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Comida

Jantando no Posto Avançado de Pyongyang no Camboja

E, assim como na Coreia do Norte, nenhum ocidental espertinho deveria tentar tirar fotos do local.

por Winston Ross
06 Fevereiro 2014, 6:00pm

Foto por Todd Brown.

O Bulevar Monivong é uma rua movimentada no coração de Phnom Penh, Camboja. Então, seria muito fácil passar reto pelo restaurante simples que, à primeira vista, lembra qualquer outro restaurante de comida cambojana — não fosse o outdoor revelando seus laços com o regime mais repressivo do mundo. Bem-vindo ao “Pyongyang”, um pedacinho da Coreia do Norte no Camboja.

Na verdade, esse é um dos dez ou mais restaurantes Pyongyang localizados por todo o Sudeste Asiático, todos eles de propriedade e operados pelo regime norte-coreano. A equipe do lugar é formada inteiramente por norte-coreanos, que muitos acreditam fazer lavagem de dinheiro e contrabando de inteligência de volta para Kim Jong-un. O TripAdvisor dá 3,5 estrelas para o restaurante de Phnom Penh.

Fiz uma reserva para às sete da noite e fiz questão de chegar na hora — imagino que atrasos perturbem muito os totalitários. Apesar de, ou justamente porque se trata de um restaurante comandado por uma ditadura, o lugar é muito bem iluminado graças a um teto coberto de luzes fluorescentes. Talvez isso ajude a garantir que nenhum ocidental espertinho desobedeça a proibição de tirar fotos.

Uma dúzia de adoráveis moças de saias verdes listradas e rabos de cavalo apertados — que parecem mais aeromoças que garçonetes — desliza de uma mesa de tampo de vidro para outra, conversando de forma animada com clientes chineses, japoneses e sul-coreanos; minha mesa é a única composta de caucasianos e elas simplesmente nos ignoram. As paredes são decoradas com pinturas de cachoeiras, montanhas e tigres. Há uma bateria, um teclado e uma mesa de som numa ponta da sala. Eles não servem cerveja coreana. Mas servem cachorro.

Um amigo recomenda as “melhores tiras de carne”, apesar do preço exorbitante de US$25 (uma refeição decente em Phnom Penh fica em torno de US$3 a US$8). Então, pedi a carne, juntamente com macarrão frio Pyongyang e cerveja Tiger. A garçonete nos traz hashis de plástico, o que é um mau sinal, de acordo com uma mulher da nossa mesa, que ensina inglês em Seul. Ela explica que, na Coreia do Sul, todos usam palitos de metal — porque, se a comida estiver envenenada, os palitos mudam de cor. “É assim que tudo acaba”, pensei.

As garçonetes ganham gorjeta como em qualquer outro lugar, mas acabam não ficando com muito. Isso de acordo com Sheena Chestnut Greitens, uma pesquisadora de Harvard que estuda a Coreia do Norte e seus restaurantes em países estrangeiros há anos. “Na Coreia do Norte, eles esperam que você distribua o dinheiro para o centro”, ela me disse. “Se você recebe dinheiro num país estrangeiro, você faz uma 'oferta de lealdade' para o regime e a família Kim. As pessoas podem fazer algumas centenas de dólares por mês, mas o regime fica com algo entre 50 e 90% disso — para pagar 'as despesas'.”

Um relatório feito por um grupo de pesquisa sul-coreano divulgado recentemente estima que os trabalhadores exportados da Coreia do Norte — o país também envia médicos, enfermeiras e outros trabalhadores para China, Rússia e Oriente Médio — rendem algo entre US$150 e US$230 milhões anualmente ao país.

“Desde a metade dos anos 2000, a Coreia do Norte expandiu seus serviços para outros países, o que inclui restaurantes”, disse Greitens. “A elite de Pyongyang [a cidade] precisa do dinheiro para comprar os bens que sustentam o nível do luxo em que vivem.”

Conforme os primeiros pratos chegam, as coisas ficam mais estranhas. Três das garçonetes emergem de uma porta lateral segurando microfones e buquês de flores. Elas começam a fazer um número de dança e canto que me lembra o K-pop sul-coreano. Quando acabam, elas distribuem as flores, cercadas por aplausos sinceros, e vão embora, reaparecendo minutos depois para servir mais comida. Não consigo deixar de pensar que essa é só uma tática, um truque para distrair os clientes do fato de que nossos palitinhos são incapazes de detectar veneno.

O entretenimento dura a refeição toda, apresentando sapateado, canções R&B, piruetas, tamborins com laços que explodem e um violinista tocando rock. A comida não é excelente, mas, com certeza, esse é o único lugar na cidade para se ter o gostinho autêntico da Coreia do Norte. A especialidade do lugar, o macarrão frio Pyongyang, é perfeitamente cozido e vem com a quantidade certa de tempero. O kimchi tem o mesmo gosto do comprado em supermercado e os bolinhos lembram... Bom, bolinhos. O bok choi, fervido num molho de ostras, é meu favorito.

O show encerra com uma garota vestida de mariachi executando um rodopio de um minuto. Quando ela termina, um cliente sul-coreano bêbado de camiseta G-Star Raw pula no palco e entrega um buquê, recheado do que acredito ser uma generosa gorjeta para sua garçonete favorita.

Depois do jantar, as norte-coreanas se juntam à multidão, socializando com todos os clientes menos a gente. Chamo uma delas, seu nome é Kim Gyong Hwa. Ela diz que estuda música na faculdade e que atualmente vive no andar de cima do restaurante, o que ela diz ser “legal”. Fico feliz de saber, já que os empregados do restaurante não podem sair da propriedade até voltarem para a Coreia do Norte. Kim volta para casa no ano que vem.

Ela se retira educadamente e volta para a mesa dos sul-coreanos. Mesmo que a refeição e o show tenham acabado, ela ainda tem trabalho a fazer — além de serem excelentes garçonetes, dançarinas e cantoras, essas moças também seriam muito habilidosas em recrutar clientes sul-coreanos como espiões do regime.

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