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Estilingues, Bombas e Máscaras no 7 de Setembro em São Paulo

Os integrantes dum black bloc expropriaram a passeata da direita e eu machuquei minha orelha

por Lucas Conejero
09 Setembro 2013, 9:00pm

Era para ser um lance meio Ursinhos Carinhosos, uma pegada “Marcha da Família com Deus pela Paz Contra a Corrupção”, mas o ato de Sete de Setembro em São Paulo terminou em um confronto histórico entre o mais que radicalizado (novo) movimento anticapitalista da cidade e o violento (e antigo) aparato de repressão da PM. Fato é que os black blocs paulistanos resolveram retaliar as recentes perseguições sofridas por seus camaradas de outros estados e não só cumpriram a promessa do “Badernaço”, convocado pelo Facebook há algumas semanas, como expropriaram a tal passeata — na mão grande — e barbarizaram geral.

A concentração do ato aconteceu no começo da tarde no vão livre do MASP e foi umas das coisas mais interessantes que eu já vi. Ao fundo do vão, encontrava-se o “movimento anarquista”. Aproximadamente 300 militantes, talvez um pouco mais, todos de preto, de capuz e bandana. Tinha até um carro de som tocando rap e um Cazuza de vez em quando. Os caras do RZO e outros rappers apareceram para prestar solidariedade. Fizeram uma intervenção. Foi maneiro.

Mais à frente do museu, no semáforo, o pessoal da Casa-Grande. Absolutamente todos brancos, uns 150 no máximo, e muito bem-vestidos, exibiam seus cartazes macartistas, suas bandeiras do Brasil e olhavam com desconfiança para aquele pequeno exército de moleques de capuz que os ignorava. Tudo transcorreu na mais santa paz. Nenhum deles seria louco de ir até lá caçar assunto ou falar groselha e, pelo visto, os neonazistas arregaram, nem apareceram.

Os Blocs paulistanos impressionam. Não só pelo sangue nos olhos, mas também pela idade. A grande maioria tem entre 15 e 20 anos. Ao reparar nas roupas, nos calçados, nas palavras de ordem e, sobretudo, nos debates durante as deliberações, deu para decifrar um pouco da estética e entendê-los melhor. Pelo jeito, é uma nova geração de militantes, de classe social variada, proveniente do movimento estudantil, forjada na jornada de lutas contra a tarifa. Nas fileiras, havia garotas universitárias brancas com a unha impecavelmente feita, pirralhos secundaristas maltrapilhos da quebrada, grupos de skatistas e de punks.

E foram essas fileiras que tomaram a frente do ato às 15h e passaram a marchar na direção ao Paraíso. Os coxinhas, com medo, vieram lá atrás, praticamente escoltados pela polícia. Como um exército que se preparava para a batalha, os moleques marcharam em silêncio. Pelo caminho, recolhiam tudo o que encontravam e julgavam útil para resistir. O clima era tenso, pesado, e a PM acompanhava de perto. No caminho, alguns bancos e muros foram pixados, fatos que aumentaram ainda mais a tensão, mas que não desencadearam a repressão.

No fim da avenida, o ato virou à esquerda e desceu pelo acesso à Avenida 23 de Maio. Os dois sentidos foram bloqueados por alguns minutos e a passeata seguiu rumo ao centro, sempre capitaneada pela linha de frente do black bloc e acompanhada — de longe — pela ROCAM. Os muros e monumentos da avenida passaram a ser pixados descaradamente, sem repressão. Em certo momento, um policial da ROCAM tentou, de cima de um muro, impedir as pixações. Tomou umas pedradas e desistiu.

O ato, então, subiu o viaduto Dona Paulina e chegou à Rua Maria Paula, onde fica localizada a Câmara dos Vereadores, que estava cercada pela Força Tática. Bastou uma única pedra ser atirada em direção à fachada do prédio e já veio a primeira bomba de efeito moral. Os Blocs recuaram pela mesma direção que vieram e passaram a resistir. Duas estruturas grandes e verdes de lixo reciclável foram rapidamente arrastadas e serviram de barricada. Uma chuva de pedra e alguns rojões atingiam os escudos e a Força Tática não conseguia avançar.

A ala coxinha do ato correu feito louca e foi se refugiar atrás de uma linha de PMs sem escudo, desses “comuns”. Na frente da Câmara, os moleques resistiam bravamente. Foram mais de cinco minutos de treta até chegar o reforço da Força Tática e o ato ser disperso para as ruas do centro.

 

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Nessa altura, eu já estava ferido na orelha por um chumbo de pesca atirado com um estilingue pela rapaziada. Pois é, eles inovaram e acabei atingido no que era uma “relativa zona de segurança” para registrar o confronto. Estava sem capacete sem nada. Vacilo, mas foi tranquilo, pegou de raspão e só fez um corte. Tive que me afastar e procurar uma farmácia. Com um curativo feito, voltei para a frente da Câmara depois de uns 15 minutos. Caos! Gente ferida e um cara caído, atingido no olho, provavelmente por um chumbinho. Polícia de todos os tipos, para todos os lados, incluindo os “caminhões brucutus do Choque”, e bombas — muitas bombas — explodindo nas ruas próximas, sobretudo nas imediações da Praça da Sé.

Nas contas da PM, divulgadas no site oficial da corporação, 40 pessoas foram conduzidas a distritos, cinco PMs ficaram feridos, cinco viaturas foram danificadas e houve vandalismo em ruas como a Haddock Lobo e Brigadeiro Luís Antônio. Ainda segundo o site da corporação, os crimes cometidos pelos detidos são diferentes e incluem porte de arma branca, estilingue e molotovs; depredação de patrimônio público e privado; agressão a policiais e desacato de autoridade. Seja como for, foi-se a época em que só existia repressão e praticamente nenhuma resistência.