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De Volta à SOFEX, Pós-Primavera Árabe

A localidade da ira de Deus é agora um ótimo lugar para adquirir ferramentas da ira dos homens.

por Matt Yoka
21 Maio 2012, 3:50pm

O local onde Jeová fez chover fogo e enxofre em Sodoma e Gomorra, de acordo com os estudiosos,  fica a poucos quilômetros de distância da atual cidade de Amã, Jordânia. A antiga localidade da ira de Deus é agora um ótimo lugar para adquirir ferramentas da ira dos homens — algumas semanas atrás, a cidade hospedou a SOFEX (Special Operations Force Exhibition) 2012, a feira militar que expõe as maiores e mais fodásticas armas que o dinheiro pode comprar. E quem tem acompanhado os noticiários sobre o mundo árabe desde o ano passado sabe que não dá pra desprezar a ira dos homens.

A VICE já esteve na SOFEX antes, mas, na esteira da Primavera Árabe, eu queria ver como o mercado tinha mudado no negócio de matar pessoas, se a demanda de armamento aumentou nessa era de incerteza e transição ou se alguns dos generais e oficiais do governo responsáveis pelas compras estavam suando um pouco mais que o normal.

Um general sudanês que disse que “a Primavera Árabe é uma coisa natural. Se você reprime o povo por muito tempo ele acaba se rebelando”.

Pra ter uma ideia do cardápio de armamentos, falei com um simpático funcionário com sotaque do meio-oeste norte-americano da DS ARMS, e também com uma fabricante de rifles de assalto com matriz em Chicago, num stand do pavilhão norte americano da SOFEX. Como se estivesse explicando o funcionamento de um aspirador de pó, ele expôs as muitas utilidade da FAL 7.62, que foi inspirada num rifle belga de 50 anos, mas que nos dias de hoje tem um lançador de granadas acoplado ao barril em vez de uma baioneta:

FAL 7.62 da DS ARMS. Rifle de assalto com lançador de granadas acoplado.

“O lançador de granadas é para uma área alvo”, disse ele. “Você pode atirar numa sala, numa janela, num veículo e isso vai explodir aquela área. Ela reúne uma grande quantidade de carga. Veja, o lançador de granadas é muito versátil para policiais, militares e tudo mais. E você pode usar diferentes munições. Dá pra usar artilharia pesada, gás lacrimogêneo, explosivos, foguetes... Eles até fabricam uma bala enorme de borracha que após acertar o solo sai quicando no meio da multidão. É uma arma muito versátil. Você pode usá-la para CAC (combate em ambiente confinado), mesmo muitas pessoas achando que ela é muito poderosa para esse tipo de ação. Ela está ficando cada vez mais popular porque muitos inimigos usam blindagem corporal hoje em dia. Vários países do Oriente Médio adquiriram essa arma.”

Isso te leva a pensar que tipo de “inimigo” esse cara do meio-oeste norte-americano tem em mente. Al-Qaeda? Salafistas no Egito? Ou multidões enfurecidas em geral? Se a DS ARMS vende essas armas além-mar, como ela decide quem é amigo e quem não é?

“Somos muito responsáveis”, o funcionário respondeu quando perguntei se as armas poderiam ser vendidas para inimigos dos Estados Unidos. “Todas as vendas passam pelo Ministério do Exterior. Mas são muitas vendas." Ele fez questão de mencionar que não estava se referindo à sua empresa especificamente. “Há rumores de que muitas das compras para o Kuwait são desviadas para a Líbia.”

Achei interessante saber que a Líbia estava comprando rifles FAL do Kuwait porque tinha acabado de vê-los conversando com um representante de vendas de LPG (lançador-propelente de granadas) num outro stand. Cinco delegados líbios estavam na SOFEX esse ano, liderados pelo novo chefe de pessoal do exército, Yussef Al-Mangush, um ex-coronel de Gaddafi que se juntou à rebelião. Ele foi preso pelo ditador e liberado depois com a queda de Trípoli, e agora estava ali, passeando pela feira pra decidir como seria melhor gastar milhões de dólares em brinquedos de matar.


Um manequim de sexo indeterminado expõe o Capacete Balístico de Alta Performance da MP Compositers (vem nas cores verde-oliva, azul marinho e azul da ONU).

Quando me encontrei com o general Hassid para perguntar o que ele estava comprando, ele respondeu: “Estamos procurando por tudo”. Tomei isso como uma resposta genérica que um militar daria para um jornalista, já que ele provavelmente não ia dizer: “Bom, nossos portos são particularmente vulneráveis”. Depois, no entanto, quando falei com o melhor comandante deles (“melhor” é parte do título) — que se apresentou como Ghaffar — ele acabou entregando as reais necessidades. “A OTAN destruiu toda nossa força aérea”, disse. “Precisou ser assim. Mas tudo bem, era tudo lixo russo velho. Agora estamos começando do zero.” Talvez eles precisem mesmo de tudo.


Ghaffar, “melhor comandante” da Líbia.

Minha conversa com os líbios me deixou em dúvida sobre a minha posição nessa feira militar. Por um lado, realmente não gosto dessas máquinas de guerra. Por outro, não consigo deixar de admirar esses homens que lideraram uma rebelião de sucesso contra um tirano megalomaníaco.

A Líbia não foi o único país que teve um ano interessante visitando a SOFEX. Iêmen, Bahrein, Iraque, Egito, Tunísia, Paquistão e Palestina estavam todos caçando as últimas novidades em tecnologia militar. Depois de um tempo no mar de camuflagem, medalhas e bigodes se misturam. Quando perguntei ao representante dos LGP no que o general da Líbia estava interessado, ele me corrigiu indevidamente: “Da Argélia, você quer dizer?”.


General Ahmed Al-Ashmal do Iêmen falando com um representante da Rosoboronexport, uma agência de exportação/importação russa gerenciada pelo Estado. “O levante terminou”, ele disse. “O Iêmen está caminhando para a tranquilidade. Insha-Allah."

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Uma coisa era certa, os oficiais cheios de medalha que passeavam entre os stands nos poucos dias que ficaram em Amã estavam no mesmo país que muitos dos seus ex-cidadãos. Como um dos poucos países relativamente estáveis da região, a Jordânia se tornou um destino de refúgio e, de acordo com as Nações Unidas e o governo do país, quase dois milhões de palestinos, 110 mil sírios e 450 mil iraquianos estão dentro de suas fronteiras.

Refugiados ou não, a maioria dos residentes de Amã sabe que a SOFEX está acontecendo. Os generais dirigem pela cidade em seus SUVs, e jatos F16 cortam o céu a toda hora. “Sabe, eu desenho aviões”, o taxista me disse enquanto me levava em direção às tendas no primeiro dia da feira. “Posso voar até os Estados Unidos em três minutos com dois milhões de quilos de mísseis.” Disse que achava isso impressionante e ele continuou: “Mas minha melhor arma é a bomba de terremoto. Vou usar isso para conquistar o mundo”. Será que ele estava brincando, será que era meio amalucado, ou seria outra coisa? Afinal de contas, os anjos que destruíram Sodoma e Gomorra tomaram formas de homens. Anjo ou taxista, acho que ele gostou de mim, me deu até permissão de comandar a Ásia se tudo saísse de acordo com o plano.


Abdallah Al-Sadoun, visitando a SOFEX pela primeira vez. “Primavera Árabe? Vamos ver como tudo se desenrola."

Muitos dos participantes da SOFEX pareciam tão cheios de si quanto o cara das bombas de terremoto. Generais de países que tiveram seus governos derrubados recentemente tentavam parecer estar no controle — mas o destino de seus lares é incerto, pra dizer o mínimo. Muitos cartões de visita são distribuídos, mas raramente alguma compra é realmente efetuada na SOFEX. De acordo com os números que os jornalistas jogavam pra todo lado na área de alimentação, a Jordânia aparentemente comprou uma dúzia helicópteros de reconhecimento e de ataque rápido AH-6i da Boeing na SOFEX de 2010 — a UPI disse que um protocolo de intenção até já foi assinado —, mas que o negócio ainda precisava ser finalizado. Ou pode nunca ser finalizado, esse tipo de imprecisão é comum nessas coisas.

Em frente ao stand King Abdullah Design and Development, assisti uma demonstração de um microveículo aéreo – um drone de reconhecimento de 120 mil dólares, um item que está na wish list de todos os países este ano. Um coronel da Jordânia inclinava a cabeça pra trás maravilhado enquanto o drone subia 50 metros no céu azul do deserto. Quando o drone retornou silenciosamente pro concreto quente, espectadores se juntaram em torno do coronel e do representante do drone enquanto eles apertavam as mãos. “Sim, sim, isso foi muito bom”, disse o coronel. “Meu pessoal vai entrar em contato com você e nós vamos discutir mais sobre isso — o que talvez nos leve a fechar negócio.” Na SOFEX, como na história de Sodoma e Gomorra, a destruição é iminente.


O major saudita Al-Sandoun (no centro) com o CEO da MRKS Security (esquerda) e a representante de relações públicas (direita), considerando a compra um drone(acima) do Aeryon Labs.