Saúde

Como é ter e se recuperar do coronavírus

Park Hyun, um paciente em recuperação do coronavírus, disse que estava “estupidamente superconfiante” de que não pegaria o vírus.
19 Março 2020, 10:00am
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Fotos cortesia de Park Hyun.

O novo coronavírus continua se espalhando pelo globo, com 127.863 casos e 4.718 mortes no momento. A Organização Mundial de Saúde também declarou oficialmente o vírus uma pandemia.

Um dos países mais afetados é a Coreia do Sul, que tem o maior número de infecções fora da China. Muitos ainda estão preocupados com o surto, mesmo com o governo sul-coreano tendo conseguido manter a taxa de mortalidade no mínimo. Em 9 de março, dados mostraram que a maioria dos casos confirmados no mundo se recuperam.

Para esclarecer a questão, um paciente de coronavírus recuperado, Park Hyun, 48 anos, compartilhou como é ter a doença. Ele contou sua experiência numa série de posts no Facebook, pedindo que as pessoas sejam mais vigilantes.

“Pode ser meu último post por um tempo, já que ainda preciso me focar na recuperação dos danos do coronavírus no meu corpo e efeitos colaterais da medicação”, ele começou em sua postagem mais recente.

Park alertou que contraiu o vírus mesmo tendo um estilo de vida saudável. Ele se exercitava numa academia cinco vezes por semana, lavava as mãos com frequência e até usava desinfetante de mãos “demais”. Ele também morava numa zona livre de coronavírus. Por causa disso, ele não estava tomando muitas precauções, e se chamou de “estupidamente superconfiante”.

Os sintomas

Tudo começou com uma dor de garganta leve e tosse seca em 21 de fevereiro, uma sexta-feira. “[Isso] era comum quando eu estava cansado no tempo seco”, disse Park.

Ele achou que só precisava beber água. Acontece que no mesmo dia, o primeiro paciente de coronavírus foi confirmado em Busan. Logo ele começou a sentir uma pressão no peito, que continuou por dias. Três dias depois dos sintomas iniciais, ele não conseguia mais respirar direito.

A linha de emergência do coronavírus para onde ele ligou estava ocupada, então ele se voltou para uma clínica do governo. Lá disseram que a probabilidade dele ter o vírus era baixa, então ele só fez o exame depois de uma terceira ligação.

O exame

Várias pessoas estavam fazendo o exame quando ele foi para o hospital. “Já tinha uma fila longa bem cedo no dia”, disse Park.

Lá disseram que a espera era de quatro horas, mas depois de 30 minutos na fila, ele teve falta de ar e acabou desmaiando, batendo a cabeça no chão. Ele recebeu tratamento para o machucado e o exame para coronavírus.

Esperando o resultado, Park se colocou de quarentena em seu quarto, informando todo mundo com quem teve contato próximo na semana anterior de que ele podia estar infectado.

O diagnóstico

Na terça-feira, 25 de fevereiro, Park recebeu uma mensagem dizendo que o exame tinha dado negativo. Mas, quando ele achou que estava salvo, a clínica ligou pra ele dizendo que mandaram a mensagem errada. Ele estava mesmo infectado com o coronavírus. A clínica disse que ele precisava esperar 24 horas antes de ser transferido para um hospital por falta de leitos na área de quarentena.

Mais tarde naquele dia, um representante da prefeitura ligou perguntando os lugares que ele tinha visitado recentemente e os indivíduos com quem ele teve contato. Percebendo que Park estava em péssima condição, o representante ligou para a clínica para fazer a transferência dele para o hospital ser prioridade.

Perto da meia-noite naquele dia, Park foi internado numa sala de pressão negativa na ala em quarentena da UTI de um hospital. Lá, ele fez mais exames e recebeu medicamentos e suprimento de oxigênio.

Como ele se sentiu

“Era um pouco mais fácil respirar, mas era como ter uma placa pesada de metal em cima do meu peito”, lembrou Park. “Meu peito e estômago ficaram ardendo depois de tomar o remédio.”

Sua condição flutuou, mas seus sinais vitais começaram a melhorar. Os efeitos colaterais dos remédios o deixaram realmente mal nos dois primeiros dias, mas eventualmente o corpo dele se adaptou. Park disse que não tinha escolha a não ser tomar o que davam a ele apesar dos efeitos colaterais, já que ainda não há uma cura específica para coronavírus. Ele também se sentiu mentalmente instável enquanto estava isolado na UTI.

A recuperação

Em seu oitavo dia no hospital, o exame de Park deu negativo para coronavírus. Foi também o momento em que os médicos pararam de dar o remédio a ele. O exame no dia seguinte também deu negativo, um indicador de que ele tinha se recuperado totalmente.

Ele teve alta do hospital no nono dia, mas os médicos o aconselharam a ficar em quarentena em casa por mais 14 dias, porque alguns pacientes liberados acabam com o exame dando positivo novamente.

Park está bem melhor agora, mas disse a VICE que ainda está se focando na recuperação. Enquanto alguns acusaram ele e sua família de colocar a comunidade em perigo, Park descobriu que tempos de crise podem mostrar o melhor das pessoas.

“Quando [os vizinhos da minha mãe] ficaram sabendo que eu estava em quarentena num quarto depois de ter alta do hospital, eles penduraram um saco com comida na maçaneta da porta. Fiquei muito grato por isso”, ele disse.

Ele aconselha as pessoas a não cansar demais o corpo e evitar aglomerações. Para quem já contraiu o vírus, ele disse:

“Pense positivo. Coma bem, beba água e durma bem. Não leia matérias confusas na imprensa por um tempo. Confie na equipe médica. Não se preocupe tanto com os amigos e a família ao seu redor. Eles são fortes.”

“Você pode se recuperar como eu. Juntos somos mais fortes”, ele acrescentou.

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Matéria originalmente publicada na VICE Ásia.

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