A Coleção Baderna Incomoda Muita Gente

Com volumes apreendidos durante as Jornadas de Junho, a coleção volta com A Revoada dos Galinhas-Verdes.

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out 14 2014, 12:00pm

Depois de descobrir que vários livros da coleção Baderna foram apreendidos pela polícia entre pertences de ativistas após as Jornadas de Junho, o editor Rogério de Campos não teve dúvidas e está prestes a enaltecer o mundo da literatura subversiva de novo, republicando parte da série. Quem inspirou essa retomada? "A polícia. Se está desagradando os caras, tem uma razão."

Integralistas em frente à sede da AIB após a Batalha da Praça da Sé, em 7 de outubro de1934 [Acervo Iconographia]. Todas as fotos são cortesia da Editora Veneta.

Originalmente lançada pela editora Conrad no início dos anos 2000, a coleção traz publicações afiadas que falam sobre resistência. Agora, parte delas sairá pela Veneta, a nova editora capitaneada por Rogério. "Qualquer imbecil direitista arruma uma editora pra publicar suas bobagens. O mercado da direita já é muito saturado. Então, publicamos livros de esquerda", explica.

Integralistas em frente à sede da AIB na manhã de 7 de outubro de 1934 [Acervo Iconographia].

Se é baderna, tem que chegar com o pé na porta. E é isso que a Veneta vai fazer: começar pela galinha dos ovos de ouro que não fez parte da coleção original. O livro A Revoada dos Galinhas-Verdes (1984), de Fulvio Abramo, não tarda a sair do forno. O texto, publicado originalmente em uma edição mimeografada do Centro de Estudos do Movimento Operário Mario Pedrosa, em 1984, deve ter sua versão em livro nas ruas ainda no mês de outubro, quando a histórica batalha que tomou a Praça da Sé completa 80 anos. Na Revoada, anarquistas, socialistas, comunistas, trotskistas e sindicalistas se reuniam em São Paulo para se opor à Ação Integralista Brasileira, partido de extrema-direita que se inspirava no movimento fascista italiano e trazia como mentor Plínio Salgado.

Para Rogério, a união que formou a Frente Única Antifascista foi um marco para a esquerda tupiniquim, que costumeiramente brigava graças a ideologias distintas em detrimento de um consenso. "Quando eles viram que os integralistas estavam repetindo o mesmo caminho do que acontecia na Alemanha e na Itália por aqui – ou seja, reacionarismo, ultranacionalismo e militarismo –, perceberam que tinham um inimigo em comum", frisa.

Armados com revólveres e até metralhadoras, homens e mulheres antifascistas entraram em confronto com os integralistas, que, vestindo uniformes verdes (daí o porquê de "revoada dos galinhas-verdes"), prontamente fugiram. Seis pessoas morreram. Entre as vítimas, cinco eram guardas civis e a sexta foi Décio Pinto de Oliveira, militante comunista atingido por uma bala na cabeça enquanto discursava.

Rogério fala dos "velhinhos de esquerda que criticam os jovens de hoje" e lembra da cena que viu em junho do ano passado na Avenida Paulista: direitistas enrolados em bandeiras do Brasil cuspindo em uma garota do PSOL. "E foi naquele momento que moleques mascarados anarquistas, os black blocs, entraram em defesa de petista, de PSTU, de PSOL, de várias pessoas. Vi muita gente de esquerda se juntando. Porque era necessário mesmo", relata o editor.

O objetivo da editora Veneta é dar espaço aos autores de esquerda, mas a coleção Baderna alça voos ainda mais distantes. "A ideia é ir além do pensamento dominante da esquerda, sabe? Mostrar outras ideias, outros autores, pensamentos. E, principalmente, mostrar novas maneiras de se organizar, novas maneiras de atacar o capitalismo."

Integralista ferido na Praça da Sé [Acervo Iconographia].

Porém, nem todos os livros que integram a coletânea serão relançados. A editora está retrabalhando algumas publicações e estudando até novas traduções. Algumas ficaram datadas e não serão disponibilizadas. O editor justifica: "Jovem tem saudade, mas saudade também tem limites. Nostalgia, não. Estamos publicando na medida em que seja útil, e não por nostalgia". Entre os livros que serão relançados, estão Provos, de Matteo Guarnaccia, Grouxo-marxismo, de Bob Black, e Situacionismo, da Internacional Situacionista.

Não resisto e, antes que a entrevista acabe, pergunto a opinião de Rogério sobre o resultado parcial das eleições. Ele relata certa angústia ao pensar no assunto e diz que, nessas horas, só consegue lembrar de uma musiquinha de comercial: "Eu prefiro lanches Mirabel...".

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