Sexo

Homens tentaram me enganar num aplicativo de ménage com namoradas falsas

Comecei a suspeitar de casais falsos quando vários matches disseram que suas namoradas misteriosas estavam viajando ou muito ocupadas.
ilustrado por Robyn Collinson
Traduzido por Marina Schnoor
14 Janeiro 2020, 10:00am
Woman looking at dating app profile of a couple with a blurred-out female partner

Em se tratando da internet, você nem sempre pode esperar que as pessoas sejam completamente honestas. Seja escolhendo uma selfie pouco realista ou fazendo seu trabalho parecer mais interessante do que é, muita gente distorce a verdade para conseguir um date - imagina um ménage.

Mas parece que alguns homens solteiros estão abusando da sorte de um jeito diferente – posando com uma namorada inexistente em aplicativos de encontro como o Feeld (que vem sendo chamado de “o Tinder do ménage”) para conhecer mulheres.

O Feeld é usado por pessoas em relacionamentos abertos, swingers e pessoas procurando por sexo grupal casual ou relacionamentos poliamorosos. O aplicativo tem 200 mil usuários ativos semanais – e como o Tinder, os usuários dão like nas fotos e depois conversam por DM. Diferentes de outros sites de encontro (como o AdultFriendFinder), o Feeld foca especificamente em casais e pessoas buscando conhecer casais. Casais podem se inscrever no app em contas que são emparelhadas – mas parece que nem todos esses casais são legítimos.

Comecei a suspeitar de casais falsos checando o Feeld com meu parceiro. Vários homens com quem dei match – todos emparelhados com contas de namoradas e com fotos com a suposta namorada – começavam a dar desculpas assim que pedíamos para nos encontrar.

“Minha parceira está viajando”, disse um usuário, apesar de ter dito antes que ela estava na sala com ele durante nossa conversa online. “Na verdade, sou eu que administro as contas”, disse outro. “Ela acabou de decidir voltar pra casa mais cedo.” E alguma coisa nas respostas deles não parecia verdade.

Aí, uma noite, uma mulher que estava conversando com meu parceiro perguntou se ele podia “confirmar” minha presença. Mandamos uma selfie juntos, acenando. “OK, legal”, a mulher disse por DM, depois se desculpou: “É só que já falei com vários caras solteiros dizendo que eram um casal”.

Num evento social mensal do Feeld, onde os usuários podem se encontrar cara a cara num lugar casual em Londres, comecei a conversar com David, um bissexual não-binário que usa os pronomes ele/dele. David está no aplicativo esperando encontrar o amor num relacionamento poliamoroso. Quando contei para o David sobre homens com namoradas falsas, ele pareceu chocado. “Não encontrei nada assim ainda”, ele disse. “Estou achando a comunidade muito genuína.” Parece mesmo que são homens solteiros heterossexuais que estão fazendo catfishing com mulheres. O problema é bem menor para usuários gays e não-binários.

Em contraste, Anna, uma solteira heterossexual, concordou quando comecei a falar sobre casais falsos. “Ah, sim, acontece o tempo todo”, ela disse. “Como mulheres, temos que lidar constantemente com conversa fiada. Tive um date uma vez com um casal onde o cara apareceu sozinho e disse que a parceira teve que trabalhar até mais tarde 'inesperadamente'. Ela nunca apareceu. Pensando agora, certeza que ela nem existia.”

As regras de comunidade do Feeld dizem: “Somos uma comunidade real de pessoas reais procurando experiências reais. Perfis falsos, catfishing e outras formas de personas e identidades falsas não serão tolerados.” Entrei em contato com o Feeld para saber o que eles estão fazendo sobre o problema.

“Notamos comportamento desonesto no passado”, escreveu a chefe de produtos do Feeld Ana Kirova numa declaração por e-mail, “e como focamos em casais especificamente, desde 2018 introduzimos uma mudança para abordar isso – para ser um casal no aplicativo, um das pessoas precisa convidar o parceiro para se 'emparelhar' com ela, ou seja, cada parceiro tem que se inscrever e ser emparelhado para que o perfil seja oficialmente listado como casal no Feeld”.

Isso pode dificultar para homens solteiros se fingirem de casal no aplicativo, mas esse inconveniente extra não parece estar impedindo o catfishing. Outra usuária do Feeld, Lizzy, usa o aplicativo há mais de 3 anos, quando ele ainda se chamava 3nder. Ela diz que o catfishing só piorou: “É ladeira abaixo. O app costumava ser cheio de pessoas divertidas, safadas e inteligentes que não estavam de brincadeira.”

Ela já teve que lidar com vários mentirosos nesses anos. “Já vi gente fabricar cenários inteiros, aí ficar de silencioso a agressivo quando eu pedia uma chamada por vídeo ou um encontro.” Lizzy explicou: “Um cara não fazia um chat em grupo porque 'tinha mais casais interessados em se juntar', e ficava mudando o lugar de encontro para locais cada vez mais improváveis (o Hilton em Park Lane!). Ele basicamente estava organizando uma orgia imaginária”.

Como mulheres procurando especificamente conhecer casais, Anna e Lizzy não estão interessadas em sair com homens solteiros (é pra isso que servem o Match.com e o Tinder). Então qual o objetivo do catfishing? “Acho que eles se excitam com isso. E mentem para colecionar fotos”, diz Lizzy, se referindo a nudes que são compartilhados entre usuários antes dos encontros. Ainda assim, parecia estranho que alguém pudesse querer mentir numa comunidade tão aberta e honesta sobre sexo. Por que mentir para tentar transar quando você pode pedir o que quer?

Dominique Karetsos é uma especialista em relacionamentos sexuais e cofundadora do Intimology Institute, uma organização dedicada a fornecer educação sexual livre de julgamentos. Perguntei a Karetsos o que ela achava que estava acontecendo aqui. “Explorar experiências não-monogâmicas, swing ou ménage como estilo de vida é atraente em muitos níveis”, ela explicou por e-mail. “Mas não temos permissão social para navegar isso sem culpa ou julgamento. Então, o que pode parecer falsidade também pode ser medo, ignorância, curiosidade cega ou apenas má educação sexual.”

A maioria das mulheres com quem falei acreditava que esse comportamento é inerentemente malicioso. Mentir para levar alguém pra cama é uma coisa muito escrota, e esses caras parecem fazer isso de um jeito muito elaborado e premeditado. Mas Karetsos me apresentou a David e Carol, que são swingers há mais de doze anos e porta-vozes públicos do estilo de vida. A conta deles no Instagram tem 196 mil seguidores e o podcast semanal deles, The Sexy Lifestyle, tem mais de 700 mil ouvintes.

“Mentirosos sempre existiram”, Carol me disse por Skype de sua casa em Montreal. “Você tem que estar sempre atenta.” Mas eles não concordam que o comportamento esteja vindo de um lugar prejudicial. “Eles não entendem; eles não sacam esse estilo de vida de mente aberta. Eles só querem transar com alguém. E talvez sejam inseguros e não saibam como falar com as pessoas.”

Mas não estamos falando sobre adolescentes tímidos aqui – são homens adultos. O Feeld explicou por e-mail que eles “cultivam e sustentam o Feeld como uma plataforma e comunidade de humanos reais, e tomam ações imediatas para remover perfis falsos ou enganosos”. Qualquer perfil que seja denunciado mais de cinco vezes é imediatamente removido. Quando perguntei quantas reclamações eles recebem por semana, ou quantas contas são removidas, me disseram que o Feeld “não pode divulgar os números exatos”.

A demografia do Feeld é principalmente de pessoas na faixa dos 20 e 30 anos, e você tem que ser maior de 18 para se inscrever. Esses homens não deveria saber no que estão se metendo? Gigi Engle acha que sim. Gigi é uma coach de sexo certificada, sexóloga e autora de All the Fucking Mistakes: A Guide to Sex, Love, and Life. “Vou ter que discordar da Carol e do David aqui”, ela respondeu imediatamente num e-mail. “Há uma distinção clara entre esconder informação porque você está nervoso em revelar ou não ter habilidades de comunicação, e mentir ou enganar deliberadamente alguém. Acho que é um favor pra todo mundo combater esse comportamento.”

Decidi dar uma chance para os catfishes se explicarem. Entrei em contato com algumas contas que achei suspeitas. “Oi, tudo bem?”, escrevi numa mensagem, “Então, estou escrevendo uma matéria para a VICE e estou entrando em contato com antigos matches no Feeld. A matéria é sobre casais falsos. Avise se você quiser conversar”.

Duas contas me ignoraram e quatro deram unmatch imediatamente, bloqueando qualquer contato no futuro. Apenas uma respondeu – um usuário que confirmou que era parte de um casal. Ele me mandou um selfie fofinha com a namorada, os dois fazendo o símbolo da paz e sorrindo. Me desculpei pelas suspeitas, mas eles não ficaram ofendidos. “Eu entendo”, ele respondeu por DM. “Entendo que alguns casais devem ter ficado putos. Mas entendo onde você quer chegar.”

Aplicativos como o Feeld estão abrindo um mundo de positividade sexual e conectando pessoas que pensam igual para conversar e transar abertamente. A comunidade, online e offline, se orgulha de colocar a honestidade em primeiro lugar. Consentimento, comunicação e mente aberta andam juntos com bom sexo. Os caras fazendo catfishing não parecem ter entendido isso. Mas se tem um lugar onde eles podem ser desmascarados é em plataformas como essa – então há esperança de que eles sejam uma raça em extinção.

@mossabigail

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