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Balé e balas: aulas de dança no meio do fogo cruzado

No Rio de Janeiro, cultura como uma força de resistência e mudança.

por Frederick Bernas, e Rayan Hindi ; Traduzido por Marina Schnoor
21 Janeiro 2019, 12:23pm

Fotos: Frederick Bernas.

Milhões de crianças do mundo todo sonham em dançar – seja hip hop, salsa, passinho ou balé. Algumas têm a oportunidade de aprender, outras não – às vezes por causa do tempo, dinheiro, da família, de tabus culturais, de acesso a escolas ou dezenas de outros motivos.

O medo de ser atingido num tiroteio não deveria estar nessa lista – mas é um perigo real para Tuany Nascimento e as alunas do projeto Na Ponta dos Pés no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

Ano passado, enquanto filmávamos nosso documentário da VICE Balé e Balas, nossa equipe teve um gostinho dessa amarga realidade num ginásio aberto no Morro do Adeus, onde as garotas moram. Enquanto Tuany colocava suas pupilas nas posições corretas, fazendo alongamentos e ensaiando rotinas – como em qualquer outra aula de balé do mundo – uma rajada de tiros rasgou o ar.

Pânico. Não tínhamos ideia de onde o barulho veio, mas foi perto. Corremos procurando abrigo. Felizmente, ninguém do grupo se machucou. O caos acabou minutos depois, mas um menino que assistia curioso as jovens bailarinas de um telhado próximo, empinando uma pipa, foi ferido por uma bala perdida, além de outro inocente nas proximidades.

O Morro do Adeus fica no coração de um conflito perpétuo entre traficantes rivais, que controlam diferentes partes do Alemão – uma vasta rede de comunidades com uma população que pode chegar a 120 mil pessoas. Batidas frequentes da polícia só aumentam a tensão.

A situação assustadora que capturamos em vídeo foi um pequeno vislumbre do que essas garotas corajosas vivem todos os dias. Muitas delas perderam amigos e parentes; algumas noites, os tiros seguem por horas e horas. As lágrimas de medo delas não serão esquecidas tão fácil – além de uma sensação confusa enquanto deixávamos a favela, dirigindo de volta para a segurança num silêncio pesado.

A história trágica recente do Rio é bem documentada. Em 2017, 6.500 pessoas foram mortas na cidade (e 64 mil nacionalmente – cerca de seis vezes mais que nos EUA, por exemplo). O site e aplicativo de celular Fogo Cruzado mapeia dados fornecidos por usuários em tempo real, ajudando a população a evitar violência em potencial, é sinistramente popular.

Com a economia brasileira num péssimo estado nos últimos anos, os governos municipais sem dinheiro precisaram de empréstimos federais para equilibrar suas contas, incluindo salários da polícia, enquanto o crime teve um pico. O exército realiza operações regulares em favelas, e os soldados têm uma presença desconcertante nas áreas centrais.

Essa situação turbulenta é um espelho do clima político atual. No dia 28 de outubro, Jair Bolsonaro venceu o segundo turno da eleição presidencial, com 55% dos votos, depois de realizar uma campanha tóxica. Sua carreira como deputado de direita tem pouca política e muita xenofobia, homofobia, racismo e machismo.

Conhecido por admirar tiranos como Augusto Pinochet e a ditadura que governou o Brasil de 1964 a 1985, Bolsonaro criou uma plataforma populista que inclui lutar contra o crime relaxando o porte de arma, e dar à polícia mais liberdade para atirar primeiro e perguntar depois.

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Tuany Nascimento.

“Por mim, todo cidadão teria uma arma em casa”, ele disse em 2017, antes de prometer “não dar mais dinheiro para ONGs” se fosse eleito. O candidato repetiu suas promessas ano passado, jurando “acabar com todo o ativismo no Brasil” – um ameaça sombria para os moradores das favelas do Rio, onde grupos comunitários têm uma tradição forte de ação popular.

Quando os resultados foram confirmados naquela noite de domingo, soldados fizeram um desfile improvisado nas ruas de Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro. Os morros do Complexo do Alemão ecoaram com uma cacofonia sinistra enquanto policiais atiravam para o alto em comemoração.

Numa época de polarização política feia, a frágil democracia do Brasil, já infestada de corrupção, está encarando uma crise sem precedentes – o que, pelos nossos padrões, quer dizer alguma coisa.

E, mais perturbador, o presidente eleito apoiou abertamente violência autoritária sobre a democracia: “Você não muda nada neste país através do voto – nada, absolutamente nada”, ele disse em 1999. “Infelizmente, você só muda as coisas travando uma guerra civil e fazendo o trabalho que o regime militar não fez... matar. Se alguns inocentes morrerem, tudo bem.”

A administração de Bolsonaro significa que é ainda mais importante contar a história dessas jovens inspiradoras, que usam a dança para buscar uma vida melhor, canalizando o poder da cultura como uma força de resistência e mudança.

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Tuany Nascimento e as alunas do projeto Na Ponta dos Pés no Rio.

Num nível prático, as chances de planos de segurança pública mais agressivos sob Bolsonaro aumentam a necessidade das bailarinas de Tuany encontrarem um lugar seguro, longe dos ginásios abertos onde elas treinam atualmente.

A boa notícia é que elas estão perto de conseguir esse objetivo: um terreno já foi assegurado, e as fundações já foram construídas. Moradores locais prometeram ajudar com mão de obra e alguns materiais de construção, mas é necessário um último impulso.

Esperamos que esse documentário gere o novo impulso, para que o centro comunitário Na Ponta dos Pés finalmente se torne realidade.

Os diretores do documentário fizeram uma página no JustGiving para receber doações para o Na Ponta dos Pés. Clique aqui para ajudar.

Facebook, Instagram e Twitter do Projeto Na Ponta dos Pés.

Balé e Balas: foi produzido com apoio do Pulitzer Center on Crisis Reporting.

@frederickbernas / @rayanhindi

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