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O blogueiro que desafiou o ISIS

“Claro que eu tinha medo que o ISIS me encontrasse e me matasse, mas estava mais preocupado com as coisas horríveis que eles fariam com a minha família.”

por Moustafa Saadoun; ilustrado por Lisa Raneva; Traduzido por Marina Schnoor
17 Novembro 2017, 9:00am

Ilustrações por Lisa Raneva.

Essa matéria foi originalmente publicada na VICE Arábia.

Quando o ISIS capturou a cidade iraquiana de Mossul no começo de junho de 2014, um morador decidiu começar um blog, tentando ajudar pessoas da cidade e de fora a se manterem informadas sobre o que estava realmente acontecendo sob o regime terrorista. O “não-jornalista”, como ele se descreve, lançou o Mosul Eye, onde registrava as decisões, movimentos e ações planejadas do ISIS em torno de Mossul – às vezes conseguindo as informações simplesmente conversando com militantes nas ruas. O assunto variava de relatórios diários sobre a situação na cidade a atualizações de contra-operações militares e detalhes da estratégia do ISIS.

O site continuou publicando notícias por toda a duração da ocupação de três anos do ISIS. Algumas das postagens supostamente ajudaram o exército iraquiano a encontrar quartéis-generais do grupo. Mas enquanto a popularidade do site crescia, também crescia o número de ameaças de morte que o ISIS mandava para quem o estava publicando – geralmente via e-mail e nos comentários dos posts do blog. O escritor se sentiu tão ameaçado que fugiu do Iraque logo antes de Mossul ser libertada em julho de 2017.

A VICE Arábia falou com o criador do Mosul Eye, sob condição de anonimato, para saber por que ele começou o blog, como é ser alvo do ISIS e o que ele vai fazer agora.

VICE: O que motivou a começar o Ain Al Mosul?
Mosul Eye: No dia em que o ISIS ocupou Mossul, tudo parecia sem esperança. Naquele momento, eu já estava usando minha página pessoal no Facebook para postar notícias e informações, então decidi ir além e lançar um blog para tentar documentar tudo que estava acontecendo na cidade. Logo depois que comecei o blog, dezenas de pessoas começaram a tentar entrar em contato comigo, mas nunca respondi por medo de que fossem combatentes do ISIS tentando me rastrear.

Onde você encontrou a coragem para escrever um blog assim?
Para ser honesto, nunca me achei o tipo de pessoa corajosa o suficiente para fazer algo desse tipo. Quando comecei, o ISIS estava espalhando muita propaganda falsa sobre como as pessoas da cidade ficaram felizes com a chegada deles e como, sob o controle deles, todo mundo estava vivendo em paz e prosperidade. Tudo o que eu queria era ajudar as pessoas da cidade dando a verdade a elas. Quanto mais focado eu estava nessa tarefa, mais fácil era.

De onde você tirava as informações?
Eu simplesmente andava pela cidade e anotava como os combatentes do ISIS estavam tratando as pessoas – claro, sem usar uma caneta ou um celular para registrar o que via. Eu memorizava tudo, depois escrevia quando chegava em casa.

Então você falou com combatentes do ISIS pessoalmente?
Claro, quando eu os via no mercado ou em lugares públicos. Eu geralmente me sentia confortável o suficiente pra entrar em discussões com eles sobre religião e política, porque tenho um bom conhecimento da ideologia deles. Mas uma vez as coisas esquentaram quando eles perguntaram se eu tinha jurado lealdade ao líder deles, Abu Bakr al-Baghadadi. Se eu dissesse sim, eles poderiam me pedir para fazer algo para provar essa lealdade, mas se dissesse não, eles poderiam me matar. Felizmente, consegui contornar a pergunta mudando de assunto.

Qual o mais perto que você chegou de ser pego?
Um dia, depois de conversar com alguns combatentes do ISIS, eu estupidamente corri para casa e escrevi no blog uma história específica que eles tinham me contado. Alguns dias depois, vi os mesmos caras e eles me pediram para explicar como aquela informação acabou no site. Neguei até que conhecia o site. Aí eles me contaram tudo que estavam fazendo para caçar o cara no comando do blog. Foi assustador.

O que eles estavam fazendo para te encontrar? O ISIS tinha acesso às informações pessoais dos usuários de internet de Mossul, certo?
Sim – e novamente, tive muita sorte. O ISIS obrigou os provedores de internet a entregar informações privadas de todos os clientes na cidade, assim eles podia monitorar a atividade de todo mundo. Mas um amigo meu era provedor de internet. Eu pagava a ele o dobro pela conexão, então ele não passava minhas informações para o ISIS.

Como tudo isso te afetou pessoalmente?
Claro que eu tinha medo que o ISIS me encontrasse e me matasse, mas estava mais preocupado com as coisas horríveis que eles fariam com a minha família, que nem sabia que eu escrevia o blog. Sempre que alguém batia na porta, eu pensava que era o ISIS. E me preparava silenciosamente para o pior.

Você sabe se o blog ajudou direta ou indiretamente as forças de segurança?
Recebi mensagens dizendo que meu blog estava ajudando o exército iraquiano a rastrear combatentes do ISIS e seus quartéis-generais. Claro, eu ficava feliz em saber que a informação que eu fornecia estava sendo usada para ajudar as pessoas de Mossul, mas, honestamente, nunca pensei em fazer nada além de apenas documentar o que eu via – não sou jornalista nem agente da inteligência.

Qual você acha que foi sua postagem mais significativa na luta contra o ISIS?
Fui um dos primeiros a escrever sobre a estrutura da organização deles e as hierarquias estabelecidas dentro da organização. Isso expôs o sistema deles, e os enfraqueceu.

Você acabou precisando fugir do Iraque. Você já está de volta?
Prefiro não dizer onde estou agora, mas sim, decidi sair do país depois de receber uma ameaça direta do ISIS um pouco antes de Mossul ser libertada. Consegui escapar através da Síria com ajuda de contrabandistas turcos, pagando US$1 mil a eles.

Quais são seus planos para o blog agora?
Eu gostaria de mantê-lo ativo, mas agora documentando o renascimento cultura de Mossul e como os jovens estão contribuindo para isso. Ou posso parar de vez e voltar para minha vida normal.

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