reportagem

Luto e grau durante a passeata dos motociclistas em Diadema

Quando um companheiro de rolê morre, dezenas de motociclistas se juntam num grande cortejo de duas rodas pelas quebradas da cidade.

por Rafael Moura; conforme dito para Eduardo Ribeiro; fotos por Rafael Moura
27 Junho 2018, 10:00am

Passeata roletando pelo Eldorado. Foto: Rafael Moura/VICE

Chamam de “passeata”, entre os motociclistas de São Paulo, quando rola uma grande concentração para um passeio em grupo. As passeatas são organizadas por diversão, como as da Moto Pane, uma equipe que sempre reúne a molecada de moto para dar um role por Diadema. Só que, gradativamente, nos últimos anos, as passeatas têm acontecido para velar a morte dos companheiros. Não há dados oficiais do Samu nem dos Bombeiros. De boca, porém, correm as histórias de gente que sofreu acidente ou morreu em cima de uma moto dando grau.

Muitos começam na bike, dando grau, deixando ela estilosa. Antigamente, havia até mais bicicletas do que motos no bairro e os moleques sonhavam atingir maior idade para ter uma moto. Hoje, é diferente: com 13 a molecada já descola uma mobilete, modifica, mexe em tudo e dá rolê pela quebrada junto com os motociclistas. Com 15 anos, os caras já andam de "motinha", e tudo o que se fazia de truque com a bike nas antigas eles reproduzem no grau. É a geração "chavosa", que gosta de ostentação, funk, fluxo dos bailes.


Assista ao nosso vídeo 360º "Por Dentro do Grau"


Saber dar grau na quebrada, principalmente entre os mais novos, é uma prerrogativa. Se tem moto, precisa dar grau. A prática ocupa, com mais frequência, ruas desertas e sem saída. A rapaziada aproveita para treinar, logo juntam mais motos, e a rua fica tomada até algum carro de polícia chegar e acabar com tudo. Eles filmam, postam nas redes sociais e exibem a evolução das manobras que fazem, principalmente quando evoluem de cilindrada. A ferramenta de comunicação dessa galera é o WhatsApp. Os encontros são marcados via aplicativo ou acontecem nos fluxos.

Geralmente, são as mães que se preocupam mais com os filhos e filhas — minha mãe já foi uma delas. É muito acidente, gente com pino na perna ou gente próxima que morre. Na grande maioria, as vítimas são homens. As mulheres vão mais na garupa. Elas também são vítimas dos acidentes. As motos na quebrada voam, não respeitam tanto as regras. É quase impossível sair de casa e não ver alguém dando grau de moto. De madrugada, ouve-se, mesmo de longe, um escapamento esgoelando pelas ruas.

Uma passeata que se deu recentemente em Diadema foi em memória do Gordo. Ele morreu no dia 22 de abril por volta das cinco horas da manhã. Voltava pra casa depois de dar um pião pelo bairro e colidiu violentamente em alta velocidade com a traseira de um caminhão parado na Rua Projetada. Márcio Henrique Pereira, 28 anos, ajudante de pedreiro que trabalhava com o pai, era respeitado na quebrada. Morreu ali, no próprio local da batida. Só em 2018, segundo os próprios moradores da região, aos menos 11 motocas morreram ou sofreram acidentes.

Ouvimos dos moradores que, mesmo com vários casos graves de acidentes e mortes envolvendo motos, ninguém está a fim de sair de cima delas, muito menos parar com o grau. “Mano, eu não posso parar com o que me faz feliz, porque o próprio Gordo morreu fazendo aquilo que ele mais gostava. Então, a gente precisa continuar por ele”, diz Alex Sales, 30, motorista de caminhão.

Camarada exibe cartaz durante passeata em homenagem ao Gordo. Foto: Rafael Moura/VICE

Johnny Dias, 23, tinha o Márcio como melhor amigo. “O Gordo era sem palavras, mano, se é loco, o cara era cheio de alegria, nunca vi aquele moleque triste. Ele não admitia ver ninguém de cara feia.” A doceira Suellen Ferreira, 28, esteve com o amigo momentos antes do acidente. “Éramos muito amigos, praticamente da família. Receber a notícia do falecimento dele foi um choque.” Aurélio Pereira, 44, tio e padrinho de Márcio, não gostava do afilhado com moto. “Particularmente, sempre fui contra, porque não achava seguro. Ele já tinha sofrido outros acidentes."

“Amigos comentaram que o Gordo disse que se um dia ele morresse, queria que fizéssemos uma passeata pra ele. A gente até falou para ele parar com essas ideias, mas depois que aconteceu, a gente se organizou para isso”, conta Alex. Os amigos lembram que umas das coisas que o Gordo sempre dizia nos rolês de moto era a frase "Nóis ainda vai roletar o mundo", e foi isso que decidiram fazer por ele. Durante a passeata, era nítida a comoção e a adrenalina dos motocas e das pessoas na rua.

Muitos celulares na mão filmando para logo publicar no Facebook ou divulgar nos grupos de WhatsApp. Trânsito, barulho, buzinas e... “Corre, corre! Olha os homi. Volta! Volta, que moiô. Vish, agora fudeu!” Não era nada. Por isso, muitos se perderam e a passeata foi aos poucos diminuindo em volume e força. Mesmo assim, foi memorável.

Outro caso entre muitos é o do operador elétrico William Anselmo, de 24 anos. O jovem estava de rolê na garupa de um amigo, quando viram uma viatura da polícia se aproximando. O amigo no piloto ficou com receio, pois só ele usava capacete. Para não tomar multa, tentou fugir, mas perdeu o controle e, no impacto, William foi arremessado no muro, esmigalhando partes da bacia e cóccix. Ele quase perdeu os movimentos das pernas e hoje ainda conserva um parafuso atravessado na cintura.

“Levo uma vida normal. Depois da cirurgia, tinha apenas a perna esquerda boa, a outra demorou mais de um ano para voltar. Pouco tempo depois que me recuperei, já estava de rolê na moto de novo. Hoje, na melhor, quero pegar minha moto para dar um pião de leve na quebrada, fora que é um meio de transporte, mais fácil para se locomover pros rolês e ir nos bailes.” Ele ainda escapou com vida. O Gordo, esteve perto de conquistar a sua Xjotão.

Mais cliques da passeata em homenagem ao Gordo:

O sonho do gordo era ter uma Xjotão para roletar o mundo. Foto: Rafael Moura/VICE
Raio X da coluna cervical do motociclista Jorge Gustavo após cirurgia. Foto: Rafael Moura/VICE
Jorge Gustavo no grau. Foto: Rafael Moura/VICE
Dando um rolê por Diadema. Foto: Rafael Moura/VICE
A passeata também contou com carros para conduzir os amigos do Gordo que não tinham moto. Foto: Rafael Moura/VICE
Galera reunida. Foto: Rafael Moura/VICE
Johnny fez até uma tatuagem para celebrar o amigo. Foto: Rafael Moura/VICE
#Luto. Foto: Rafael Moura/VICE
O carro com parte da família, que circulou tocando o requiém "Porque se foi, irmão?", do MC Roger. Foto: Rafael Moura/VICE
E a passeata se embrenha pelas quebradas. Foto: Rafael Moura/VICE
Rua Projetada, local do acidente. Foto: Rafael Moura/VICE
William Anselmo exibe raio x da bacia atravessada por um pino. Foto: Rafael Moura/VICE

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