Vacina brasileira contra o zika começa a sair do papel

Imunizante desenvolvido em parceria Pará-Texas demonstra efeitos animadores em camundongos.

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10 Abril 2017, 4:06pm

Flickr/ andresrueda

Se certas zicas não vão embora da vida dos brasileiros, pelo menos o zika vírus está mais perto de ser controlado. Pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, no Pará, e da University of Texas Medical Branch (UTMB), nos EUA, revelaram há pouco que imunizaram totalmente ratos contra o vírus usando uma vacina feita do próprio microrganismo atenuado. O resultado foi publicado na última edição da Nature Medicine, uma das principais publicações científicas do mundo.

A novidade do estudo é a composição da droga. "Existem vacinas em desenvolvimento com o vírus inativo ou com fragmentos dele, mas essa é a primeira que o utiliza vivo a ser testada em animais", explicou por telefone o virologista Pedro Vasconcelos, diretor da instituição paraense e líder do trabalho, ao Motherboard.

Como o objetivo de vacinar é ensinar o corpo a se defender sozinho do vírus, receber uma injeção com ele praticamente inteiro é uma abordagem mais eficaz. "Diferentemente das outras, a versão atenuada é capaz de se multiplicar dentro do organismo, ainda que em doses baixas e por um curto período de tempo, o que provoca uma resposta rápida e robusta do sistema imune", afirma Pei-Yong Shi, virologista da universidade texana que assina o trabalho com Vasconcelos.

Essa espécie de simulação deixa os anticorpos preparados para possíveis ataques reais do vírus com apenas uma injeção. Foram três baterias de testes até comprovar o efeito nos camundongos. "Vacinamos animais com deficiências imunológicas e que por isso,morreriam ao ser contaminados com o zika. Trinta dias depois, injetamos neles uma dose letal do vírus e nenhum morreu ou ficou doente", explica Vasconcelos.

Com os ratos sãos e salvos, a próxima etapa do trabalho investigou se a vacina poderia causar danos ao sistema nervoso da mesma maneira que o vírus original, intimamente ligado à microcefalia e à síndrome de Guillain-Barré, que causa formigamento, fraqueza muscular e até paralisia. De novo o resultado foi positivo: todos os roedores recém-nascidos vacinados sobreviveram.

"Toda doença epidêmica é cíclica. Acreditamos que em cinco ou sete anos ocorra novo surto, especialmente porque não há condições de eliminar o aedes aegypti tão cedo"

Por último, era necessário saber como o zika atenuado se comportaria quando em contato com seu hospedeiro, o famoso aedes aegypti. Os resultados animaram os pesquisadores: o mosquito não foi contaminado nem mesmo quando a vacina foi inoculada diretamente nele.

Para chegar a essa versão "do bem", os pesquisadores fizeram uma espécie de castração no zika. "A partir de uma análise extensa do DNA do vírus, conseguimos cortar somente o pedaço do genoma responsável pela replicação dele", comenta Vasconcelos. O mecanismo é semelhante ao da vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan, que já está na fase final dos testes com humanos.

Desde janeiro, a promessa contra o zika é testada com macacos por três instituições: o campus do Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua, no Pará; o Instituto Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e o National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos. Em janeiro também o projeto recebeu um aporte de R$ 10 milhões do Ministério da Saúde.

"Ainda é preciso finalizar a pesquisa, mas os resultados preliminares dos três lugares são idênticos entre si e muito semelhantes aos encontrados nos ratos: de que uma dose garante proteção vitalícia contra o zika", adianta Vasconcelos. Depois dessa fase, os humanos são os próximos a serem testados. "Esperamos que isso ocorra até o fim do ano", completa.

À procura da vacina perfeita

A Universidade de São Paulo publicou na Nature no ano passado um estudo, liderado pelo virologista Paolo Zanotto, com uma vacina que também foi capaz de imunizar camundongos. A versão paulistana é feita a partir de um pedaço do DNA do vírus original.

Já a Fundação Oswaldo Cruz, além de participar das pesquisas mezzo paraenses mezzo texanas, anunciou em novembro passado que produzirá seu próprio candidato à imunizante.

Enquanto os estudos caminham, o zika some aos poucos das páginas dos noticiários e da boca do povo. O que é compreensível, já que, em comparação com o mesmo período do ano passado, houve uma redução de 97% nos casos da doença segundo o Ministério da Saúde.

Mas, se os casos de zika caíram tão drasticamente, porque vacinar? "Toda doença epidêmica é cíclica, então acreditamos que em cinco ou sete anos ocorra um novo surto, especialmente porque não temos condições de eliminar o aedes aegypti tão cedo", aponta Vasconcelos.

A expectativa, então, é que, na próxima onda, estejamos mais protegidos contra o zika, especialmente da sua consequência mais nefasta: a microcefalia e as malformações em fetos.