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Este antropólogo levou muito soco para entender o boxe de rua

Por mais de dois anos, Michel de Paula Soares subiu nos ringues de São Paulo e destrinchou a complexa relação entre raça, imigração, classe e masculinidade no esporte.

por Priscilla Santos
04 Dezembro 2018, 9:00am

O pesquisador Michel de Paula Soares dedica boa parte de sua dissertação de mestrado, defendida em Antropologia Social na USP no último dia 22 de novembro, a contar a história dos boxeadores com quem conviveu nos pelo menos últimos dois anos. São, em sua maioria, homens que calçam as luvas para lutar contra inimigos reais ou imaginários, muitas vezes metáforas das adversidades cotidianas, conflitos do dia a dia personificados em sacos de pancada.

Michel, também conhecido como Micha, entrou em campo – no caso, em ringue – em 2015. Mas já trazia o boxe em sua memória afetiva e visceral. Filho de pai metalúrgico e mãe dona-de-casa, criado na periferia de Guarulhos, em São Paulo, ele ouvia histórias de boxe do pai e do avô e chegou a assistir a algumas lutas num ringue perto de casa. Na vida adulta, Michel frequentou por cerca de um ano uma academia de boxe em sua vizinhança.

Quando resolveu baixar no ginásio do Viaduto do Glicério, centro de São Paulo – onde treinavam muitos imigrantes africanos, especialmente da Angola, Haiti e Nigéria –, a prática já não era assim uma desconhecida. Além do local, ele frequentou mais duas academias paulistanas, no Tatuapé e Bom Retiro. E descobriu que o mundo do boxe envolve "uma emaranhada e complexa trama política-social”, o que incluiu migrações transnacionais, racismo e violência, disciplina e sacrifício. Ele registrou tudo com caneta e fotografias.

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Foto: Michel de Paula Soares

No meio do caminho, para a tese, descobriu imigrantes africanos que acham que brasileiro tem medo de viajar e só fala uma língua e ainda mal (clara provocação ao nosso português), um ex-presidiário sobrevivente da chacina no pavilhão nove do Carandiru que parece ter se afeiçoado ao pesquisador a ponto de pedi-lo, à beira da morte, para ajudá-lo a encontrar seu verdadeiro pai. Também achou um treinador que luta por um boxe antifascista, dando aula em ocupações urbanas, favelas e centros culturais, e uma mulher que passou a treinar após apanhar de um namorado pugilista.

VICE: Em sua dissertação, há uma citação que diz que, para saber quem está por baixo na sociedade, temos que ver o boxe. Como a atividade se associa a questões de classe?
Michel Soares: O “boxe de verdade”, “boxe de rua”, como denominam alguns de meus colegas de treino, permanece estigmatizado como atividade racializada, dado seu histórico de recrutamento principalmente entre a classe operária. A citação que você menciona é do Dee Dee, treinador da academia que o Wacquant [Loïc Wacquant, sociólogo francês autor de uma das mais icônicas etnografias sobre o boxe, “Corpo e alma: Notas etnográficas de um aprendiz de boxe” (2002)] frequentou. Ele disse isso fazendo o histórico do boxe americano. No começo do século passado, os melhores boxeadores eram os judeus. Nos anos 50 e 60 foram os negros. Já nos anos 80, os mexicanos. Em cada geração são grupos que têm relação de imigração, vulnerabilidade. Quando vou falar sobre boxe em São Paulo hoje, conto sobre dois angolanos que trazem consigo histórias potentes de migração. Meu trabalho inteiro, aliás, fala sobre mobilidade. Seja em cima do ringue, naquele quadrado de 3 x 3, seja entre África e Brasil. É uma definição da própria prática: boxe é movimento.

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Foto: Michel de Paula Soares

O que você chama de "cosmopolitismo selvagem"?

A ideia de cosmopolitismo vem do debate de autores como o antropólogo haitiano Joseph Handerson – que trabalha no Brasil atualmente, e escreve sobre diáspora e mobilidade haitiana – e do que meus amigos angolanos me falam. [Jonas e Leon] são dois caras que vivem em situação vulnerável no Brasil, com empregos subproletarizados, terceirizados, com salários pouco acima do mínimo, em condições de estrutura arquitetônica e modos de vida precarizados, mas, ao mesmo tempo, me dizem que aquilo é uma opção deles. Quando esses colegas angolanos me falam: "vocês brasileiros têm medo de viajar”, por exemplo, eles estão se colocando numa condição favorável à nossa porque têm a possibilidade de circular em lugares pelos quais nós não teríamos coragem. Tem uma frase da Veena Das [antropóloga indiana] que diz: ser vulnerável não é o mesmo que ser vítima. Eles não são uns coitados, apesar de virem de locais e situações vulneráveis. Pelo contrário. Outros termos dito por eles, nesse sentido, recheiam meu caderno de campo: “vitorioso", "forte", "trabalhador".

Mas e o "selvagem"?

Chamo de ‘cosmopolitismo selvagem’ a maneira de vida de boxeadores que viajam para outros países para lutar profissionalmente. É uma atividade antiga. Onde quer que exista classe operária numerosa e disponibilidade de corpos para a prática do boxe tem isso. Conheci irmãos gêmeos boxeadores na casa dos 50 anos, foram profissionais nos anos 80. Um deles fez mais de 40 lutas fora do Brasil, não ganhou nenhuma. Quando você pede que conte histórias de boxe ele fala sobre as aventuras no exterior. Ganhar ou perder não importa. Mas tudo que envolve a luta – preparação física, emocional, regimes, viagem, a experiência de uma disputa internacional e principalmente as bolsas pagas em moedas mais valorizadas que o real brasileiro. Assim, suas derrotas são como vitórias. Digo que é selvagem porque é uma forma do capital circular esses corpos da mesma maneira que circula objetos. São pessoas que se agarram a essas oportunidades, mesmo sabendo que para algumas lutas elas vão oficialmente para perder.

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Foto: Michel de Paula Soares

Como assim?

Muitas vezes o acordo desde o início é ir para perder. O cara vai para fazer a escadinha de um atleta em quem existe investimento – normalmente vindo de grandes centros do boxe, como Inglaterra, EUA e México, ou, em casos mais próximos, da Argentina. Pode ser que a conversa seja: você tem que perder no quarto round. Ou que, no momento antes da luta, o boxeador seja avisado de que não é de bom tom vencer. Já vi um caso desses. O atleta me disse: "perdi, mas dessa vez se eu quisesse ganhava". É uma exploração do trabalhador que beira o pré-capitalismo, como aparece no Django (2012), filme do [Quentin] Tarantino, em que um fazendeiro compra lutadores. Provavelmente isso existiu no Brasil, com senhores tendo escravos boxeadores.

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Foto: Michel de Paula Soares

O corpo negro favorece a prática do boxe?

Não sei se a ideia de um corpo biológico. Mas o corpo negro favorece a prática porque ela foi ocupada por uma classe que é formada também por raça. Raça e classe são dois marcadores que, inclusive, alguns estudiosos dizem que não dá para separar. Se o boxe sempre foi ocupado pela classe trabalhadora, sempre foi ocupado pela raça negra. O argumento que discuto é como, por mais que nem todos os frequentadores sejam negros, se considerem negros ou se reconheçam como pessoas negras, o boxe é um território continuamente racializado. Parece que o corpo boxeador, acoplando sentidos, históricos e representações marginalizadas, encarna um não-desejado, racializado e disruptivo. A equipe de boxe no Tatuapé, por exemplo, é uma "ilha de marginalidade " dentro de um bairro nobre. Um território que coloca em evidência estruturas de classe, raça e gênero atuantes.

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Foto: Michel de Paula Soares

Um dos praticantes que você conversou disse: “Antes só quem praticava era ladrão ou presidiário, hoje o boxe está em diversas academias, é o esporte que mais paga no mundo. Mudou pra melhor”. Melhorou mesmo?

Existe um esforço dessas pessoas de dizer que essa atividade historicamente marginalizada, estigmatizada como brutal, de pouco conteúdo sensível, reflexivo, tomada como algo supérfluo, nada mais que uma mera forma de combate entre pessoas grosseiras, é muito mais que isso. O boxe é carregado de sentidos, de afetos. Como essa prática, algo que no período colonial era uma maneira de exploração do corpo escravizado, atravessa o século 20 e hoje se encontra entre dois movimentos: o de fugir de uma lógica de exploração, e, ao mesmo tempo, de ser uma forma mercadológica de inserção profissional, que não escapa à exploração.

Você faz uma distinção entre o boxe fantástico e o cotidiano. Como é isso?

Uma das ferramentas desses praticantes para colocar o boxe para além de seu lugar brutal é se apropriar de uma construção que foi realizada, por exemplo, pelo cinema americano. No contexto de cinema da Guerra Fria, construiu-se um herói que se opõe a um herói russo, aquilo que não queriam ser, que era o comunismo. Um herói vencedor, um homem branco. Esses símbolos são apropriados pelos boxeadores para dizer que a atividade através da qual eles se entendem como pessoas pode ser encarada como algo grandioso. Tão grandioso que existe um herói mundial feito pelo cinema hollywoodiano, uma das coisas mais grandiosas que existem no planeta.

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Foto: Michel de Paula Soares

No cinema norte-americano, os negros também não são retratados como boxeadores heróicos?

Só no caso de biografias, como do Muhammad Ali ou Mike Tyson. O que o cinema americano fez com todas atividades reconhecidas de corpos negros, como o jazz, o blues e o rock, fez com o boxe também. É colocar um homem branco. No caso do rock, o Elvis Presley. No do boxe, o Rocky Balboa. O homem ideal americano é branco. A história de Mohammed Ali é de muita controvérsia [ele recusou-se a alistar-se no exército americano para combater no Vietnã, enfrentou o governo dos EUA]. A construção de um Rocky Balboa é uma maneira de tentar silenciá-lo. Mas não conseguiram. Ele se utilizou do reconhecimento como o maior atleta do século 20 como ferramenta política. Muhammad Ali é um gênio. Não existe um equipamento de boxe, por mais conservador que seja, em que ele não seja a referência.

Como aparece a questão do gênero em seu trabalho? Um dos boxeadores que você conversou disse: “da porta pra dentro todo mundo é igual”. Mas não é bem assim…

O boxe é uma atividade para se construir masculinidade. Um corpo que, para ser bem visto, é saudável, musculoso, apto a enfrentar adversidades físicas. Essa masculinidade ideal, no sentido de algo fantasioso, que não existe, entra em conflito, por exemplo, quando um homem sobe em um ringue com uma mulher. Descrevo um caso em que ambos compartilham de peso, alturas e técnica semelhantes. Numa situação dessa perder para a mulher é uma desvalorização maior do que perder para um homem. A mulher, por mais que tenha um padrão técnico compatível, carrega em si a marcação hierarquizada de gênero. Assim, aquele que se sujeita a realizar sparring [simulação de combate] com uma mulher se vê motivado a desempenhar sua melhor performance, atuando com brutalidade, ou, no mínimo, força excessiva. O homem precisa ser mais agressivo do que seria com um oponente masculino, não pode deixar dúvidas. Essa é uma das tensões que coloca em xeque a ideia de igualdade dentro da academia de boxe. A mulher é aceita nesses ambientes, mas por meio desse conflito latente marcado por gênero.

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Foto: Michel de Paula Soares

Você afirma que, ao contar suas histórias de vida, esses boxeadores também falam sobre a cidade. Que São Paulo é contada por meio dessas narrativas?

A cidade do boxeador é uma cidade ao mesmo tempo conflitiva e acolhedora. Esses conflitos estão ligados às trajetórias de vida dessas pessoas. Ao mesmo tempo, por meio do boxe, elas conseguem circular pela cidade de maneira acolhedora. Pode ser que pendure as luvas do lado de fora da mochila na hora de pegar um ônibus lotado ou passar por ambientes hostis. Veja o caso de um amigo que trabalha como faxineiro. Enquanto ele é faxineiro, não está praticando boxe, mas sabe que é um corpo propício ao conflito. A pessoa, no limite, não aceita uma humilhação. Assim, o boxe é uma maneira de valorização da pessoa vulnerável muito potente. O conflito, para um boxeador, não é uma situação a ser evitada, pelo contrário. É desejado como forma de habitar o mundo. É no conflito que o boxeador pode se expressar. É no conflito que ele existe.

E você, como sai dessa experiência?

Saio me construindo como boxeador. Me considero um. Isso está para além de ser um competidor, atleta profissional. Tem a ver com uma postura perante as relações no mundo. Ao mesmo tempo em que estou interessado nessas pessoas, a minha maneira de me relacionar com elas é como colega.

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