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Saúde

Você provavelmente está inalando 11 pedacinhos de plástico por hora

Um novo estudo sugere que nossos pulmões estão sob ataque dentro da nossa própria casa.

por Erica Cirino; Traduzido por Marina Schnoor
18 Junho 2019, 10:00am

Microplásticos no mar. Imagem: Erica Cirino.

Colocando um jaleco, o pesquisador Alvise Vianello entrou numa sala branca cheia de máquinas zumbindo. Os aparelhos estavam analisando materiais estranhos encontrados no solo, água potável, oceanos e no ar. Vianello, que estuda poluição de microplásticos na Universidade Aalborg na Dinamarca, observou as telas de computador mostrando as leituras das máquinas. Elas encontraram plástico, plástico e mais plástico.

Segundo Vianello, esses resultados não são surpresa. Essa é uma substância agora onipresente em toda parte, inclusive dentro de nós. A última pesquisa de Vianello sugere que quando passamos tempo em locais fechados, provavelmente estamos enchendo nossos pulmões com pequenas partículas de plástico liberadas por todas as coisas plásticas que estão ali.

Ele e sua equipe descobriram que quando um “manequim” que respira – uma máquina de metal e resina que parece uma versão mais simples e menos brilhante que o C-3PO do Star Wars – passava um tempo num apartamento urbano holandês comum, ele sugava cerca de 11,3 dessas partículas plásticas, chamadas microplásticos, por hora. Os cientistas dizem que enquanto o experimento deles não pode provar que as pessoas estão inalando microplásticos, os resultados sugerem que o próximo passo lógico deve ser procurar microplásticos em pulmões humanos.

“Essa é a primeira evidência de exposição humana a microplásticos através da respiração em locais fechados”, disse Jes Vollertsen, colega de Vianello e autor do estudo, em seu laboratório na Universidade Aalborg semana passada.

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Essa máquina imita a respiração humana para procurar microplásticos. Imagem: Erica Cirino

Microplásticos são conhecidos por danificar tecidos pulmonares, levando a câncer, ataques de asma e outros problemas de saúde. E mais, essas partículas geralmente contêm químicos tóxicos e contaminantes viciantes conhecidos por mudar como os hormônios humanos funcionam. Um corpo de pesquisa de uma década revelou que pessoas trabalhando em ambientes com poeira plástica estão sob grande risco de problemas respiratórios. Pesquisas recentes demonstraram que microplásticos são abundantes no suprimento alimentar americano e podem ser encontrados nas fezes das pessoas, sugerindo que provavelmente estamos engolindo um monte de microplásticos quando bebemos ou comemos qualquer coisa.

Naquela tarde em particular na universidade, Vollertsen e Vianello revisaram seu experimento: na cidadezinha de Aarhus, Dinamarca, eles encontraram três universitários morando em três apartamentos idênticos dispostos a compartilhar seu espaço com o manequim que respira por três dias.

Os cientistas colocaram o manequim na mesa da cozinha de cada estudante, ajustando sua temperatura superficial e taxa respiratória para imitar um homem humano. O manequim ficava 24 horas de cada vez, três dias no total, em cada apartamento, inalando e exalando com seus pulmões pneumáticos mecânicos através de um buraco na boca.

Os tubos de respiração internos do manequim contêm uma rede fina de prata para filtrar o ar inalado. Os cientistas usaram um software especial para identificar e analisar as partículas coletadas pela rede, que identificava que tipos de plásticos foram encontrados, como nylon e polietileno.

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Vianello e Vollertsen descobriram que o ar de um apartamento comum está cheio de microplásticos. Imagem: Erica Cirino

Vianello mostrou alguns resultados, incluindo um mapa com código de cores para todas as partículas que o manequim tinha respirado durante uma de suas sessões de 24 horas nos apartamentos. Dominando o mapa havia bolhas cinza-claro indicando a presença de proteína – nesse caso, células de pele – com menos bolhas cinza-escuro indicando material vegetal. As formas cinzas eram intercaladas com um arco-íris de bolhas e linhas representando dezenas de tipos de fragmentos e fibras plásticas. Os resultados sugerem que os humanos provavelmente estão respirando um monte de células mortas de pele, alguns pedaços de plantas e uma quantidade surpreendente de microplásticos.

“Partículas e fibras [microplásticas], dependendo de sua densidade, tamanho e forma, podem chegar ao fundo dos pulmões e causar inflamação crônica”, disse Joana Correia Prata, estudante de PhD da Universidade de Aveiro em Portugal, que não estava envolvida com o estudo. Em seu próprio trabalho, Prata está destacando a necessidade de pesquisa sistemática sobre os efeitos da inalação de microplásticos na saúde humana.

“Estudos sobre exposição ocupacional a altas concentrações de microplásticos no ar, como na indústria têxtil de sintéticos, descobriram que os trabalhadores sofrem de problemas respiratórios”, ela disse. “Mas o desenvolvimento de doenças de exposição crônica a baixas concentrações de microplásticos no ar das nossas casas ainda não foi demonstrado.”

Nos últimos anos, cientistas identificaram partículas plásticas no ar de ambientes fechados e a céu aberto. Mas os estudos anteriores usavam aspiradores ou precipitação atmosférica para coletar microplásticos no ar. Esse é o primeiro estudo que usa um manequim imitando a respiração humana com inalação e exalação, e usando o que é considerado atualmente os métodos de análise mais precisos e otimizados.

Apesar da evidência de que plástico está entrando no corpo humano e pode estar nos prejudicando, não há pesquisa sistemática sobre o assunto, ou para os danos que isso pode estar causando para nossa saúde (mesmo com evidências constantes de mamíferos marinhos sendo abertos e revelando grande quantidade de microplásticos). “Análise de microplásticos é como o Velho Oeste”, disse Vollertsen. “O consenso hoje é que precisamos de um controle de boa qualidade sobre como estudamos e identificamos isso.”

Vianello e Vollertsen disseram que suas descobertas os incentivaram a discutir futuras pesquisas colaborativas com pesquisadores do hospital da universidade, talvez procurando por plástico dentro de cadáveres humanos. Outros especialistas também estão pedindo estudos na saúde humana sobre efeitos similares dos microplásticos aos dos efeitos na saúde de matérias suspensas no ar.

“Agora temos evidência suficiente de que precisamos começar a procurar por microplásticos nas vias respiratórias humanas”, disse Vollertsen. “Até agora, não estava claro se era preciso se preocupar em estar respirando plástico.”

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