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Entrevista com um cafetão de Dubai que vende sexo para bilionários

Quer disparar uma AK47 de um Lamborghini? Fazer uma orgia no deserto? Então esse é o cara.

por Mahmood Fazal; Traduzido por Marina Schnoor
25 Junho 2019, 6:33pm

Ilustração por Benjamin Thomson.

Dubai é a Las Vegas do Oriente Médio, se Las Vegas usasse burca. É a cidade das festas dos Emirados Árabes, onde os crentes podem ter um gostinho dos seus desejos mais carnais entre clubes noturnos, ilhas artificiais, os arranha-céus mais altos e estranhos do mundo e hotéis sete estrelas. Em algum ponto dessa justaposição está o verdadeiro conflito do espírito árabe: uma política que devia se unir sob a bandeira do Umma, e ainda assim se encontra em infinitas contradições, guerra civil e violência sectária.

E sexo.

Alguns anos atrás percebi quantos trabalhadores sexuais operavam de apenas um hotel local, acobertados por frases obscuras e proposições disfarçadas. “Você não pode pedir para transar aqui, cara”, lembro de ouvir de um soldado americano. “É um negócio old school, você precisa voltar para a casa delas e trabalhar os preços discretamente.”

Eu queria ir mais fundo nas entranhas da indústria, então depois de várias ligações e uma conversa por Skype, um cafetão ucraniano morando em Dubai concordou em falar comigo sobre sua carreira lucrativa. Ele era um homem pálido, usando um terno preto com um Rolex e uma polo Burberry. Abaixo você lê o que Alex* disse sobre comandar trabalhadores sexuais num país onde a prostituição é ilegal e nunca pode ser mencionada.

VICE: Você é ucraniano. Como acabou na indústria do sexo em Dubai?

Alex: Eu estava trabalhando como consultor para uma empresa de engenharia em Jidá. Subindo a escada corporativa, meu trabalho se tornou mais sobre passar tempo com os clientes quando eles viajavam para a Arábia Saudita, e os levar para finais de semana em Dubai. Estabeleci ótimos contatos e eventualmente me mudei para Dubai, onde fui subcontratado por várias empresas e bancos para proporcionar diversão aos clientes.

Tipo um organizador de festas profissional?

Sim, meu trabalho é mais que só cafetinagem e prostituição. Atendo todas as necessidades dos meus clientes. Temos contato com grandes hotéis e clubes noturnos. Sempre que eles recebem convidados importantes que querem dar uma festa, ou fornecer algo especial para seus hóspedes, eles me ligam. Todo mundo ganha uma parcela e construímos nossa reputação protegendo a identidade dos nossos clientes. Já organizamos festas para celebridades, políticos e mafiosos. Todo mundo é diferente, nem todo mundo quer transar com loiras peitudas, alguns rappers vêm pra cá e querem fumar haxixe num hotel submarino, empresários às vezes querem disparar uma AK47 de um camelo ou de um Lamborghini no deserto. Eu os ajudo a desfrutar das coisas boas da vida e relaxar quando estão em Dubai. Aqui é o paraíso dos bad boys, e eles podem esquecer o mundo real por um tempo.

Qual a festa mais estranha que você já organizou?

Um empresário americano que queria que 10 prostitutas de burca o encontrassem numa barraca no deserto. Colocamos um sistema de som, uma jacuzzi externa e grandes camas sob o céu estrelado na barraca. Ele pediu explicitamente para que as mulheres não tirassem a parte do rosto das burcas quando tirassem a roupa. Esse cara era muito estranho. Ele gostava de assistir os funcionários transando com as mulheres. Ele não pediu álcool nem nada assim. Só SUVs cheias de mulheres de burca.

E festas estranhas para os locais?

Teve um xeique do Iêmen que queria que eu organizasse 30 mulheres africanas e Viagra suficiente para matar um elefante, tudo no período de uma hora. Ele me convidou para a orgia. Eu disse pra ele “Não, por favor, aproveite”. Aí fiquei sentado no saguão do hotel tomando conhaque até o sol nascer, vendo o serviço de quarto correr toda hora com toalhas para o quarto dele. Quando eles acabaram, foi como se uma bomba tivesse explodido no hotel. Tive que contratar pessoal de limpeza especializada. Tinha todo tipo de mancha naquela porra de quarto.

Suponho que ele não era um homem religioso então?

A questão islâmica não interfere nessa parte. Somos todos animais. Temos desejos. Sou como um caçador. Junto todos os elementos. O pecado está sob os seus ombros. Talvez eu trabalhe para o diabo aos olhos deles. Mas essas pessoas não são crianças, e a religião tem sua hora e seu lugar em Dubai; nos bastidores, todos entendemos isso. Durante o dia, para o público, seja um homem religioso, mas se trabalha pesado, você pode se dar um refresco à noite. Pecar é muito natural.

Você não tem medo das autoridades ou da polícia religiosa?

Temos contatos e sabemos operar discretamente. Não podemos discutir essas coisas porque é uma questão sensível. Procuramos as pessoas certas. Não estamos prejudicando ninguém. Conheço caras que receberam chibatadas porque foram descuidados. Tentamos manter nosso negócio longe de locais e sauditas. Claro que visamos vender nossos serviços para estrangeiros e grandes empresários, mas o dinheiro fala mais alto. Pelo preço certo, você pode se safar de qualquer coisa aqui, como em qualquer lugar do mundo. Você pode controlar qualquer pessoa com sexo ou dinheiro. O resto é conversa fiada.

Como você se sente tratando as mulheres assim? Tráfico humano é um grande problema ao redor do mundo.

Pode perguntar para qualquer mulher aqui se ela está sendo obrigada a trabalhar pra nós. De onde eu venho, essas mulheres ganham muito pouco – quando ganham alguma coisa. Elas vêm de lugares problemáticos, admito, mas estão ganhando sua parte. Algumas mulheres que conheço vieram dos vilarejos mais pobres do meu país, e agora dirigem Ferraris e moram em coberturas. Pergunte se elas foram obrigadas a vir e elas vão rir na sua cara. A garota com quem eu transava no colégio mora em Biarritz na França, com um filantropo milionário. Claro, nem toda prostituta vive assim, mas não estamos nesse negócio para explorar pessoas.

Quanto você cobra?

Se você quer transar com as nossas mulheres, não sai barato. Não dependemos de ninguém e nossa reputação fala por si. Trabalhamos só por referência. O preço das garotas começa em $1 mil por hora. Os garotos começam em $500.

Garotos?

Sim, não para os árabes, principalmente para estrangeiros. E pode ser bem estranho, já tivemos incidentes violentos e sempre com os garotos de programa. Esses empresários estrangeiros muitas vezes ficam confusos com seus sentimentos. Eles dormem com os prostitutos depois batem neles por vergonha. São covardes que não sabem lidar com a própria sexualidade. Eles se acham durões mas gostam de levar na bunda. Não entendo.

Como você lida com esses caras?

Prefiro que capangas espanquem eles do mesmo jeito. Mas nesse negócio você tem que ser civilizado às vezes. Os garotos precisam do dinheiro, e não vão se beneficiar de vingança violenta, então cobramos uma quantia extra desses caras como compensação.

Fora o dinheiro, por que você está nesse negócio?

Gosto de satisfazer as pessoas. De certa maneira, sou como um prostituto. Conheço os desejos secretos dos meus clientes e adoro a parte de organizar para torná-los realidade. Adoro receber as pessoas depois e ver o olhar no rosto deles. Sou humano, gosto de impressionar as pessoas. Sempre gostei dos gangsteres dos filmes americanos, todo mundo que vem de um lugar pobre adora a imagem do cara mau. Adoramos ser rebeldes. Posso fazer esse trabalho, ser pago e todo mundo me agradece. Dos dois lados. Não estou distribuindo quilos de drogas em bairros pobres. Eu podia estar fazendo isso e ganhando muito mais.

Você acha que seu trabalho é importante?

Pessoas imaturas acham que você só pode ser bom ou mau. O que torna esse desejo bom? E outro ruim? Quem decide? Mas acredito em negociação. No casamento eu negocio um equilíbrio com a minha esposa: algumas coisas sobre ela eu gosto, outras não, mas fazemos funcionar porque somos adultos e negociamos. Nossa moral é apenas uma negociação; desde que não haja desequilíbrio, somos saudáveis. Forneço serviços que algumas pessoas acham que são maus, mas na verdade são naturais e precisam ser experimentados de vez em quando. Em Dubai eles chamam as coisas ruins de haram, no Ocidente chamamos de liberdade. De qualquer maneira, essas coisas são necessárias e forneço um serviço de luxo para aqueles que têm liberdade no mundo árabe para atender esses desejos. Bons ou maus.

Para mais devassidão, siga o Mahmood no Instagram.

*Alex concordou em falar conosco sob a condição de anonimato, então esse não é o nome real dele.

Matéria originalmente publicada pela VICE Austrália.

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