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Os Viciados Romani de Bucareste Estão Apodrecendo em Guetos

Para essas pessoas com marcas na jugular e veias inchadas nos pés, pacotes novos de agulhas são a salvação.

por Max Daly
28 Julho 2015, 10:30am

Uma médica entrega seringas limpas para viciados no meio da noite em Bucareste. Fotos por Vlad Brateanu.

Assim que a ambulância estacionou perto da principal estação de trem de Bucareste, o povo esquecido da cidade emergiu da escuridão. Alguns surgiram de um buraco no asfalto, saindo dos túneis de esgoto da cidade. Outros vieram de barracos próximos e das esquinas. Durante a noite, os cidadãos comuns evitam essa rotatória abandonada. É uma parte da cidade de que eles preferem esquecer.

A luz que saía pelas portas abertas da ambulância revelava um grupo desorganizado se reunindo ao redor dela, a maioria romani. A pele deles mostrava os sinais típicos do uso de drogas: marcas de agulha na jugular, veias inchadas nos pés e marcas roxas nos que eram brancos. Alguns deles estavam drogados, entorpecidos com heroína de baixa pureza ou agitados com um híbrido barato de mefedrona conhecido como legale, ou puro.

Para alguém de fora, poderia parecer que as pessoas estavam fazendo fila em frente a uma cozinha móvel de sopa para os sem-teto. Mas os viciados estavam aproveitando a pouca ajuda disponível: seringas limpas. Para as pessoas que esperam pacientemente ao redor dessa ambulância quatro noites por semana, pacotes novos de agulhas são uma tábua de salvação e uma forma de moeda.

"A atitude geral do público para com os romani e os viciados é que estamos desperdiçando dinheiro, que é melhor os deixar morrer do que ajudar", disse Dan Popescu, coordenador dos serviços de redução de danos da Asociatia Romana Anti-SIDA (ARAS), que comanda a iniciativa da ambulância das agulhas. Apesar da epidemia de HIV entre os viciados de Bucareste, o ARAS é um dos míseros dois projetos de redução de danos de toda a Romênia.

Alguns usuários trazem baldes e garrafas plásticas cheias de agulhas usadas recolhidas pelas ruas, pelo que recebem um pacote extra de seringas. As agulhas fazem alguma coisa para conter o aumento de viciados com doenças transmitidas pelo sangue. Popescu afirmou que quase todos os usuários de drogas injetáveis com quem eles entraram em contato na zona do gueto de Bucareste são HIV positivo e têm hepatite C. É amplamente aceito entre as autoridades de saúde que as estatísticas oficiais sobre a extensão das infecções relacionadas ao uso de drogas na Romênia mal tocam a superfície do problema; no entanto, uma análise descobriu que metade dos usuários de drogas injetáveis tem HIV e três quartos, hepatite C. Como são amplamente utilizadas, as seringas se tornaram uma forma de garantia entre os viciados de Bucareste, sendo usadas para pagar de drogas a corridas de táxi.

As crianças do orfanato Pinocchio fogem durante a noite para cheirar tinta industrial. Algumas já começam a injetar legale.

Uma mulher com quem falei, Flori, tinha 28 anos, mas se movimentava como uma pessoa de 70 e estava quase cega de um olho. Ela dormia acima do chão nos meses mais quentes e nos esgotos durante o inverno. Ela injetava uma mistura de heroína, pílulas trituradas de metadona e legale – uma combinação conhecida como Total Combat. Ela me contou que sua sensação favorita na vida era o barato que ela sentia ao injetar legale.

Toda noite, um grupo de adolescentes do orfanato local, o Pinocchio, vai à entrada do esgoto se misturar aos usuários mais velhos e se drogar. Eles cheiram uma tinta metálica tóxica chamada Aurolac em sacos plásticos pretos. É a droga preferida das crianças de rua até que elas passem para as injetáveis. A tinta dá um barato alucinógeno, porém causa danos a pulmões, coração e cérebro. É um barato que pode causar morte instantânea por falência cardíaca.

Stephan, um garoto romani do Pinocchio, tem 16 anos. Sua mãe foi assassinada na rua na frente dele quando ele tinha 10: ele acabou no orfanato e cheira tinta desde então. Ele tinha acabado de começar a injetar legale quando falei com ele. Ele foi introduzido à droga por um colega mais velho do orfanato. Seu amigo, outro garoto romani chamado Liviu, tem 17. Seu pai também tinha morrido, mas seu irmão e irmã o visitavam no Pinocchio. Perguntei por que ele usava drogas. "A vida é feia", ele me respondeu. "Não tenho pais, como isso pode ser bom?"

Não é coincidência que a maioria dos usuários de drogas de Bucareste seja da comunidade romani. Como em muitas partes da Europa, os romani, cujas origens remontam à Índia, migraram até a Europa na Idade Média, onde, desde então, são considerados uma subclasse e vivem como uma comunidade segregada na Romênia. Dos 10 a 12 milhões de roma da Europa, cerca de 2 milhões deles moram na Romênia, mais do que em qualquer outro lugar. Apesar de terem sido libertados da escravidão 170 anos atrás, eles ainda são vistos como indesejáveis e tratados como tal.

Eles têm sua própria língua e um estilo de vida não convencional. Apesar de estranhas exceções – um astro infantil pop romani e um pequeno grupo da realeza e de empreendedores da comunidade –, a maioria tem trabalhos mal pagos e pouco respeitados, como reciclagem de sucata, latas, garrafas e roupas. Em todos os níveis – moradia, educação, emprego e saúde –, eles estão em séria desvantagem. É algo que, no papel, a União Europeia está tentando mudar. Mas os roma ainda estão sujeitos a discriminação e uma situação ilegal dentro da UE.

Muitos romani estão simplesmente trancados do lado de fora da sociedade mainstream. Apenas cerca de 45% deles têm acesso à saúde pública ou recebem benefícios na Romênia, simplesmente por eles não possuírem o documento de identidade relevante. Um relatório do Departamento de Estado norte-americano aponta que a falta de documentos de identidade exclui muitos romani de participar nas eleições, receber benefícios sociais, acessar planos de saúde, assegurar documentos de propriedade e participar do mercado de trabalho. Eles são praticamente invisíveis para as autoridades.

Apesar dos alertas do programa global de AIDS do Banco Mundial sobre o problema crescente na Romênia, o governo não faz quase nada a respeito do surto de HIV entre os usuários de legale desde 2010. A nação tem respondido à epidemia de HIV fechando serviços aos drogados e comprando agulhas de péssima qualidade que quebram embaixo da pele.

Mesmo no avião até a Romênia, pude sentir um clima anti-romani. Um jovem estudante de administração romeno, que estava tirando seu diploma numa universidade britânica, me perguntou o que eu estava fazendo em Bucareste. Quando expliquei que estava escrevendo uma matéria sobre os romani e as drogas, ele rapidamente me corrigiu. "Roma? Você quer dizer ciganos? Nós não os chamamos de roma aqui. Tome cuidado – eles roubam".

Muitos roma acabam, sim, roubando. Mas fazem isso porque estão presos num círculo de pobreza acentuado pela segregação em guetos, frequentemente recorrendo às drogas como uma solução para sua realidade horrível.

Muitos dos sem-teto usuários de drogas em Bucareste, como essa mulher que vive nas ruas há 20 anos, têm problemas mentais.

Abuso de drogas é uma causa de morte que persegue essa população. O governo romeno nem se dá ao trabalho de contar as vítimas relacionadas ao uso de narcóticos. Pelo que Dan e a equipe do ARAS veem nos guetos de Bucareste, eles contam pelo menos duas mortes por semana – cerca de 100 por ano –, três vezes mais que o número oficial do país inteiro. No dia em que saí para a ronda com eles, vimos o cadáver de uma jovem chamada Niculina, usuária de heroína com quem eles costumavam conversar, ser levado por uma ambulância.

"Atualmente, o maior problema que enfrentamos na Romênia é a disseminação do HIV e da tuberculose entre os usuários de drogas injetáveis. Por que isso acontece? Pela falta de vontade política e responsabilidade", criticou Valentin Simionov, que passou uma década tentando convencer o governo romeno a levar o problema das drogas a sério, antes de começar a trabalhar para uma ONG em Londres. "Num país onde 80% ou mais da população se diz cristã ortodoxa, era de se esperar mais compaixão e solidariedade para com os pobres e doentes. Mas não é assim aqui."

A 20 minutos de carro da favela no esgoto, Ferentari é o gueto mais infame de Bucareste. Localizada num distrito chamado Setor 5, um nome que ecoa o passado comunista do país, a área é conhecida por algumas pessoas, particularmente por taxistas que se recusam a pegar passageiros aqui, como Terra de Piratas. Os políticos locais certamente são desonestos: o prefeito do Setor 5 foi preso por corrupção no começo do ano.

ONGs e jornalistas locais chamam isso de punga saracie – um saco de pobreza. Em outras palavras, esse é um lugar onde é quase impossível se escapar da miséria. As chances de sair daqui, a menos que seja num caixão, são limitadas como os esforços do governo romeno e de seu povo para ajudá-los.

Uma das áreas de gueto de Ferentari. Centenas de famílias vivem espremidas em apartamentos minúsculos extremamente dilapidados.

Enquanto andava por Livezilor, ensanduichado entre prédios de apartamentos dramaticamente dilapidados dos anos 70, a primeira coisa que vi foi um homem agachado no meio da rua, injetando drogas na virilha antes de continuar seu caminho.

Cada apartamento de 1,39 metro quadrado, originalmente pensado para abrigar apenas um trabalhador cada de uma fábrica de ônibus há muito fechada, aloja em média dez pessoas hoje. Apenas um em cada seis apartamentos tem água quente e gás para aquecimento e cozinhar. Nem todos têm eletricidade, mas as laterais dos prédios estavam cobertas com antenas parabólicas novas e antigas. O lugar não parece ter muitas portas. Os porões estão inundados há anos e abrigam ratos enormes. O fedor é inacreditável. Agulhas usadas estão por toda parte: nas escadas, nas calçadas e nos enormes montes de lixo a céu aberto.

Há uma teoria em Hidden Communities, um livro sobre Ferentari, de que traficantes e usuários daqui mantêm essas pilhas de lixo para criar uma espécie de "política de preservação pela imundície", uma "área onde as pessoas não devem entrar e onde a cultura das drogas sobrevive". A única certeza é que as pessoas jogam seu lixo pela janela porque os caminhões de coleta não passam aqui há anos e que os políticos locais simplesmente não se importam. Essa área é 70% romani. Logo, o lixo é deixado apodrecendo, junto com as pessoas.

Michele Lancione é um etnógrafo italiano da Universidade de Cambridge que estudou a comunidade de Ferentari. Ele foi o meu guia no que é basicamente uma zona proibida para jornalistas que ficam satisfeitos em tirar uma foto rápida de viciados se injetando antes de dar o fora. "A vida em lugares como esse é incrivelmente difícil, ainda mais se você é viciado", me contou Lancione. "Você é estigmatizado como romani e como usuário. Em tudo isso, o Estado é ausente. Ou, pior, está aqui apenas para dificultar a vida das pessoas, já marginalizadas por falta de investimento e um código penal medieval."

Em Livezilor, vi uma mulher aos gritos sendo arrastada de um prédio e enfiada num carro. Os rumores eram de que ela era uma prostituta, prestes a ser punida pelo cafetão enraivecido. Virando a esquina, fica Caracuda, um projeto da outra organização de ajuda a viciados da Romênia, a Carusel. O lugar é basicamente um barraco onde viciados trocam agulhas usadas por novas.

Os roma trazem baldes de seringas usadas para trocar por novas. As agulhas são uma commodity vital – elas são usadas para se evitar infecções e como forma de moeda no mundo das drogas.

A maioria dos viciados com quem falei em Caracuda tinha histórias parecidas de perda e arrependimento. As drogas oferecem uma fuga disso, mas só por um curto período.

"Comecei a usar heroína aos 17 anos porque era o que todo mundo estava fazendo", me explicou Marian, que tem 35 anos, mas nunca teve um emprego. "Quando estou usando heroína, me sinto uma pessoa normal como você." Outro viciado, um adolescente chamado Costel, me disse: "Uso drogas para esquecer. Há essa necessidade de se sentir apagado". Quando perguntei o que ele queria esquecer, ele respondeu que não podia me contar, que isso era indizível.

Como Lancione aponta, os fundos da UE para Caracuda, parte do auxílio esfarrapado da Romênia para viciados em drogas, estão secando rapidamente, porém o governo se recusa a fazer algo para salvar o projeto. "O governo romeno é inepto para ajudar quem precisa disso. O que é feito aqui em Caracuda, na forma de seringas limpas, é realizado pelo menor custo possível. As agulhas muito vagabundas – elas quebram dentro da pele enquanto os usuários procuram veias – são quase inúteis."

Falei com Florian, 27 anos, que tinha duas marcas de injeção no pescoço. Ele é do gueto, onde diz que "todo mundo" usa drogas. Ele tinha acabado de sair de um táxi, pagando o motorista, um usuário de heroína, com agulhas novas. Florian usa heroína desde os 12 anos. Ele injeta um grama por dia. "No começo, quando eu era menino, a sensação de usar heroína era muito boa. Mas agora faço isso porque preciso. Não é mais um prazer", ele frisou.

Ele passou quase metade da vida furando a pele e enchendo as veias de heroína. No entanto, Florian não é uma criatura selvagem, inumana. É um garoto perdido procurando uma saída. Infelizmente, ele está preso no mesmo círculo vicioso em que muitos roma se encontram. Quando perguntei como ele via o futuro, ele disse: "Merda. Não há futuro. Nada".

Florin é um romani que vive nas ruas desde 1995. Ele usa Aurolac e injeta legale. As feridas em seu peito são queimaduras antigas que nunca cicatrizam, de quando ele colocou fogo em si mesmo em 2010.

Um dos homens reunidos em frente ao Caracuda me falou que seu irmão estava indo até a Inglaterra no dia seguinte. Parece que a Inglaterra é um destino de férias popular entre as pessoas de Ferentari. Mas eles não vão ao país para tirar fotos da rainha.

Perguntei ao homem o que seu irmão ia fazer na minha terra natal. "Roubar!", ele respondeu, sorrindo. Ele destacou que as pessoas de Ferentari amam a Inglaterra porque a polícia inglesa é incrivelmente branda, na opinião deles. O homem gostava particularmente de Asda e Morrisons, em Birmingham, onde ficou por seis meses antes de ser deportado no ano passado. Ele fez um bom dinheiro roubando uísque, chocolate e lâminas de barbear Gillette Fusion para revender isso a 7-11s locais. Na Romênia, você pode pegar três anos de prisão por roubar uma barra de chocolate. Porém, na Inglaterra, o cara disse que foi pego roubando quatro vezes antes de ser mandado de volta para a Romênia.

Para Amer, 30 anos, outro usuário de drogas romani, a vida no gueto é uma via de mão única. "Para mim, isso é a vida normal: vivo assim desde que nasci", ele me contou. "Saio de Ferentari duas vezes por semana para fazer meu tratamento no hospital e ganhar algum dinheiro. Não posso dizer o que faço – posso ir preso por isso. Daqui a cinco anos, nada terá mudado. Espero que a vida melhore, mas não acho que isso vai acontecer. Os romani não são tratados de maneira justa pelo governo – eles são ridicularizados e nunca são levados a sério."

Outra usuária de 35 anos, Daniela, vem injetando há 15 anos. Ela apertava a caixa com suas preciosas agulhas contra o peito. "Essas agulhas são uma coisa linda. Mas nós somos tratados como lixo. Morar aqui é como viver numa ilha esquecida pelo mundo."

Amer tem feridas por coçar a pele até o osso. Ele teve uma crise psicótica depois de usar legale entre 2010 e 2012. Ele atacou o braço porque tinha a sensação de que insetos estavam dentro de sua pele.

O salário médio em Livezilor fica abaixo de US$ 68 por semana. A maioria aqui vive da maneira mais básica. Os homens estão envolvidos em esquemas e roubos, enquanto trabalho sexual é uma das poucas alternativas para as adolescentes. O nível de educação entre os romani de Ferentari é muito baixo: a maioria das crianças abandona a escola por volta dos 12 anos para trabalhar ou começar uma família, segundo o Centro de Políticas para a Minoria Romani, uma organização sem fins lucrativos fundada em 2008 em Ferentari. Com o uso aberto de drogas sendo parte da vida normal na maioria das casas, é comum que as crianças comecem a usar entorpecentes, inclusive heroína e legale, bem cedo. Em Hidden Communities, o autor entrevistou um garoto de oito anos que injetava heroína e um garoto de dez obrigado a injetar na área pública porque todas as suas outras veias estavam destruídas.

"Os problemas encarados pela comunidade romani nos guetos de Ferentari estão ligados às muitas camadas da pobreza extrema", comentou Raluca Negulescu, diretor executivo do Centro de Políticas. "As crianças são expostas ao consumo de drogas, o que normaliza isso é também é um risco para a saúde. As crianças pegam hepatite C quando se picam nas agulhas em casa."

Além de ter de lidar com as drogas, os roma têm de tomar cuidado com a polícia. No ano passado, um romani de 26 anos chamado Daniel Dumitrache foi preso em Bucareste por trabalhar como flanelinha, uma atividade comum entre os jovens roma. Na manhã seguinte, ele estava morto. A polícia alegou que ele passou mal e que, apesar de receber ajuda médica, morreu logo depois. Os oficiais disseram que não havia sinais de violência no corpo, mas os pais de Daniel responderam que o cadáver estava coberto de hematomas. Um relatório forense definiu a causa da morte como rompimento do baço e um policial foi preso por abuso da força, apenas para ser transferido de delegacia pouco tempo depois.

Em 2014, um chefe de polícia romeno renunciou depois que uma filmagem de câmera de segurança o mostrou estapeando e chutando uma garota romani de 14 anos numa delegacia. Várias trabalhadoras sexuais relatam abusos nas mãos da política – é comum que elas sejam obrigadas a limpar a delegacia nuas para serem liberadas.

Em seu relatório sobre os registros de direitos humanos na Romênia, o Departamento de Estado dos EUA descreveu: "Discriminação contra os romani continua sendo um grande problema... os principais problemas de direitos humanos incluem abuso policial e de detidos roma". É essa discriminação sistemática que impede os roma de terem acesso a educação, moradia, saúde e oportunidades de emprego.

E os políticos são tão ruins quanto a polícia. Em 2007, o ministro de Relações Exteriores romeno sugeriu que o governo comprasse um pedaço de deserto no Egito e mandasse os roma para lá. Em 2010, o presidente Traian Basescu foi multado em colossais US$150 por uma organização antidiscriminação romani depois de afirmar que "poucos roma querem trabalhar, muitos vivem tradicionalmente do que roubam".

Em 2014, o prefeito de uma cidade da Transilvânia despejou 74 famílias roma e as forçou a mudarem para um depósito de lixo químico. Em 2012, o prefeito de Baia Mare, uma cidade no norte da Romênia, obrigou centenas de romani a viverem numa fábrica de aditivos químicos abandonada.

Relatando a situação do povo romani na Europa, a Agência da União Europeia pelos Direitos Fundamentais descreveu como "chocantes" os níveis de exclusão e privação em países como a Romênia. Em 2015, na sua avaliação do progresso desse país em reformas políticas, a Comissão Europeia atestou que "poucas medidas efetivas foram tomadas para se integrar a população romani" e que houve pouco movimento para se melhorar a educação e a saúde dessa população.

"As únicas intervenções efetivas dirigidas aos usuários de drogas em Bucareste – e aos usuários roma, em particular – foram deixadas nas mãos de um punhado de ONGs que não conseguem ligar com a escala do problema", lamentou Lancione. "O Estado poderia e deveria fazer mais – mas isso só vai acontecer quando e se os parceiros da UE fizerem pressão. Infelizmente, isso não parece ser parte da agenda; então, outra geração romani vai crescer em condições totalmente inaceitáveis."

Através da estratégia de integração romani da UE, US$ 28,7 bilhões foram disponibilizados entre 2007 a 2013 para que os estados-membros investissem na inclusão social dos Roma; no entanto, apenas uma fração desse dinheiro foi utilizada pela Romênia, porque o serviço civil não tem ideia do que fazer com isso. A UE alerta o governo romeno todo ano sobre o atraso, mas em todo ano a situação se estagna.

Apesar das ameaças de sanções por discriminação contra a maior minoria étnica da Europa, a Romênia e mesmo os autoproclamados líderes da comunidade romani parecem felizes em deixar seus cidadãos apodrecerem nos guetos.

A UE admitiu que, apesar do progresso lento, cidadãos vulneráveis como os roma estão melhores quando seu país faz parte desse bloco continental. Desde que ninguém levante poeira, a emergência de saúde cercando os viciados roma pode ser varrida para debaixo do tapete.

"Essas crianças veem o caminho que outros trilharam; então, parece natural [segui-lo]. Temos de expor essas crianças a alternativas de vida para que elas tenham um elemento de escolha." – Raluca Negulescu

O ano de 2015 marca o final do plano de dez anos dos governos europeus chamado de A Década de Inclusão Romani, que marcaria "um comprometimento sem precedentes dos governos europeus para eliminar a discriminação contra os roma e fechar a brecha inaceitável entre eles e o resto da sociedade".

Assim, perguntei a Raluca Negulesco que impacto a Década Romani teve nas crianças de Ferentari: "O impacto está próximo do zero, sendo otimista. Ainda há um racismo ostensivo contra os roma. Os viciados são vistos como merecedores de seus problemas. Isso é inaceitável num país da UE em 2015".

Por mais deprimentes que sejam as expectativas hoje, Negulesco acha que a verdadeira mudança só é possível se o próprio povo romani tomar as rédeas da situação. "Temos líderes informais, não pessoas que dizem 'Sou o líder', mas pessoas que têm o apoio de seu povo, pessoas que realmente querem mudar as coisas, e não só para si mesmas", apontou Negulesco. "Algumas dessas mulheres roma são incríveis. Elas são líderes. Agora, no Setor 5, não há um romani sequer em posição pública. Mas espero que, em dez anos, essas mulheres sejam eleitas para os conselhos locais."

Desde o ano passado, o projeto de Negulescu vem trabalhando com mais de 300 crianças, principalmente roma, em um programa de educação voltado para ajudá-las a se recuperarem na escola. "Essas crianças veem o caminho que outros trilharam; então, parece natural [segui-lo]. Temos de expor essas crianças a alternativas de vida para que elas tenham um elemento de escolha."

Toto é uma dessas crianças de sorte. Notado pelo cineasta Alexander Nanau quando tinha dez anos e morava em Livezilor com suas duas irmãs adolescentes, ele teve sua vida difícil documentada por mais de 15 meses. Nanau filmou Toto, cuja mãe estava presa por tráfico de drogas, dormindo em seu apartamento decadente, enquanto usuários injetavam drogas ao lado dele. Quando sua irmã mais velha começa a usar heroína, ele e a irmã mais nova são levados para um abrigo infantil, onde a vida começa a melhorar.

O documentário Toto and His Sisters foi lançado no ano passado. Agora com 15 anos, Toto é uma das crianças beneficiadas pelo programa de educação de Negulescu. Hoje, ele é um dançarino de rua famoso em seu bairro.

"Ainda sou destratado quando entro em lojas. As pessoas me dizem para não tocar nada porque sou romani", ele me confessou. "Visito minha mãe e minha irmã mais nova no antigo apartamento, mas minha irmã mais velha está presa por roubar um celular. Hoje, divido um quarto numa casa com outros dois garotos, amigos meus. Estou bem. Eu me sinto mais feliz. Vou ser um dançarino. Talvez um diretor de cinema, quem sabe?"

É uma vergonha que a única ajuda dada aos viciados dos guetos de Bucareste venha de duas ONGs financiadas principalmente por dinheiro estrangeiro. Com poucos recursos, essas organizações estão lutando uma guerra perdida. Como um dos membros mais recentes da família europeia, a Romênia não está sendo suficientemente pressionada para resolver o problema. Enquanto os roma continuarem segregados em guetos na Romênia – e em outros países da Europa –, o uso de drogas e as taxas de HIV vão continuar subindo.

Há esperança de que Toto, um garoto com mais oportunidade que os outros de escapar do destino sombrio à sua volta, consiga deixar para trás a vida no gueto. Porém, mesmo se conseguir, ele sempre será um romani. Depois de séculos de subjugação, está na hora de garotos como Toto serem tratados como seres humanos.

O autor agradece à Michele Lancione e à União Húngara pelas Liberdades Civis o apoio nesta matéria. A UHLC tem uma nova campanha para conscientizar sobre o problema das drogas nos Bálcãs; para saber mais, acesse www.room-for-change.org.

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Tradução: Marina Schnoor