que distorções e boatos fossem colocados como fatos. Acho extremamente perigoso, no mundo atual, veículos de comunicação darem escopo para que distorções e boatos ganhem status de fatos, pelo simples fato de que um site publicou determinado relato de pessoas que não têm a coragem de se identificarem, falando especificamente dos pais.

A escola errou, no que ocorreu, pode ter falhado na condução sobre o aluno em questão, acusado de ser neonazista. No entanto, discordo que tenha havido negligência, sobretudo com relação ao aluno ter entrado armado na escola. Desculpa, mas o fato de terem falado que o aluno já tinha vindo armado no ano passado não pode ser utilizado como argumento para afirmarmos que já sabíamos que o aluno andava armado, uma vez que ele tinha sido notificado e suspenso pelo ocorrido. Como escola, é dever acreditar na mudança de comportamento do aluno, caso contrário, teremos de tratar todos os alunos como potenciais deliquentes, ainda que a legislação nos impeça de revistarmos as mochilas de todos os alunos.

Alunos e pais disseram que era de conhecimento geral que o aluno agressor era simpático às ideias nazifascistas. Isso é verdade? Se sim, alguma atitude foi tomada? Gestão e professores se sentem inseguros ou receosos em tomar medidas mais enérgicas em relação a alunos com comportamentos ameaçadores, talvez pela falta de respaldo das autoridades policiais e da Secretaria de Educação?
De minha parte, e até onde eu sei, a gestão não tinha conhecimento sobre o aluno ser simpático às ideias nazifascistas. Eu mesmo somente fiquei sabendo disso na quinta-feira, três ou quatro dias antes do ocorrido, sendo que eu havia discutido sobre isso com os alunos em sala de aula, no início do ano, e nenhum aluno me veio relatar esse viés do referido aluno. Nesta quinta-feira que antecedeu o ocorrido, por conta do inspetor, vi que ele tinha na sua blusa um patch da bandeira dos confederados, mas a blusa em si tinha outras figuras, que não pude reparar direito sobre o que eram, mas, de forma mais definida, sobre algo que remeta a ideologias de direita, apenas a bandeira dos confederados.

Nesse mesmo dia, foi tratado sobre esse assunto, na reunião entre os professores, se havia alguma necessidade de se trabalhar de forma mais atenta com esse aluno, mas até então, em minha aula, o aluno jamais havia se posicionado de forma a dar a entender sobre as suas posturas ideológicas, pois era um aluno que não participava de minha aula. Portanto, não tendo a concordar com os pais e alunos nesse ponto. E tendo a acreditar que se esse fato fosse de conhecimento geral, nós, professores, não apenas em reuniões, como também na sala dos professores teríamos falado sobre ele, não teria passado em branco. Talvez, a partir do que aconteceu, teremos que ter mais atenção sobre isso, mas ainda que convivamos diariamente com os alunos, em muitos casos, eles acabam se escondendo, daí ser importante o posicionamento dos alunos. Com relação às atitudes, pelo que consta a atitude do aluno não possuía um comportamento ameaçador no sentido prático de ameaçar pessoas dentro da escola. Ao menos isso nunca me foi relatado. Posso concordar que havia um componente provocativo quando afirmaram que ele desenhou suástica e outros símbolos relacionados ao nazismo, mas ele não tinha o perfil do aluno que explicitamente ameaçava, pelos corredores, alunos negros.

Novamente, esses relatos nunca chegaram até mim, portanto, é uma afirmação do ponto de vista pessoal, da mesma forma que nunca ouvi isso de outros professores, nem do corpo gestor da escola. Portanto, não tenho como falar sobre falta de atitude com relação a esse tipo de comportamento. Agora, se estiver falando sobre aspectos da manifestação de ideologias nazifascistas, isso é trabalhado nos conteúdos curriculares de praticamente todas as disciplinas das ciências humanas, ou seja, ela está presente no cotidiano escolar. Além disso, foram apresentados projetos para se trabalhar aspectos que tocam às temáticas da intolerância e do respeito ao outro. Há um trabalho sendo feito, há um olhar para esses temas delicados, há uma preocupação para que esse tipo de pensamento não ganhe espaço na escola.

Ex-alunos, ex-professores, alunos e pais de alunos reclamam sobre o autoritarismo da parte do inspetor. A respeito do caso recente, alunos me disseram que só ele tem a chave dos portões e costuma barrar estudantes que vêm sem uniforme, enquanto permitia a presença do garoto com camisetas, patches e broches ostentando simbologia nazista. Gostaria de saber se isso é de conhecimento dos professores e gestores. Numa reflexão após o ocorrido, os princípios e práticas do inspetor também serão colocados em pauta?
Não tenho como afirmar sobre esse assunto, pois não converso muito com o inspetor e somente tenho os relatos dos alunos sobre esse tema, portanto, não posso afirmar que tenha havido alguma conivência por parte dele ou não. Em relação ao autoritarismo, posso ter minhas discordâncias na forma como, muitas vezes, ele aborda os alunos, de uma maneira ríspida. Sinceramente, não sei como opinar sobre isso. Pessoalmente, procuro trabalhar numa chave que busca fomentar o diálogo, mas há diversos momentos em sala de aula em que somos exigidos a ter uma postura mais rígida, caso contrário, perdemos o rumo da gestão da aula. Acredito que o que ocorreu na escola pode - e deve ser - um divisor de águas para muitas coisas, sobretudo na forma como a escola conduz as suas práticas, de gestão, de relação com os alunos, de relação com os pais e responsáveis.

Trata-se de um ocorrido lamentável, ninguém nega, da mesma forma que ninguém quer minimizar o que aconteceu. Mesmo como professor, acusar a direção de tentar amenizar, isso acaba me atingindo também. E mais, se não trabalharmos de forma unida, e todos ficarem jogando pedras sobre os erros da escola, acredito que não caminharemos para superar o que ocorreu. Todos estamos empenhados para que coisas como essa não ocorra, nem dentro nem fora da escola, portanto todos os lados nesta história também precisam refletir sobre as práticas, pois o aluno agressor não defende essas ideias apenas dentro da escola, ele continua na sociedade, como já defendia essas ideias publicamente nas redes sociais. O que foi feito?

Acho que isso é um ponto reflexivo que precisamos ter, pois fica a impressão de que só a escola falhou nesse caso, quando, em realidade, podemos apontar para toda a sociedade, que não tem atuado de forma mais incisiva para coibir essas manifestações. Pessoalmente, acredito que muita coisa deva ser feita, sobre as práticas escolares, não apenas do inspetor, mas de todos, e é somente com a participação de todos que podemos nos enxergar e buscar melhores soluções para os problemas que estão dentro e fora dos nossos muros, mas que saibamos separar quais são aqueles que competem exclusivamente à escola e como ela pode colaborar para deixar o espaço mais seguro e harmonioso para todos que nela convivem diariamente.

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