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'N*****fishing' é o novo jeito de fazer blackface

A palavra descreve mulheres brancas que mudam sua aparência para parecerem negras ou racialmente ambíguas. Falamos com algumas acusadas disso e com as mulheres as expondo.

por Janae Price; Traduzido por Marina Schnoor
26 Novembro 2018, 6:45pm

Screenshots de Emma Hallberg do Instagram e Twitter. 

O Black Twitter, movimento de pessoas negras dentro do Twitter, foi jogado num frenesi algumas semanas atrás quando o termo “n*****fishing” viralizou. Várias páginas associadas com o termo surgiram com a intenção de expôr mulheres jovens, na maioria brancas, que parecem adotar a cultura e traços físicos negros para parecerem negras, mestiças ou pelo menos racialmente ambíguas.

O termo “n*****fish” é um amálgama da palavra ofensiva com N em inglês e “catfish”, um termo que o pessoal das redes sociais usa para alguém que não é quem aparenta ser na internet. A nova palavra parece ter ajudado os usuários negros do Twitter a colocar um nome em todas as influencers inspiradas nas Kardashians que lotam as páginas de explore do Instagram.

A fórmula do n*****fishing, e na verdade para se tornar um influencer na nossa era em geral, é assim: um corpo em formato de ampulheta posando candidamente em frente a um fundo esteticamente aprazível; o rosto é iluminado e de um bronzeado dourado, apresentando lábios carnudos lambuzados com gloss e sobrancelhas perfeitamente arqueadas; o cabelo entre ondulado e cacheado. Essa fórmula pode render milhares, até milhões de seguidores. Assim como calça de cintura baixa foi modinha no começo dos anos 2000, ser uma interrogação racial cheia de curvas usando Fashion Nova é a tendência agora. E enquanto tem uma grande diferença entre usar calça jeans quase mostrando o cofrinho e ser acusada de explorar a cultura dos outros, a gente fica imaginando se essas influencers veem isso apenas como a estética de seu Instagram – algo que fazem só por diversão e que podem mudar quando der na telha.

No centro da polêmica estava a youtuber e influencer branca Emma Hallberg. Enquanto eu conversava com a garota de 19 anos por e-mail, ela me garantiu que imitar mulheres negras nunca foi sua intenção e que desde que as acusações de n*****fishing começaram, ela vem sendo falsamente acusada de fazer bronzeamento artificial, tomar hormônios de melanina, fazer permanente, uma cirurgia plástica no nariz e ter feito preenchimento labial. “Eu só queria que meu Instagram fosse uma inspiração para pessoas interessadas em maquiagem e moda”, disse a youtuber, que nomeou Kylie Jenner e Rihanna como suas inspirações fashion.

“É muito triste que minha aparência natural tenha ofendido as pessoas e isso é muito problemático pra mim, já que as características que as pessoas estão apontando são minhas características naturais”, ela acrescentou. Apesar de Hallberg dizer que nunca tomou nenhum passo extra para se apresentar como alguém que não é, muita gente não acreditou na história dela.

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Screenshot do tuíte agora deletado de Marsh expondo Emma Hallberg.

Deja Marsh, 19 anos, cuja página do Twitter foi deletada desde então, foi a primeira de chamar Hallberg de n*****fisher no Twitter. Ela diz que essa é uma questão discutida por mulheres negras há algum tempo, mas que suas palavras muitas vezes são ignoradas. “Traços negros vendem, mas não em pessoas negras”, ela diz. “Os brancos vêm lucrando com os negros há séculos.” Depois que uma amiga apontou que Hallberg não era uma mulher não-branca, mas sim uma modelo sueca, Marsh sentiu que era seu dever dizer ao mundo que Hallberg não era o que aparentava ser.

O tuíte inicial de Marsh acabou inspirando Wanna Thompson a cavar mais fundo na questão, tuitando: “Vamos começar uma thread e postar todas as garotas brancas fazendo cosplay de negras no Instagram?” Desse ponto, o tópico do n*****fishing pegou fogo. E apesar de não levar o crédito por cunhar o termo, a thread de Thompson, que tem mais de 45 mil likes, ganhou apoio de celebridades e inspirou uma página agora deletada criada pela usuária do Twitter Naijaeaux, dedicada a expôr as acusadas no Instagram e Twitter.

Depois de ser exposta, Hallberg foi até os stories do Instagram para provar que seu visual é natural, apesar de muita gente não ter comprado a narrativa, especialmente depois que fotos antigas dela foram desenterradas.

Apesar de Hallberg dizer que nunca fez isso de propósito, as responsáveis por expô-la acreditam que ela e outras mulheres brancas se apropriando da negritude devem responder por isso nas redes sociais.

“Muitas dessas garotas, apesar de dizerem que nunca alegaram ser negras, também não negavam que eram”, diz a usuária do Twitter Naijaeaux. “As pessoas acreditavam que elas eram negras, e elas nunca disseram que eram brancas. Elas só seguiam a deixa do que os outros diziam.”

Thompson e Marsh acreditam que as mulheres acusadas de n*****fishing com muitos seguidores nas redes sociais são prejudiciais, porque muitas vezes fazem colaborações com produtos e são patrocinadas por marcas. Isso cria uma nova forma de blackface onde essas influencers lucram com tendências e características dos corpos e da comunidade negra, e que podem não ser naturais delas, o que só perpetua um ciclo racista que permite que pessoas brancas roubem da cultura negra.

Thompson sente que as empresas trabalhando com essas influencers só ajudam a piorar e espalhar o problema. “Isso é muito irresponsável, porque tem muitas mulheres negras nos espaços digitais fazendo seu melhor para conseguir oportunidades, mas dá muita raiva quando você perde lugar para essas garotas que estão imitando a gente”, fala.

Hallberg, que é de uma cidade pequena da Suécia, diz que como ela não parece uma “garota sueca típica”, ela frequentemente é questionada sobre sua identidade. Ela acrescentou que apropriação cultural é um assunto relativamente novo para ela. “Onde moro e onde cresci, apropriação cultural não é um problema”, explica. “Foi só alguns anos atrás que ouvi sobre apropriação cultural. Acho muito triste que isso seja um problema para tantas pessoas.”

Hallberg não é a única recebendo ódio depois do advento do n*****fishing. Marsh, Thompson e Naijaeaux dizem que também estão recebendo mensagens horríveis online. Naijaeaux, que recebeu a maior parte da reação negativa por criar a página no Twitter, diz que não vai parar de estimular esse diálogo, mesmo se as páginas que ela cria continuarem sendo derrubadas. Marsh e Thompson também planejam continuar expondo e discutindo o n*****fishing.

“Ninguém quer ouvir a verdade de uma mulher de pele escura, mas as pessoas precisam tentar entender o que é a cultura negra, e aí tentar ajudar a cultura em vez de prejudicá-la”, disse Naijaeaux.

As três mulheres que começaram a discussão têm sugestões similares para evitar o n*****fishing: Faça sua pesquisa, ouça e se envolva na conversa.

Matéria originalmente publicada pela VICE EUA.

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