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Como o 'efeito Trump' está transformando a escola nos EUA num inferno para as minorias

Desde a vitória de Trump, estudantes brancos em escolas norte-americanas têm descarregado um discurso de ódio contra negros, pessoas LGBT e imigrantes.

por Erica Euse
16 Novembro 2016, 10:00am

Na quarta-feira, depois que Donald Trump foi eleito, um grupo de estudantes do ensino médio de York, Pensilvânia, comemorou a vitória republicana marchando pelos corredores da escola gritando "poder branco", segurando cartazes da campanha de Trump. Um estudante hispânico até disse que outros colegas de minorias receberam cusparadas enquanto a procissão de ódio marchava na hora do almoço.

Essa não é a primeira vez que surgem casos de bullying em escolas relacionados à eleição de 2016. Essa, aliás, parece uma tendência norte-americana atual que não mostra sinais de abatimento na semana seguinte à eleição.

Durante o segundo debate presidencial, em outubro, Hillary Clinton abordou o aumento da tensão nas escolas do país. "As crianças escutam o que dizem a elas", falou a então candidata ao lado de um Trump sorridente. "E há muito medo. O bullying está em ascensão. Muita gente está se sentindo desconfortável." Clinton chamou esse fenômeno de "Efeito Trump", e o termo pegou graças à ligação entre um aumento da ansiedade e perseguição entre crianças de minorias e a retórica da campanha do presidente eleito, que era cheia de ódio – pedindo a proibição da imigração de muçulmanos e generalizando todos os imigrantes mexicanos como estupradores, por exemplo.

Em abril passado, o Southern Poverty Law Center (SPLC), uma organização de advogados sem fins lucrativos especializada em direitos civis, investigou o "efeito Trump". Depois de entrevistar dois mil estudantes e 12 professores, o grupo descobriu que desde o começo da campanha presidencial dos EUA, mais da metade dos estudantes notou "um aumento no discurso político anticivil" em suas escolas. Dois terços dos professores também disseram que alguns garotos – geralmente de minorias e imigrantes – expressaram preocupação sobre o que poderia acontecer caso Trump fosse eleito.

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"Nosso estudo foi publicado durante as primárias, mas o que ouvimos depois que as aulas voltaram em agosto e setembro foi que basicamente tudo que relatamos continuou ou piorou", disse Maureen Costello, diretora do projeto Teaching Tolerance do SPLC. "A preocupação e ansiedade de estudantes imigrantes e muçulmanos e o mau comportamento e bullying [são generalizados]."

Eu mesmo vi o efeito Trump na minha vida. Na terça-feira (8), enquanto os resultados das eleições saíam, meu irmão de 14 anos me disse que outros garotos da escola dele "ficam me dizendo que vou ser deportado se o Trump vencer". Meu irmão não é imigrante – mas é mestiço, o que o torna alvo de ignorância. Agora temo o que mais ele vai ter que enfrentar na escola.

Cuspiram numa garota negra porque ela teve a audácia de defender o Black Lives Matter. Disseram para um estudante estrangeiro 'volta pra casa, amarelo'. Um estudante gay teve que ouvir 'melhor virar macho se quiser sobreviver nos EUA.' – Maureen Costello

Agora que Trump chegou oficialmente à Casa Branca, a questão é se o "efeito Trump" nos jovens das minorias vai piorar. O incidente da saudação ao "poder branco" em York é apenas uma das muitas histórias de terror nas escolas circulando desde que Trump foi eleito.

"Depois de terça, é todo um jogo diferente. Estamos ouvindo dos professores que tudo que relatamos atingiu um extremo", disse Costelo, que tem recebido inúmeros e-mails de pais e professores preocupados recontando algumas coisas pelas quais os garotos estão passando.

"Cuspiram numa garota negra porque ela teve a audácia de defender o Black Lives Matter. Disseram para um estudante estrangeiro 'volta pra casa, amarelo'. Um estudante gay teve que ouvir 'melhor virar macho se quiser sobreviver nos EUA'. Disseram para um estudante latino 'se prepara para construir aquele muro, filho da puta'. Um estudante asiático ouviu um grupo de estudantes brancos dizendo 'o discurso de posse do Trump foi muito moderado, espero que ele não esteja ficando mole'. E outro estudante gay foi seguido por garotas brancas gritando 'Trump, Trump, Trump.'"

Semana passada, me correspondi com uma estudante do Queens, bairro de Nova York, por e-mail. Na manhã de quarta-feira (9), quando a ficha da vitória de Trump começou a cair, um grupo de garotas de uma outra escola entrou no ônibus em que ela estava. Minha fonte disse que "elas olharam em volta e disseram 'você não deveria sentar no fundo do ônibus? Tipo, Trump é presidente'. Nunca achei que uma coisa dessas aconteceria comigo. Fiquei muito abalada". (A garota pediu para se manter anônima com medo de ser alvo de mais bullying.)

As redes sociais, por sua vez, estão cheias de histórias similares. O jornalista Shaun King vem postando vários casos em suas páginas do Twitter e Facebook. Num colégio do centro da Flórida, uma parede de banheiro foi pichada com a mensagem: "Todos os pretos peguem seu número de escravo. KKK 4 life. Vai Trump". Em Royal Oak, Michigan, um grupo de estudante brancos do ensino médio gritou "construa o muro" no meio da cafeteria da escola. Outras histórias falam em portas vandalizadas com slogans nazistas como "apenas brancos" e foda-se os crioulos".

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"Nesses casos, não é que essas coisas não aconteciam antes", disse Sheri Bauman, professora da Universidade do Arizona que estuda bullying. "Elas estão acelerando. Se tornando mais cruéis, mas agora os garotos sentem que têm permissão para fazer isso. Antes eles achavam que precisavam ser discretos sobre isso."

A eleição de Trump garantiu que ele vai servir por pelo menos quatro anos, mas sua campanha e presidência podem causar um dano irreparável para os garotos que estão sendo alvo de bullying.

"Sabemos que esse bullying não os afeta apenas a curto prazo, em muitos casos vemos transtornos psicológicos, depressão e ansiedade até a vida adulta", disse Bauman. "As outras pessoas também escutam. Nem todos os grupos marginalizados são visíveis. Pense em alguém que pode ser LGBT e imagine o que é ouvir essas coisas mesmo quando você não é o alvo. Você acaba internalizando a opressão. Se todo mundo ao seu redor diz que você é inútil, dispensável, um estuprador ou uma ameaça, você pode acabar acreditando."

Costello acredita que as coisas provavelmente vão piorar antes de melhorarem. "Vamos ver mais disso", ela me disse. "Muitas coisas negativas estão sendo ditas e as crianças são impressionáveis. Acho que veremos um aumento no preconceito, um aumento na expressão disso, e isso vai levar tempo para consertar."

Diante dessa onda de comportamento de ódio entre os estudantes, algumas escolas estão se esforçando para punir os estudantes responsáveis por bullying e condenar suas ações. No momento, os garotos de York que gritaram "poder branco" estão suspensos. Ainda assim, Bauman sente que qualquer iniciativa antibullying nas escolas pode ser facilmente minada, considerando que o maior bully de todos está liderando a nação.

"Acho que vai ser um grande desafio", disse Bauman. "Tenho medo por esses garotos."

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Tradução: Marina Schnoor

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