Relembrando o Hipster

Como o hipster se tornou modinha?

Estamos fazendo uma pequena coleção de histórias para tentar entender o que o Hipsterismo, esse movimento, febre, meme ou, seja lá o que for, significou, se é que significou alguma coisa.

por Drew Millard
15 Dezembro 2015, 8:21pm

É isso que você acha quando joga "hipster" no Google. Imagem via Google.

Um bom tempo passou desde o Auge do Hipsterismo no mundo, então podemos olhar para trás e tentar entender o que esse movimento, febre, meme ou, seja lá o que for, significou, se é que significou alguma coisa. Então estamos fazendo esta pequena coleção de matérias.

Quando aceitei o pedido do meu chefe para escrever uma matéria sobre como o hipster se tornou modinha, imaginei que a melhor maneira de fazer isso seria encontrar um hipster famoso e perguntar como era ser modinha. Tentei entrar em contato com Ezra Koenig, do Vampire Weekend; Ryan Schreiber do Pitchfork; o cara que escreveu The Hipster Handbook; dois autores que escreveram livros sobre o conceito de ser descolado; o acadêmico e DJ / rupture Jace Clayton; Chuck Klosterman; o punk e crítico cultural Ian Svenonius; Carles do Hipster Runoff; e até Fred Armisen e Carrie Brownstein da série Portlandia. O mais perto que cheguei foi Brownstein; o assessor dela da IFC me indicou a outro assessor, que perguntou se eu tinha conseguido outra pessoa para entrevistar para a matéria, e quando respondi "não", parou de responder meus e-mails.

Pensei sobre hipsters por vários dias, imaginando como cumprir essa tarefa. Li livros, artigos e ensaios. Entrevistei hipsters não famosos sobre o assunto. Tentei escreve sobre subculturas e sua relação com o comércio, média e tecnologia; e como os hipsters, com seu acesso à internet e o espaço cada vez menor entre mainstream e underground, aceleraram o processo de descoberta do movimento e sua subsequente saturação. Mas foi um saco. Então entrevistei um amigo que foi hipster no começo dos anos 2000 e que conhecia Adrian Grenier, Yeah Yeah Yeahs e todas essas merdas antes de todo mundo. O problema foi que ele só me disse como era ser um hipster que conhecia os Strokes antes deles serem famosos. O domínio da esfera hipster é muito vasto, muito nebuloso para tentar definir isso como morar em Nova York na virada do século. Então reescrevi esta matéria pela terceira vez, tentando definir apenas o que era um hipster, e como essa grande definição significava que era inimaginável que o hipster se tornasse modinha. Mas isso também ficou uma bosta. Em algum momento, percebi que a única maneira de falar sinceramente sobre o assunto era escrever sobre mim. Então é isso que vou fazer.

Vou te poupar dos detalhes do meu currículo hipster modinha, já que minhas referências são tantas que nem ouso listar aqui – fique sabendo apenas que elas são todas constrangedoras e muitas envolvem camisetas de gola V. Sou um cara branco de 26 anos da Carolina do Norte. Passei a maior parte da minha vida adulta escrevendo sobre hip hop para várias publicações da VICE. Não fui eu quem colocou os pregos no caixão do hipsterismo, mas com certeza ajudei. Estou apto a escrever sobre o mainstream do hipster da mesma maneira que um peixe com mãos poderia escrever sobre água.

Mickey e Minnie hipsters vendidos na Disney; píxel arte e decorações de Natal em pote de maionese vendidos na Target; um toca-discos vintage falso da J.C. Penney. Fotos por Jamie Lee Curtis Taete.

Percebi que eu era um hipster em 2008, na mesma época em que comecei a negar que era hipster para meus amigos hipsters. Eu era um universitário da Carolina do Norte e absorvi minha falta de autenticidade da maneira mais honesta possível – lendo a VICE. Para muitos, o primeiro ano de faculdade é a primeira vez em que você se encontra como pessoa. Você tenta novas atitudes, novas poses, novos vocês. Apesar de ter sido atraído para a revista inicialmente pelas críticas musicais – que pareciam ter acesso a músicas inacessíveis para um calouro da Universidade da Carolina do Norte – rapidamente descobri que a VICE servia como bíblia para todas as coisas hipsters, oferecendo sugestões de como se vestir, curtir a balada, comer, transar e tudo mais que um moleque impressionável de 19 anos quer saber sobre a vida. Entre ler a VICE e o Pitchfork – que fornecia comentários incisivos sobre o que um ser humano deveria colocar nos ouvidos – aprendi como agir e o que dizer sobre isso.

Acho que não fui o único jovem influenciado por essas publicações na época. Se você perguntasse para um proto-hipster do começo dos anos 2000 o que era ser hipster, ele provavelmente diria que era tentar ser punk e não conseguir, ou que eles estavam tentando viver a vida deles e "pare de me chamar de hipster, porra". Mas esse movimento nascente era obcecado por se documentar de maneiras que estabeleceriam um padrão para os hipsters que viriam depois, através de sites como Cobrasnake, VICE, Last Night's Party, e até música como LCD Soundsystem, cujo primeiro álbum serviu principalmente para James Murphy capitalizar em cima do hype ao redor dele.

O que ler a VICE e o Pitchfork fez foi me ajudar a me atualizar, me transformando de um calouro nervoso e genérico em alguém que parecia e agia de modo socialmente aceitável para uma legião de gente de calça colada, que parecia sempre mais legal, descolada e, bom, hipster do que eu jamais seria. Adotar a moda hipster me ajudou a criar uma linguagem visual para mim mesmo, sinalizando para amigos em potencial que eu também era hip, e portando digno de ser amigo deles.

O autor, aos 18 anos, na Carolina do Norte.

De certa maneira, o hipster se tornou modinha precisamente porque o termo "hipster" era tão difícil de definir. Depois de mais pesquisa e pensamento sobre o assunto do que eu deveria admitir, desenvolvi a teoria de que existem dois tipos de hipsters, os dois legítimos e igualmente odiáveis.

Temos os Criadores Hipsters: artistas, escritores e músicos de verdade, além daqueles que pertencem a uma subcultura maior que produz arte e ideologias através de uma mentalidade coletiva (isso inclui punks, ravers, pessoal da moda, crusties, nerds de literatura, acadêmicos descolados etc., e, infelizmente, gente realmente pobre e marginalizada). Essas são as pessoas que, se forem boas no que fazem, têm seu trabalho reconhecido, geralmente pelo mainstream. Isso pode acontecer na forma do James Murphy ser chamado para trabalhar com a Britney Spears, ou na forma de coletivos como o Odd Future ganhando impulso orgânico na internet e se tornando uma força cultural inegável. (Não que James Murphy ou o Odd Future se identifiquem como hipsters, mas novamente, parte de ser um bom hipsters é não ser nem um pouco hipster.) Quanto Criadores Hipsters ganhavam reconhecimento, eles frequentemente eram rebaixados por outros membros do underground por terem "se vendido", atraindo pessoas demais e, portanto, se tornando merda hipster. E mesmo se esse não fosse o caso, havia um certo esnobismo, ou um senso de discernimento, que andava de mãos dadas com esse tipo de hipster.

Aí você tem os Consumidores Hipsters, gente normal tentando viver e se inspirar em artistas e subculturas que viam como "hip", simplesmente porque estavam ocupadas demais para se juntar a uma subcultura ou pensar muito sobre a arte e a moda que consumiam, então compravam o que estavam a vendo no Urban Outfitters e consumiam seja lá que cultura as pessoas estavam comentando na internet. A cultura passa rápido, e a época entre algo ser sugado pelo mainstream e cuspido pelos Consumidores Hipsters é rápida. Mas isso também pode ser meio hipócrita, já que podemos argumentar que essas pessoas só estão deixando outras fazerem o trabalho todo por elas na hora de adquirir uma identidade (e deus que perdoe as pessoas que adquirem uma identidade pelo que consomem). Num ensaio para a Wag's Revue, o autor Robert Moor explicou a raiva direcionada a esse tipo de hipster, dizendo: "Sem um apoio filosófico pós-moderno e resistência ao capitalismo, o hipsterismo rapidamente cai no que o movimento sempre pareceu para os não-iniciados: um estilo de vida superficial, sem sentido, vão, hiperconsumista, venenoso e que odeia a si mesmo".

Mais que qualquer outra coisa, ser um hipster para mim sempre foi mais uma atitude do que um conjunto específico de significantes. Ser descolado é ver o mundo através de lentes específicas que, mesmo que você não consiga descrever exatamente, ainda é único. Isso encoraja as pessoas a ver o mundo com novos olhos e montar um eu incorporando os destroços que chegam às praias da cultura moderna. Não importa se o hipster está falando de Justin Bieber ou Stan Brakhage, porque o consumo em si se torna um ato radical, em vez do objeto ou atividades sendo consumidos.

Essa confusão entre criador e consumidor é, para mim, uma parte essencial do hipster como movimento. Vamos chamar isso, como o escritor e hipster velho assumido Christian Lorentzen me descreveu por telefone, de "estética do brechó". Lorentzen caracteriza isso como "o método de jogar com os códigos de classe com que você cresceu para confundir as pessoas, que olham para você pela primeira vez e não sabem dizer se você cresceu rico ou pobre".

Essencialmente, hipsters eram bons demais em criar mais hipsters, e portanto se tornaram irrelevantes por serem legais. Em algum ponto, chamar alguém de hipster se tornou um jeito de chamá-lo de jovem. E, acho, é nesse ponto que estamos.

Hipster Hello Kitty vendida na Sanrio Store; camisas xadrez da Old Navy; soda artesanal (sei lá o que é isso) vendida na Best Buy. Fotos por Jamie Lee Curtis Taete.

Conforme a faculdade foi passando e eu me tornei um hipster cada vez melhor, acabei parando de ler a VICE e o Pitchfork, e me tornei o árbitro dos meus próprios gostos. Eu me orgulhava de ser um usuário primordial de qualquer coisa eminentemente legal – meus amigos e eu fomos os primeiros a conhecer Four Loko, Lil B e bolar nossos próprios cigarros. Estávamos convencidos de que nós, e apenas nós, sabíamos a maneira certa de processar as referências efêmeras banais da cultura pop, como Wu-Tang Clan, Flavor of Love, World of Warcraft e Seinfeld. Me tornei pró em torneios de air guitar. Fiz com amigos um site baseado em comunismo e balada. Fui DJ de um programa da estação de rádio universitária de madrugada. Às vezes eu cantava junto com as músicas do Prince, ao vivo, no ar.

Em 2011, me graduei na faculdade e, como muitos hipsters fizeram antes, me mudei para Williamsburg, Brooklyn, a terra santa do hipsterismo da América do Norte. Para ser honesto, a mudança não parecia realmente uma escolha; parecia algo que você tinha que fazer se queria ser um jornalista e era hipster. Seguindo a tradição de milhões de hipsters que vieram antes de mim, cheguei em Williamsburg tarde demais: a festa já tinha feito as malas e mudado para Bushwick. Mas me assentei no meu apartamento perto da parada Bedford L do trem e comecei a cumprir meu destino. Comecei a andar com outros jornalistas e a fazer estágio no que eu poderia definir como "uma publicação hipster de videogames". No outono de 2012, eu estava trabalhando para o site de música da VICE, o Noisey, cobrindo hip hop em tempo integral.

Nos anos em que eu estava me transformando de uma pupa alternativa para uma borboleta hipster, agentes do mainstream começaram a cooptar os próprios hipsters. Quando a carreira de Justin Bieber precisava de um chute na bunda, ele chamou o Diplo, mestre em repaginadas underground. Talvez o fotógrafo mais significativo dos anos 2000 seja Terry Richardson, cuja principal habilidade envolve despir seus temas de um contexto maior e apresentá-los da forma mais naturalista possível, sejam grandes estrelas ou gente que ele pegou na rua. A VICE, bom, você sabia que vamos ter um canal de TV agora?

Essa prática não tem nada de novo. Madonna tirou o voguing da cultura dos bailes dos anos 80, Malcolm McLaren era um vendedor cujo principal objetivo era lucrar com os Sex Pistols, e antes de interpretar o Gilligan, Bob Denver fez Maynard G. Krebs, o que os executivos da TV achavam que era um beatnik. Quando você coopta sua parte legal de pessoas cuja principal habilidade é cooptar o que é legal nos outros, você essencialmente canibaliza a cultura, acelerando o desenvolvimento de subculturas e depois incendiando isso na hipervelocidade. Pense no Seapunk, que se tornou mainstream tão rápido que nem teve a chance de ir de piada para uma verdadeira subcultura.

Uma camiseta "Portland" vendida na Target; um saco do Chipotle com uma ilustração de bicicleta modificada; uma seção de "cervejas locais" na Target. Fotos por Jamie Lee Curtis Taete.

Não há nada de necessariamente errado nisso – subculturas sempre estiveram à beira de se tornarem modinha. A contracultura tem sempre que existir em oposição a alguma coisa, e essa oposição sempre vai se engolir e cooptar quaisquer elementos que ache que pode vender. Isso pode significar muitas coisas, como a Volkswagen se vendendo como o carro dos hippies, Ian MacKaye do Fugazi reclamando que muita gente que se veste de punk sem saber a razão para se vestir assim em primeiro lugar, ou a Geffen quebrando o grunge quando comprou o Nirvana pré-Nevermind da Sub Pop, cujo nome é literalmente "abaixo do pop".

Da mesma forma, a ideia de que o hipster é indefinível no tempo presente não é única. Num ensaio recentemente para o Baffler sobre a percepção do público sobre o punk, Eugenia Williamson escreveu: "As pessoas presentes no começo do punk tinham apenas nominalmente objetivos políticos e sociais, e o imperativo moral de renegar as grandes gravadoras, dinheiro ou fama só se afirmou em retrospecto". E o punk, um dos movimentos sociais mais casualmente políticos de todos os tempos, só deu sua guinada política quando caras como Ian MacKaye e Keith Morris assumiram, soltando invectivas junto com sua miséria sônica.

Mas há uma diferença entre os hipsters e os movimentos de contracultura do passado. Diferentemente dos hippies substituindo os beats e os punks substituindo os hippies, hipsters não foram substituídos por nada além de mais hipsters. O hipster é elástico, uma palavra-chave para as contraculturas que vierem depois, uma bolha que em vez de estourar simplesmente expande.

E aqui estamos, a era do hipster modinha, ou talvez o fechamento da época do alternativo. Nos três anos em que trabalho no Noisey, vi os blogs de música dos EUA fazerem a transição de sites mostrando aos leitores coisas novas que eles não conheciam, para sites dizendo aos leitores por que as coisas que eles já estão ouvindo são legais. E eu não sou especial por participar disso. Se eu nunca tivesse nascido, a VICE contrataria outro jovem hipster para o mesmo trabalho, e se a VICE nunca tivesse existido, eu teria visto o hipster virar modinha por outra entidade similar.

O que estou dizendo é que em algum ponto, as subculturas se tornam culturas e, portanto, maiores que qualquer pessoa ou organização, e os arquétipos e valores, que antes eram únicos de um grupo, se tornam presentes na sociedade como um todo. As ações do hipster, a pessoa para quem a arte é consumo e consumo é arte, se replicou através do tecido da tecnologia e sociedade. Nos comunicamos em retuítes e reblogues, curtindo e compartilhando, por referências e adoções. Enquanto isso, os verdadeiros hipsters se tornaram muito modinha para continuarem hip, e o próprio mainstream reagiu tomando o que antes era alternativo. O ethos do hipster se espalhou através da cultura ao ponto que o hipster não existe mais.

Eu sei que esse texto vai me fazer receber uma quantidade ridícula de críticas, principalmente sobre eu ser um babaca hipster por ter escrito isso. Mas de novo, só estou cumprindo a função do hipster, apontando padrões que já existem. E você só está cumprindo a sua ficando puto. Quem é o hipster agora?

Ah, sim. Continua sendo eu.

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Tradução: Marina Schnoor.

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