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O 'anjo da morte' que matou as crianças que ela deveria salvar

Os crimes de Beverley Allitt foram uma das primeiras vezes que o público britânico foi exposto a Munchausen por procuração.

por James McMahon; Traduzido por Marina Schnoor
04 Novembro 2019, 1:34pm

Beverley Allitt. Imagens cortesia de Discovery Communications, LLC. 

A cidade de Grantham não rende muitas notícias. Margaret Thatcher nasceu lá, Isaac Newton estudou na cidade e, em 1740, o biscoito de gengibre foi inventado por um padeiro local, William Eggleston. Aí, em 4 de outubro de 1968, Beverley Gail Allitt nasceu no vilarejo de Lincolnshire de Corby Glen, 14 quilômetros ao sul.

Em 1991, Allitt – então trabalhando como enfermeira na ala infantil do Hospital Grantham and Kesteven – matou quatro crianças, tentou assassinar outras três e causou graves danos corporais a mais seis.

“Faz 28 anos que tudo aconteceu”, diz o detetive superintendente aposentado de 74 anos Stuart Clifton, o homem que prendeu Allitt. “Foi um caso que sacudiu a comunidade como nenhum outro. Foi o caso mais famoso em que trabalhei, e um caso com que vivo desde então. Casos com crianças fazem isso com você.”

O caso Allitt foi diferente de qualquer coisa que o Reino Unido viu em mais de um século. Em 1862, a enfermeira Catherine Wilson – também de Lincolnshire, e a última mulher britânica a ser enforcada em público – recebeu a pena de morte por matar um de seus pacientes. Acredita-se que ela matou outros seis. Mas em 1991, quando crianças começaram a morrer na Ala 4 do hospital de Grantham – Liam Taylor (7 semanas) em 22 de fevereiro, Timothy Hardwick (11) em 5 de março, Becky Phillips (dois meses) em 1º de abril e Claire Peck (15 meses) em 22 de abril – era inimaginável que um dos funcionários do hospital pudesse ser o responsável.

“Foi um caso difícil por muitas razões”, lembra DS Clifton. “Quando me envolvi, minha preocupação é que eu não sabia nada sobre questões médicas. Então, nos primeiros dias do caso, havia pouca cooperação das famílias das vítimas porque, compreensivelmente, eles acharam que o hospital tinha feito um ótimo trabalho salvando as crianças que sobreviveram. Havia essa suspeita da polícia chegando quando não era necessário.”

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Algumas das crianças mortas ou envenenadas por Beverley Allitt.

Os pais estavam tão incrédulos da culpa do hospital no choque depois das mortes e doenças inexplicáveis que, quando Katie Phillips (2 meses) – irmã gêmea de Becky – teve que ser ressuscitada duas vezes depois de episódios de apneia inexplicáveis (mais tarde determinado que foram causados por overdose de insulina e potássio) eles pediram que Allitt fosse madrinha de Katie. Era um jeito de agradecer a jovem enfermeira pelo cuidado que ela mostrou com a filha deles. “Ela parecia muito competente, no controle, e eu confiei nela”, a Sra. Phillips disse enquanto Allitt estava sendo julgada por assassinato no Tribunal Nottinham Crown, em 1993. Katie está viva, mas com sérios danos cerebrais e cegueira parcial.

O caso só se tornou um inquérito de assassinato quando DS Clifton e sua equipe decidiram se concentrar em um dos sobreviventes, Paul Crampton, de cinco meses. Paul foi internado com uma infecção no peito, mas exames revelaram que ele tinha um nível anormalmente alto de insulina no sangue: 43,147 miliunidades. Os exames foram feitos no Hospital Universitário em Cardiff, onde emergiu que só uma pessoa tinha tido uma leitura tão alta – um médico que usou uma overdose da droga para se matar. Mais tarde ficaria estabelecido que Allitt deu a Paul três overdoses de insulina no dia em que ele teve uma convulsão.

Eventualmente, havia crianças demais em estado grave para que suspeitas não fossem levantadas, e quando Claire Peck, de 1 ano e três meses, morreu de ataque cardíaco em 22 de abril, o Dr. Nelson Porter exigiu que Clifton e sua equipe fossem trazidos. Claire foi exumada, e lidocaína – uma droga usada para adultos tendo parada cardíaca – foi encontrada no sangue do bebê. Esse resultado do exame, o fato de que Allitt disse que perdeu a chave para o gabinete de insulina, as 25 páginas do diário da enfermaria – cobrindo as mortes e doenças – que foram rasgadas, além dela estar presente em todas as mortes, significou que Allitt, então com 22 anos, se tornou a principal suspeita. Ela foi presa em novembro de 1991.

“Ela era uma garota estranha”, disse DS Clifton. “Achei isso no momento em que a conheci. Ela não mostrou nenhum sinal de alguém – uma pessoa jovem – que estava sendo interrogada pela polícia pela primeira vez. Ela nunca tinha tido problemas antes. Não havia medo ali. Ela era confiante. Nos interrogatórios ela falava abertamente sobre qualquer coisa – futebol, o tempo, qualquer coisa digna de nota – mas no momento em que chegávamos nos eventos que aconteceram no hospital, ela não falava.”

Quando Allitt foi levada a julgamento, o retrato de uma mulher profundamente perturbada começou a emergir. Um psiquiatra forense a descreveu como “essa moça muito prejudicada”, e foi revelado que, da infância em diante, Allitt muitas vezes fazia curativos em si mesma para ferimentos que não tinha sofrido. Uma vez ela fingiu sintomas de um apêndice rompido. Ela foi levada para o hospital e o órgão foi removido apesar de estar perfeitamente saudável, aí ela arrancou os pontos por meses para prolongar a recuperação.

Durante outra internação, ela foi pega mexendo no termômetro para ter uma leitura mais alta. Na mesma internação ela se feriu no peito direito numa tentativa de se injetar com água. Quando estava estudando enfermagem, ela deixou fezes humanas na geladeira como “uma brincadeira”. Ela falava sem parar sobre seu apartamento ser assombrado por um poltergeist. Aí alguém levantou a possibilidade de Beverley Allit sofrer de síndrome de Munchausen por procuração.

O escritor alemão Rudolf Erich Raspe meio que não criou o personagem Barão de Munchausen para seu livro de 1785 As Aventuras do Barão de Munchausen, mas cooptou a identidade de um verdadeiro barão alemão, Hieronymus Karl Friedrich, Freiherr von Münchhausen. O Münchhausen da vida real, que lutou pelo Império Russo na Guerra Russo-Turca de 1735 – 1739, era conhecido nos círculos aristocráticos por suas histórias mirabolantes. Ele dizia ter lutado com um crocodilo de 12 metros, que saiu voando montando numa bola de canhão. Ele até disse que tinha ido para a lua. Com o tempo, seu nome – sem surpresa – se tornou sinônimo de enganação.

“Münchhausen” hoje em dia é mais usado para discutir a prática criminosa de fazer outros – quase sempre crianças – ficarem doentes para conseguir simpatia para o perpetrador. O termo “síndrome de Munchausen” não foi usado até 1951, quando o endocrinologista e hematologista britânico Richard Asher usou essa descrição no jornal médico The Lancet, enquanto o primeiro uso de “síndrome de Munchausen por procuração” data de 1977, quando o pediatra britânico Roy Meadow o usou para descrever as ações de uma mãe que envenenou seu bebê com sal, e outra que acrescentou seu sangue na amostra de urina do filho. Só agora – graças ao interesse criado pela popularidade do drama da Netflix The Politician, a minissérie Objetos Cortantes da HBO, e o documentário Mamãe Morta e Querida – que o transtorno está começando a ser reconhecido como uma doença.

“Não acho que Beverly era doente”, diz DS Clifton, “a menos que querer estar no centro das atenções seja uma doença. O que acho que Beverly estava fazendo era causar mal para as crianças, depois descobrir esse mal para ganhar elogios. Ela estava fazendo isso por autogratificação. Ela queria que as pessoas dissessem que ela era uma boa enfermeira. Ela queria matar as crianças? Acho essa pergunta difícil de responder, porque quando você aplica drogas em crianças, qualquer um sabe que tem uma boa chance de você causar a morte ou danos permanentes. Ela devia saber o perigo inerente do que estava fazendo”.

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DS Stuart Clifton.

O termo formal para Munchausen é “transtorno factício imposto a outro”, mas esse e seu nome coloquial são termos que causam muita controvérsia. Há disputas sobre a autenticidade do transtorno. O Reino Unido, como a Austrália, atualmente vê isso como algo além da entidade médico-legal. Em 2004, a Suprema Corte de Queensland, Austrália, declarou que “o termo transtorno factício (Síndrome de Munchausen) por procuração meramente descreve um comportamento, não uma doença ou condição identificável psiquiatricamente”. Nas palavras de DS Clifton, isso é “não um motivo para um crime, mas pode ser uma explicação para ele”.

Beverley Allitt foi sentenciada em maio de 1993 no Tribunal de Nottingham Crown. Ela pegou 13 prisões perpétuas por seus crimes. Os jornais deram manchetes com o apelido “ANJO DA MORTE”, um nome que ela vai compartilhar para sempre o médico nazista de Auschwitz Josef Mengele. No julgamento, Justice Latham disse que Allitt era “um perigo sério” para outros e dificilmente seria considerada segura para ser solta um dia. Ela está internada no Rampton Secure Hospital em Nottinghamshire, onde há relatos dela enfiando clipes de papel pelo corpo e derramando água fervente em si mesma.

Os crimes de Beverley Allitt foram hediondos, e ainda assim, três décadas depois a comunidade médica ainda não sabe o que faz a síndrome de Munchausen se desenvolver em alguém, com apenas sinais rudimentares para detectá-la e nenhuma ideia de como a síndrome possa ser tratada. “Acho que você não pode fazer nada num hospital que possa parar essa coisa”, diz DS Clifton. “Se você tem uma enfermeira criminosa, seria muito difícil identificar.”

@jamesjammcmahon

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