Esta história tem mais de 5 anos de idade.
Music by VICE

“Berlim me Ensinou Sobre a Paciência e a Construção de um Set”, diz Jimmy Edgar

Nesta entrevista, o DJ de Detroit que passou pela Warp e hoje tem sua própria gravadora conta como tudo começou e o que espera do futuro.

por Jack Dolan
25 Agosto 2014, 5:14pm


Mesmo aos 16 anos, os lançamentos de Jimmy Edgar já eram super foda e bem editados. Mas o que realmente marca as produções de Edgard é o seu caráter enxuto, redondo. Ao contrário de outros lançamentos que buscam uma estética ultramoderna, as produções de Jimmy são brilhantemente futuristas, ainda que sem perder uma certa vitalidade juvenil.

Como pano de fundo da carreira de Edgar, está uma Detroit futurista. Do adolescente que tocava em raves, ele se tornou o garoto-propaganda dos poderosos da Warp Records enquanto mantinha uma carreira de sucesso como fotógrafo de moda. E foi em Berlim que Edgard encontrou seu alicerce, onde agora se concentra em sua própria gravadora, a Ultramajic. Nada mal para seus 31 anos.

THUMP: Como DJ e produtor você fez muito e ainda muito jovem.Parece que houve uma direção artística clara do que alcançar. Como isso rolou?Jimmy: Eu sou muito mais metódico e meticuloso nos dias de hoje. Nos início eu gostava de fazer coisas mais cruas, então um monte dos meus trabalhos pareciam correias soltas em rodas de bicicletas. Eu também me preocupava muito menos sobre o que as pessoas pensavam, porque eu era ingênuo. Usei vocais, sons e ideias mais tabu. Agora acho que estou muito mais consciente do que a minha arte, design e música faz com as pessoas. Por isso tento ser perfeito e respeitoso quando cria, não importa o domínio, seja ele virtual ou não.

Você ficou surpreso ao assinar com a Merck aos 19 anos, ou quando fechou com a Warp Records no ano seguinte? Você considera isso avassalador?
Jimmy:Nunca foi avassalador, porque eu estava focado no que eu queria fazer, e então se tornou real. Acho que nunca fui pego de surpresa. É assim que eu penso. Surpresa é algo que acontece quando você não está prestando atenção.

Você já está nessa há algum tempo e ainda assim você continua a inovar. Como você permanece inspirado mesmo estando no auge?
Jimmy:Eu sou apaixonado pelo que eu faço - este é o único caminho. Estou constantemente aprendendo algo novo para expressar minhas ideias. Eu sempre digo que eu sou um "estudante vitalício", mas as minhas inspirações mais vívidas são também quando estou mostrando a alguém algo que eu fiz. Se você tem um desejo de compartilhar seu trabalho de uma forma positiva, você pode manter esse fluxo. Além disso, eu não estou sempre satisfeito com o meu trabalho, então permaneço continuamente descobrindo maneiras de melhorá-lo. Estou focado em momentos em que posso criar algo que eu possa ouvir ou olhar por horas e horas, como se entrasse em outra realidade.

Você acha importante acompanhar as coisas novas ou você é daqueles que preferem se explorar internamente?
Jimmy: Sem dúvidas. Acho que é preocupante quando as pessoas dizem se fechar para outras influências para trabalhar em seu próprio material e isso pode funcionar de maneiras misteriosas. Também houve momentos em que eu mesmo me desligava, mas ultimamente, é a cultura do mundo que me inspira. Eu não acredito que você pode desligá-la, então é melhor deixar  fluir. A ideia de "Eu não quero ser inspirado por ____" é realmente anacrônica. É melhor seguir sempre a inspiração, seja ela qual for.

Quais coisas te inspiram no momento? Quais álbuns você deixa na cabeceira da cama?
Jimmy:Estou curtindo muito o techno hipnótico no momento. Estive no estúdio com meu sintetizador modular. Estou trabalhando em algumas faixas que combinam batidas de acid house com sons crus de techno de Berlim. Meu selo, Ultramajic, vai lançar 12"s neste ano.

Sintetizadores modulares? Sabemos que você sempre usou muitos hardwares feitos em casa então, podemos esperar um som old school modular?
Jimmy:Falando dessa forma, não. Eu sempre uso sintetizadores modulares como fonte de som. Eu não chamaria nada do que eu faço de old school, mas se você quis dizer que as faixas estarão sem o brilho usual de minhas músicas, daí é uma possibilidade.  Usar sintetizador modular é interessante porque há muita coisa que você pode fazer: às vezes eu passo uma noite inteira fazendo um desses trampos... design do som, trabalhando as batidas, sequencias polifônicas, mexendo nos samples.       

Durante um tempo você estava mandando um glitchy hip-hop instrumental. Dabrye e Prefuse já faziam isso naquela época, mas a coisa toda eletrônica/hip-hop só explodiu nos últimos cinco anos. Não que você seja dessa onda, mas você fica tentado a explorá-la novamente?
Jimmy: Eu ainda mando uns sons assim de vez em quando, mas acho que já saí dessa. Acho que há uma falta de comunhão em torno desses estilos. Sinto que o que estou fazendo com o Ultramajic inspira pessoas a se envolver e ir sair pra dançar. Acho o hip hop instrumental bem chato, na real.  Passei anos tentando criar algo com meu piano, que tem os mesmos fundamentos do house, isso porque ambos os estilos vêm das Igrejas Batistas, falando tecnicamente.

Então você não pensa muito sobre a cena beat de Los Angeles?
Jimmy:Acho que não sei nada sobre isso. Se você está falando do Salva, eu tô ligado. Nós somos amigos e eu respeito o que ele faz. Se você quis dizer trap então humm, bom, eu até estou por dentro, mas não é para mim. Sou muito mais ouvir um hip-hop do sul. Eu acho que os elementos de produção do trap ainda são legais em alguns aspectos, mas muito raramente alguém irá tocar sem soar muito cafona – na maioria do tempo são coisas exageradas e modinha.

Ultimamente você tem tocado em palcos de techno ou house. É um mundo que você se encaixou perfeitamente, apesar dos eventos que você está tocando serem muito diferentes daqueles que você estava fazendo, há dez anos, em turnê com a Warp. Você planeja seu set levando em consideração o lugar em que vai tocar?
Jimmy: Sim, você tem que se preocupar. Estou lá em cima para o povo, estamos juntos nessa. Sim, toco pra mim mesmo e para mim de alguma forma, mas no final você tem que a respeitar o lugar. É sobre isso que eu estava falando, sobre assumir a responsabilidade no espaço para o qual eu crio.

Como foi se mudar para Berlim e como isso te afetou?
Jimmy:Berlim me ensinou sobre a paciência e a construção de um set. De onde eu vim você não tem três ou quatro horas para bolar um set.

Você também é um fotógrafo e designer (você desenhou algumas capas de seus álbuns). É claro que há um estilo visual forte que flui em seu trabalho. Você tem algo visual em mente quando se senta para fazer música ou você acha que a música vem primeiro e te dá a ideia de algo?
Jimmy:Misteriosamente, tudo vem junto. Eu aprendi a confiar em tais situações e deixá-las fluir. Você começa a tentar forçar as coisas e os problemas surgem. Me soltei um pouco e confio nas ideias. Isso funciona para mim. Eu sempre caminhei para algo mais visual e forte, caso contrário, não me incomodo, e isso parte de todo o processo de criar. Por isso que às vezes pode ser difícil colaborar com as pessoas, porque as minhas anotações e esboços são uma bagunça mesmo se eu tiver uma ideia clara na cabeça.

Na sua recente colaboração com o Machinedrum, quando vocês tocaram como o duo JETS foi um encontro de mentes brilhantes. O que você achou de tocar com outra pessoa, já que em grande parte de sua carreira você tocou sozinho?
Jimmy:É sempre um desafio, mas um desafio dos bons. Travis e eu nos divertimos muito porque nós estávamos tão empenhados em impressionar um ao outro que estávamos tocando novas músicas, para que o outro falasse "uau o que porra de música é essa?". Realmente canalizamos algum tipo de inspiração sobrenatural. Travis é meu irmão cósmico de alma. Nos divertimos pra caralho fazendo turnê juntos; estamos planejando em fazer outra quando ambos tiveremos tempo.

Você tem mais alguma colaboração em vista? Talvez com alguém da Ultramajic?
Jimmy: Tenho uma música foda com a SOPHIE, estamos finalizando ainda.

Seu selo Ultramajic é um lugar para música e design, assim como pra um monte de outras coisas. Conte-nos um pouco sobre isso.
Jimmy: Sim, é fundamentalmente um selo de música e design. A cada seis, oito semanas, nós lançamos música de amigos e de artistas novos que conheci. Pilar Zeta e eu, até agora, fizemos todo o design desses trabalhos, mas pretendemos expandir. Nos últimos tempos, meu foco está nisso. Porque agora eu tenho uma porta aberta para lançar arte e a música como uma entidade.

Como você tem tempo pra tudo isso? Você consegue parar e relaxar?
Jimmy: Eu faço o que eu amo porque eu amo o que faço. Eu sempre trabalho porque é como se fosse minha respiração. Acredito que viver como um criador é a chave de tudo. Claro, eu também tenho épocas em que não faça nada, principalmente quando estou cansado e viajando muito. Mas quando estou em casa, literalmente me tranco em meu estúdio.

Você anda fazendo muita turnê ultimamente? Você ainda aproveita? Acha mais cansativo ou inspirador?
Jimmy:É montanha-russa, tanto cansativo quanto inspirador, mas eu encontrei meu caminho para fazer essa coisa de turnê funcionar. Eu costumava amar e então eu comecei a odiar porque eu estava bebendo e fumando muito. Estou tentando tocar sóbrio e comer direito, fazer exercícios durante a turnê e, na verdade, acho isso muito inspirador, porque eu posso realmente fazer o meu trabalho enquanto viajo e não ficar de ressaca no aeroporto. Eu levo muito a sério o que faço, e eu gosto de me divertir com isso também. Estou em uma missão para derrubar o mito de que quanto mais fodido de ressaca você está, mais divertido foi o rolê. Isso não quer dizer que eu não irei beber ou fumar, porque eu ainda faço tudo isso, mas eu estou experimentando essas novas ideias e me dando a chance de ver o que é melhor. De qualquer forma, é bom ficar "aberto".

Você irá tocar no Egg em Londres no final de agosto. O que você acha de tocar em Londres?
Jimmy: Eu amo Londres. Tenho tocado lá por 12 anos. Rola uma vibe especial e as pessoas em Londres realmente respeitam novos sons. Há uma situação obsoleta na América, todos ficam nostálgicos e eu não sou realmente disso. Londres é oposto – não estão nem aí pra nostalgia, até onde eu vi. Estou muito animado para este show. Os últimos foram na Fabric!

Como será o próximo ano para o Jimmy Edgar?
Jimmy:Focar na Ultramajic e fazer turnês.Acabei de finalizar vários trabalhos dos quais estou realmente orgulhoso, mas estamos tentando descobrir o que fazer com eles. Como eu disse antes, a integridade é muito importante.

Mais do Jimmy Edgar no THUMP: Jimmy Edgar is Detroit Techno's New Age Wizard

Se liga no Soundcloud da Ultramajic aqui

Tradução: Jules Sposito

Tagged:
Berlin
Thump
Jets
Detroit
techno
Entrevistas
Warp
Machinedrum
Ultramajic
thump blog
jimmy edgard