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Escravos do Açúcar

No Brasil, existe um esquema de produção de etanol sustentado por trabalhadores recolhidos em cidades próximas aos canaviais que ganham menos de R$ 4 por hora para cortar a cana em um sol de rachar.

por Henrik Jönsson; Fotos por Anders Kristensson
05 Junho 2009, 12:00am



O Brasil e os Estados Unidos são os maiores produtores de biocombustível do mundo, responsáveis por 72% do fornecimento global anual. Em 2007, os dois países fizeram um acordo que promete desmamar o planeta das enormes tetas da indústria do petróleo. Mas se você é como a maioria dos seres humanos não-malas, provavelmente não sabe e nem quer saber como o etanol é produzido. Vamos poupá-lo dessa ladainha científica e ir direto ao ponto: o etanol é produzido a partir do milho ou da cana-de-açúcar. Nos Estados Unidos, as empresas produtoras compram o milho de fazendeiros. No Brasil, existe um esquema de produção diferente e controverso, sustentado por trabalhadores recolhidos em cidades próximas aos canaviais que ganham menos de R$ 4 por hora para cortar a cana em um sol de rachar. Um estudo realizado recentemente pela socióloga Maria Aparecida de Moraes, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), mostra que esses homens são maltratados e têm média de vida mais curta que a dos escravos nas plantações do século 19. Eles frequentemente sofrem ataques cardíacos por causa da exaustão. O mais provável é que você também sentisse dores no peito se sua existência consistisse em cortar quase 1 quilômetro de cana por dia—a média de trabalho de um bóia-fria. Todas as manhãs, um ônibus pega trabalhadores nas cidades ao redor da fábrica de etanol de Santa Cruz, no interior de São Paulo. Essa mão-de-obra é recolhida a dedo por oportunistas, os chamados gatos, que “contratam” migrantes na época da colheita. Como pouquíssimos dos trabalhadores têm contrato assinado, trata-se de uma forma ilegal de as fábricas burlarem taxas, impostos e outras responsabilidades. 

Trabalhadores lavam suas roupas imundas em um tanque coletivo.  
Engenheiro processa o etanol a partir do extrato de cana.
Recém-saído do banho, outro bóia-fria mostra seu quarto minúsculo.  
Cortador em ação numa rotina desgraçada que causa mortes por excesso de trabalho.


Chego em um dia como qualquer outro. Os canaviais estão cheios de jovens que não conseguem encontrar outra forma de se sustentar. Geraldo, 22 anos, teve recentemente sua primeira experiência como cortador. Ainda era cedo quando ele arrancou fora a roupa de manga comprida e desmaiou na sombra. “Faz o que você quiser!”, gritou. “Me manda embora! Não vou continuar. É desumano.” Recentemente, Lourenço Paulino de Souza, 20 anos, morreu de enfarto em seu primeiro dia de jornada. 

Essa situação é um paradoxo: em uma das regiões mais ricas do Brasil, famílias juntam grana para alugar os ônibus que levarão seus filhos para os canaviais rumo a um futuro incerto. “O que é que a gente vai fazer?”, pergunta Eufrase Nobre, 35, que deixou o inóspito interior da Bahia. No dia seguinte, Eufrase acorda antes do amanhecer e acende o fogareiro usado pra fazer a comida da família—arroz e feijão requentados, sobra do jantar do dia anterior.

Dois cortadores de cana com o entusiasmo da lida estampado na cara.


À tarde, a silenciosa máquina humana de cortar é freada pela primeira vez por gritos agonizantes. Um trabalhador se debate descontroladamente entre os pés de cana como se tivesse sido picado por uma cobra. Alguns segundos depois, um colega corre para socorrê-lo. “Puta merda, de novo não!”, esbraveja enquanto tenta acalmar o cortador de 18 anos, segurando sua cabeça. Era crucial que ele parasse de se debater para que as contrações musculares não chegassem ao coração. 

Mais tarde, o exausto garoto sai tropeçando pelo canavial e tomba na sombra. Seu nome é Evanilson Nascimento Chavez e ele vem de Santa Inês, no Maranhão, uma das regiões mais pobres do Brasil. “Vou morrer aqui, eu sei”, ele confessa. “Se eu não tivesse as contas para pagar, largaria isso hoje. Mas ainda tenho que pagar o quarto e a comida do mês passado. O chefe vai descontar do pagamento. E aí, ainda vou precisar de dinheiro para o ônibus de volta para casa.”

Dois bóias-frias em raro momento de descanso.


Faltam pelo menos dois meses no canavial para que Evanilson tenha alguma chance de voltar para o Maranhão. Pergunto a ele como se sente com os discursos do presidente Lula elogiando os “trabalhadores verdes do Brasil, que estão ajudando o mundo a reduzir o aquecimento global com a produção de um combustível ecologicamente correto, o etanol”. “Etanol? Como assim?”, ele pergunta, olhando para a canas com cara de interrogação. “Não é açúcar o que eles fazem com isso?”

Uma desgastante caminhada rumo ao canavial
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