Foto: José Aldenir/|VICE

Um estado sob ataque: RN sofre mais de 100 atentados em uma semana

Natal foi a cidade mais atingida, mas outras 30 cidades do estado foram alvo de ataques atribuídos a facções criminosas.

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05 Agosto 2016, 7:00pm

Foto: José Aldenir/|VICE

Desde a última sexta-feira (29), 31 cidades do estado do Rio Grande do Norte foram alvo de ataques atribuídos a facções criminosas — principalmente uma organização local chamada Sindicato do Crime RN. Natal, a capital, foi a cidade mais atingida. Ao todo, foram notificadas até esta quarta-feira (3) um total de mais de 100 ocorrências. Destas, pelo menos 54 foram incêndios, 24 tentativas de incêndio, 29 veículos incendiados, além de disparos contra prédios públicos, depredações e uso de explosivos.

Tudo começou no dia 29 da semana passada, quando as secretarias de Justiça e Cidadania (Sejuc) e de Segurança e Defesa Social (Sesed) iniciaram a instalação de equipamentos bloqueadores de celulares no Presídio Estadual de Parnamirim, uma das 32 unidades prisionais do estado, que fica na região metropolitana de Natal.

Ônibus incendiado na Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana de Natal. Foto: José Aldenir/VICE.

Revoltados, detentos gravaram vídeos e áudios com ameaças, que foram amplamente divulgados nas redes sociais. Neles, os presos afirmavam que fariam uma grande rebelião nas prisões de todo o estado, e que acionariam a "força do Sindicato do Crime" na capital potiguar caso a instalação do equipamento fosse consolidada. Entretanto, mesmo não instalado definitivamente o bloqueador, a promessa dos ataques se concretizou. O que parecia boato se tornou realidade.

No mesmo dia, pelo menos 11 veículos foram incendiados e os ônibus foram recolhidos aos terminais. Com as paradas de transporte público lotadas e sem ônibus circulando, a Prefeitura liberou os demais veículos autorizados pelo Departamento Estadual de Trânsito a realizarem serviço de lotação. Os ataques, juntamente com novos vídeos ameaçadores, continuaram no sábado, inclusive viaturas e a Delegacia Geral de Polícia foram incendiadas.

Veículos incendiados. Foto: José Aldemir/VICE.

Em função dos atentados, no domingo (31), a cidade praticamente parou. Por decisão do Sindicato dos Rodoviários, nenhum ônibus circulou na cidade. O serviço de limpeza municipal também foi suspenso. Entre vários atentados, uma agência do Banco do Brasil foi metralhada e até mesmo um dos principais cartões postais da capital, o Morro do Careca, foi alvo de incêndio criminoso.

Nas primeiras horas da segunda-feira (1), o Corpo de Bombeiros de Natal foi a nova instituição pública a sofrer tentativa de incêndio. Em meio ao caos, é registrada a fuga de dez homens do Centro de Detenção Provisória do bairro da Ribeira, também em Natal. Escolas e universidades particulares e públicas suspendem suas aulas, transportes públicos circulam com frotas reduzidas, supermercados e estabelecimentos comerciais fecharam mais cedo.

Reforço das Forças Armadas e novas rebeliões

Chegada de tropas do Exército em Natal. Foto José Aldenir/VICE.

Em coletiva de imprensa, o governador Robinson Faria (PSD) confirmou a autorização do Governo Federal para o envio de tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica, que chegaram de Pernambuco e Paraíba na quarta-feira (3). Cerca de 1.200 militares estão compondo a chamada Operação Potiguar, que ocupa pontos estratégicos de Natal, até o dia 16 de agosto.

Princípio de motim no presídio de Parnamirim. Foto: José Aldenir/VICE.

Isso não impediu um novo motim dos detentos do presídio de Parnamirim, pela noite, queimando colchões e tentando destruir as torres onde os bloqueadores de sinal estão instalados. Após contenção do conflito, como forma de punição, o secretário estadual de Justiça e Cidadania, Wallber Virgolino, afirmou que os colchões não serão repostos e as visitas foram suspensas.

Até a última terça-feira (2), segundo a Secretaria Estadual de Segurança e Defesa Social (Sesed), 72 pessoas suspeitas de participação nos ataques haviam sido presas ou apreendidas. Entre elas, Daniel Silva de Carvalho, de 29 anos, tido como o segundo na linha hierárquica da organização criminosa Sindicato do Crime do RN no Estado.

As investigações apontam que ele dava suporte às ações da facção, intermediando o contato entre o possível líder, João Maria dos Santos Oliveira, conhecido como João "Mago", que foi preso pela polícia no domingo (31), e outros membros, autores dos atentados.

Outros presos que supostamente estariam ordenando os ataques de dentro dos presídios foram identificados e transferidos para a Penitenciária Federal de Mossoró, localizada a três horas de Natal.

De acordo com Wallber Virgolino, mais 20 detentos serão transferidos para presídios federais, para que as facções sejam desmontadas. "Todas as providências estão sendo tomadas e logo a paz será restabelecida no Rio Grande do Norte", garantiu ele.

ATUALIZAÇÃO: A Folha reporta que, após 72 horas de trégua, o Rio Grande do Norte voltou a ter veículos incendiados na madrugada deste domingo (7).