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Por que o Talibã quer investir no ambientalismo?

Conversamos com porta-vozes do movimento nacionalista islâmico sobre o repentino interesse na luta contra as mudanças climáticas.

por Austin Bodetti
20 Abril 2017, 6:05pm

No dia 26 de fevereiro, Mullah Hibatullah Akhundzada, líder do Talibã, usou as redes sociais para fazer um apelo à população afegã: "plantem árvores frutíferas e não-frutíferas para embelezar a Terra e enriquecer as criações do todo-poderoso Alá". 

O comunicado foi recebido com estranheza não apenas pelo teor de sua mensagem, mas também porque, embora o Talibã costume emitir declarações do tipo, Akhundzada raramente as assina. Por isso, resolvi entrar em contato com Muhammad Yousuf Ahmadi e Zabihullah Mujahid, porta-vozes do Emirado Islâmico do Afeganistão, o governo auto-proclamado pelo Talibã, para saber mais sobre a consciência ecológica dos insurgentes.

"A invasão americana destruiu muitas partes do Afeganistão, incluindo o meio-ambiente, de forma agressiva e quase permanente", disse Mujahid por WhatsApp. "O Emirado Islâmico do Afeganistão tem um plano perfeito: promover a proteção ambiental por meio do plantio de árvores. Cada cidadão do país deve plantar no mínimo uma árvore por ano. Além disso, nós apoiamos todas ações voltadas para a preservação do meio-ambiente, incluindo os esforços do Estado para investir nesse setor. Aliás, apoiamos qualquer atitude tomada para este fim."

Numa conversa pelo Viber, Ahmedi acrescentou que "o plantio de árvores traz muitos benefícios, que por sua vez causam um bom impacto no meio ambiente".

O Talibã não foi a primeira organização terrorista a defender a bandeira do ambientalismo. Osama Bin Laden, antigo aliado dos insurgentes, também demonstrou seu apoio aos ambientalistas ao criticar a forma como o mundo ocidental negava os efeitos da mudanças climáticas.

Mensagens trocadas no Telegram do Talibã.


No entanto, as ações do Talibã contradizem seu discurso: os insurgentes já se envolveram com o desmatamento e mineração ilegais e com o comércio ilegal de drogas, peça-chave da economia de guerra do Talibã. Tendo isso em mente, podemos afirmar que, no curto prazo, os insurgentes não fizeram nada além de financiar as mudanças climáticas. O desmatamento, por exemplo, acelera o aquecimento global, ao passo que a mineração é uma das maiores causas da degradação ambiental. O cultivo de ópio, monopolizado em grande parte pelo Talibã, acarreta na erosão do solo e na destruição de habitats, enquanto seu processamento muitas vezes envolve materiais tóxicos. 

O Capitão Bill Salvin, porta-voz da Resolute Support, coligação liderada pelos EUA que apoia o atual governo afegão, observou que os insurgentes nunca seguiram o que hoje pregam.
"O maior impacto ambiental causado pelo Talibã no Afeganistão foram as centenas de milhares de bombas caseiras plantadas por todo o país", conta Salvin. "Esses explosivos matam e mutilam centenas de crianças, mulheres e civis todo ano". A Resolute Support, no entanto, também prejudicou o meio ambiente afegão ao aumentar a degradação do solo e a escassez de água.

É provável que o Talibã esteja apenas investindo em um possível retorno ao poder — como todos sabem, plantar árvores é uma ótima propaganda. No momento, todavia, suas políticas ambientais não passam de fantasias. "O Emirado Islâmico não se opõe à industrialização, pois somos um país atrasado e a industrialização pode desempenhar um papel essencial no crescimento da nossa economia", afirmou Mujahid.

"Se tivéssemos a oportunidade, teríamos muito sucesso nesse setor."

Tradução: Ananda Pieratti

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