coronavírus Um médico da clínica gratuita Haight Ashbury conversa com um homem nas ruas de São Francisco
Um médico da clínica gratuita Haight Ashbury conversa com um homem nas ruas de São Francisco. Foto por Josh Edelson / AFP via Getty.
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A quarentena de coronavírus é um desastre para os sem-teto

Enquanto espaços públicos como bibliotecas fecham, a vida está se tornando inacreditavelmente difícil para quem não tem casa.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
26 Março 2020, 2:54pm

Com todas as academias de Los Angeles fechando na segunda-feira por um decreto do governo municipal, Angelo Mike, um cineasta de 34 anos que atualmente mora em seu carro, não tinha mais onde tomar banho. Ele acordou de manhã no estacionamento de um shopping onde ele passa a noite para improvisar um banho com uma garrafa de água, sabonete e uma toalha, imaginando que era cedo suficiente para não atrair olhares dos pedestres. Mas ele não planejava que o pânico do coronavírus trouxesse uma multidão para a frente do shopping naquela manhã.

“Estou meio constrangido porque já tem um monte de gente aqui”, Mike disse em seu diário em vídeo no YouTube, antes de tirar o sabonete do corpo enquanto uma fila de clientes aparece ao fundo, esperando o Target abrir. “Se alguém na área de L.A. tiver um chuveiro que eu possa usar”, ele implora para a câmera, “me avise. Tomo banhos super-rápidos”.

Enquanto proibições para a contenção do coronavírus se expandem pelos EUA, aqueles com ou sem sintomas são aconselhados a se isolar em suas casas para desacelerar a propagação. Mas o grupo óbvio faltando nesse conselho são pessoas sem casas. Em vez disso, estamos vendo como décadas de cortes no orçamento federal para impedir o crescimento da população sem-teto criou um sistema à beira do colapso.

Lugares com que pessoas sem-teto geralmente contam estão fechados

Pessoas sem-teto ainda precisam das mesmas coisas que todo mundo. Precisam ir ao banheiro, trocar de roupa, se exercitar e tomar banho; muitas delas precisam se arrumar para o trabalho. Mas todas essas tarefas se tornam muito mais desafiadoras quando você não tem uma casa.

Academias públicas eram uma mão na roda para muitas pessoas sem-teto nos EUA por causa disso. Mas agora elas estão fechadas. Pessoas precisam de um lugar fechado para descansar, ou onde podem usar a internet para se comunicar com a família, fornecedores de serviços ou para trabalhar – Mike é um editor de vídeos – então elas vão para bibliotecas públicas. Mas agora elas estão fechadas.

Algumas pessoas conseguem suas refeições de pessoas indo ou voltando do trabalho nas ruas – agora, o tráfego de pessoas está consideravelmente menor, com muitos negócios mandando os empregados trabalharem de casa ou fechando completamente. Outras pessoas dependem de bancos de comida, e muitos deles estão com escassez de doações de alimentos porque os mercados estão esgotando seus estoques mais rápido que o normal. Outras ainda ganham dinheiro pra comida de empregos de meio período, trabalhos não-oficiais como vender jornais na rua ou recolher materiais recicláveis, mas essas fontes de renda estão morrendo: os jornais de rua da Bay Area estão entrando num hiato e centros de reciclagem também estão fechando.

“Tem muita gente que simplesmente não sabe o que fazer”, disse Amber Whitson, que mora numa RV em Berkeley, Califórnia. “Berkeley com certeza terá corpos em suas mãos se não fornecer um jeito das pessoas se sustentarem agora que elas não tem mais como ganhar dinheiro.”

Abrigos e outros serviços não vão conseguir atender a demanda

Em Nova York, o fechamento das escolas alterou o cotidiano de mais de 114 mil alunos com lares instáveis. A cidade prometeu que os estudantes podem conseguir refeições para retirada com seu acesso de escola, que podem ser pegas de segunda a sexta entre 7h30 e 13h30, mas não está claro quanto tempo o programa vai durar. E enquanto aulas para alunos que têm casas estão acontecendo online, essa não é uma opção para aqueles vivendo no sistema de abrigos de nova York.

“Aprendizado virtual é um desafio porque nenhum abrigo tem wi-fi, e a maioria das famílias não têm computador ou notebook próprios”, disse Christine Quinn, presidente e CEO do Win, o maior fornecedor de abrigos e alojamentos de apoio para famílias sem-teto da cidade. “Uma das razões que [o prefeito Bill de Blasio] deu para não fechar as escolas tão rápido quanto as outras cidades foi preocupações sobre como lidar com os desafios especiais de crianças sem-teto, que ele sempre disse ser sua prioridade. Francamente, ele deveria ter resolvido isso antes de fechar as escolas.” (Quinn, ex-porta-voz do Conselho Municipal de Nova York, concorreu com Blasio na eleição para prefeito em 2013.)

Muitos adultos sem-teto passam o dia em “centros de acolhimento”, que dão acesso a banhos, comida e profissionais de saúde. Às vezes eles são simplesmente lugares para fugir do frio ou calor, dependendo da estação. Mas enquanto preocupações com o vírus se espalham, esses serviços de auxílio estão fechando, colocando mais peso num sistema já sobrecarregado. “Um centro grande de acolhimento fechou completamente, e agora estamos vendo uma onda de clientes”, disse Alex Rogue, presidente do Ali Forney Center, um centro comunitário em Nova York focado em ajudar jovens LGBTQ sem-teto. “Pensar num jeito de gerenciar os funcionários é uma grande preocupação. O que vai acontecer se eles pedirem quarentena de toda a equipe?”

O Providence Community Care Center em Olympia, Washington, tem uma sala diurna e espaço aberto para oferecer acesso a uma clínica de exames, estações para lavar as mãos, chuveiros e lavanderia, um telefone e endereço onde as pessoas podem receber correspondências, e armários, então pessoas que têm consultas ou entrevistas em outro lugar não precisam levar todas as suas propriedades com elas. Na média, o local atende algumas centenas de pessoas por dia. Mas na quinta-feira passada, o Providence mandou um e-mail anunciando o fechamento desses espaços depois de um caso confirmado de COVID-19 “em nossa comunidade”. Eles não sabem quando poderão reabrir.

“Parece que nosso sistema de saúde está abandonando essas pessoas”, disse Phil Owen, o diretor executivo do SideWalk, um parceiro sem fins lucrativos do Providence. “Se o coronavírus se espalhar do jeito que é previsto – e as pessoas que servimos tipicamente já têm problemas crônicos de saúde, porque dormem nas ruas no frio e não têm acesso a higiene apropriada – o vírus vai matar muita gente.”

Abrigos também podem ser lugares onde o vírus se espalha

Nos EUA, pessoas sem-teto muitas vezes são aconselhadas a entrar no sistema de abrigos – se é que há espaço neles. Mas já há relatos de que alguns abrigos estão fechando por preocupações com contaminação, ou porque muitos voluntários estão se autoisolando. Em San Diego, abrigos estão congelando novas entradas. Los Angeles, enquanto isso, finalmente está levando a crise a sério e se apressando para disponibilizar 6 mil novas camas em abrigos, antes que o contágio se espalhe como fogo florestal pela comunidade. O governador da Califórnia Gavin Newsom disse que modelos do governo estimam que 60 mil sem-tetos no estado vão pegar coronavírus, com 20% deles necessitando de internação, enquanto um novo relatório da National Alliance to End Homelessness disse que pessoas sem-teto têm “duas vezes mais chance de ser hospitalizadas, de duas a quatro vezes mais chance de precisa de tratamento intensivo, e duas a três vezes mais chance de morrer que a população em geral”. Números assim podem sobrecarregar o sistema de saúde.

Abrigos considerando se devem continuar abertos não têm boas opções. Essas instalações são projetadas como quartéis, com camas umas ao lado das outras e pouco espaço privado, dois grandes problemas quando se trata de tentar conter uma pandemia. Na sexta-feira, foi anunciado que seis novos casos de coronavírus foram confirmados no sistema de abrigos de Nova York. (O CDC, como diretriz para os abrigos, pediu que eles colocassem camas ou tapetes para dormir a pelo menos 1 metro de distância uns dos outros, e isolar pessoas exibindo sintomas em quartos separados, quando possível.)

“O modelo de abrigos que escolhemos vai criar mais problemas, o que é triste, porque vai custar vidas”, disse David Gillarders, diretor executivo do Pathways of Hope, um serviço para sem-tetos em Orange County, Califórnia. “As pessoas têm razão de estar com medo agora.”

Sem usar abrigos – porque eles vão fechar ou porque são vistos como lugares que podem ser contaminados, e portanto as pessoas não vão querer usá-los – o que resta, como de costume, são as ruas. E, pelo menos por enquanto, a polícia nas principais áreas urbanas ainda está patrulhando e mandando as pessoas circularem.

“Pessoas brancas estão se isolando em seus apartamentos e casas”, disse Kelly Cutler, coordenadora de direitos humanos da Coalition on Homelessness de São Francisco, no Twitter, “desabrigados ainda não podem sentar numa calçada sem a polícia vir e mandá-los embora”.

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Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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