O mito da minoria modelo

Ou por que precisamos discutir discriminação contra asiáticos.

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07 Fevereiro 2017, 4:13pm

Se você tem olhos puxados, aposto que já ouviu, pelo menos uma vez na vida, provérbios como: "abre o olho", "arigatô" (em situações aleatórias), "xing ling" (de maneira desdedonhosa) e, o mais manjado de todos, "você é sansei, nissei ou não sei?"

Além dessas brincadeiras (bullying, leia-se), asiáticos são alvos de outro tipo de discriminação. A ideia de que  todo asiático é dócil, disciplinado, inteligente (o famoso "pra passar no vestibular, mate um japonês" dos tempos de colégio) e rico, quer dizer, que "venceu na vida" neste lado do mundo, faz parte do mito da "minoria modelo", uma expressão muito discutida nos Estados Unidos – e quase desconhecida no Brasil.

A ideia de minoria modelo surgiu nos EUA, na década de 1960. Os orientais, que antes representavam um "perigo amarelo" no contexto da 2a Guerra Mundial, passaram a simbolizar imigrantes que incorporaram o sonho americano. Por muito tempo, a invenção da minoria modelo foi meramente marcada num artigo de 1966 do sociólogo William Petersen sobre o sucesso dos japoneses nos negócios norte-americanos, publicado na  New York Times Magazine (  Sucess Story, Japanese American Style) – um erro estilo Wikipédia.

Na verdade, diz a historiadora Ellen D. Wu no premiado livro  The Color of Sucess: Asian Americans and the Origins of the Model Minority (2015), o início da minoria modelo ironicamente data da 2a Guerra, época em que americanos liberais passaram a investigar quem eram esses imigrantes vindos do outro lado do mundo.

No século 19, aos olhos americanos, os orientais eram estrangeiros nojentos que comiam ratos e fumavam ópio. Assim, eram excluídos de todo tipo de participação cívica e precisavam lidar com segregação de casas e colégios, leis anti-miscigenação e linchamentos.

Já no século 20, após as tropas americanas se unirem às trincheiras do Eixo contra nazifascistas, a flagrante discriminação se tornou um risco diplomático, que poderia comprometer as ambições americanas de um dia se tornar uma potência mundial. Assim, no pós-guerra, os americanos (e alguns asiáticos e seus descendentes) paulatinamente lapidaram uma nova imagem: a minoria modelo, uma minoria étnica louvável, economicamente ativa, politicamente inofensiva – e  não-negra.

"Nas décadas de 1960 e 70, asiático-americanos foram os primeiros a criticar o mito da minoria modelo e suas implicações. Muitos dos integrantes desse movimento foram dar aulas e desenvolver pesquisas na linha de Estudos Asiático-Americanos", diz a historiadora da Universidade de Indiana. Mas, ao mesmo tempo, as histórias de sucesso de asiáticos ocuparam a imprensa americana, da  Newsweek ao  60 Minutes. Nessas páginas amarelas foi firmado o estereótipo positivo do oriental dedicado, integrado, próspero e paradoxalmente passivo. Do tipo que vive pra trabalhar e não ousa reclamar da vida.

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