Music by VICE

Jimmy The Dancer Dança Mais do que Você

Conheça a história do mito da noite dub-reggae paulistana que já se meteu com a polícia, foi auxiliar de limpeza em balada e se tornou figura central na criação da cultura soundsystem em São Paulo.

por João Paulo Vicente
05 Outubro 2015, 1:00pm

Anna Mascarenhas

Vestido na estica com motivos étnicos, chapelão na cabeça, cajado mágico nas mãos, os melhores passos na pista são sempre do Jimmy The Dancer. O homem, figurinha fácil na night dub-reggae de São Paulo, costuma virar a estrela nas festas onde cola: nos rolês do Dubversão Sistema de Som, nos shows do Bixiga 70, nas noites suarentas de dancehall da Fresh! ou em meio ao astral da Java. Uma coisa é certa, onde Jimmy está, o som é bom, não faltam danças e é certeza que o rolê é de primeira.

"Eu sou marketing do Dubversão, tá ligado?", explica Jimmy, que acompanha o grupo desde 2002. Nesses treze anos, viveu a explosão e consolidação da cultura dos soundsystem em São Paulo, enquanto criava a própria história e lutava contra seus demônios. Fequentador do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Itapeva desde 2010, Jimmy é um dos 23 milhões de brasileiros com doenças psíquicas, segundo dados do Ministério da Saúde de 2013. Já tomou Diazepan e Gardenal, mas parou com os medicamentos e diz que hoje se sente muito melhor — "prefiro ser o que sou mesmo, diferente".

Todas as fotos por Anna Mascarenhas

Jimmy (às vezes ele escreve Jhymi) The Dancer, Jimmy San, Macoman. São todos personagens criados na rua por ele, que não fala o nome de batismo. Em suas falas e anotações — que mantém em um portfólio à tiracolo — é inconstante com datas e fatos. Então foi mais ou menos assim que tudo aconteceu.

Nascido entre o final da década de 70 e o começo da de 80, Jimmy comemorou aniversário no final de agosto numa noite da Fresh! — outra das festas em que trabalha –, no Morfeus Club, no Centro de São Paulo. Na beira do palco, todo mundo ia até o chão com um reggaeton pesadão e ele convencia, sem dificuldades, duas meninas reticentes a fazer o mesmo. Era impossível trocar uma ideia no meio da bagunça. "Depois, depois", dizia. E voltava a dançar.

Leia: "Fresh! É a Noite Dancehall Mais Bacana de São Paulo"

Passada uma semana da festa, Jimmy contava que a cena era comum. "Pode ver que fica uma pá de homem tentando dançar com as mina, e não consegue. Eu consigo. Mas não é dançar comigo, mano, é dançar! Eu danço com alguém, sozinho ou com meu cajado, tanto faz."

O papo era na sala da casa do Yellow P, a mente por trás do Dubversão Sistema de Som. Fábio Murakami nos documentos, ele foi pioneiro na organização de festas, inclusive a que rola na rua, de graça, e da própria infraestrutura das gigantescas caixas de sons ideais para a variante mais grave do som jamaicano.

Além de agitar o rolê, Yellow P também é o principal DJ do sistema de som, já fez dubs de músicas da Céu e do Curumim, entre outros nomes mais conhecidos dessa nova produção de música brasileira, e produziu alguns discos pelo Dubversão. Com um setup de apresentação que o coloca de costas para o público (hábito comum nos soundsystems, permite à geral acompanhar enquanto as frequências da música são bagunçadas no mixer), Fábio deixa nas mãos de Jimmy o papel de agitar a galera: "É o que ele gosta de fazer desde criança."

Os parceiros Jimmy e Yellow P.

Menino da rua Albion, na Lapa, Zona Oeste, Jimmy relaciona a infância e adolescência a cidade de Franco da Rocha, no interior de São Paulo. Lá, morou com dois irmãos e a mãe na casa de um tio. Com o mesmo tio, trabalhou de pedreiro. Mas o lance de Jimmy era (e sempre foi) dançar. Conheceu a música eletrônica nas rádios 97 FM e 105 FM e, ainda de menor, pulava o muro e fugia nos finais de semana para festas no centrão da cidade. E escola? "Escola nem pensar!", diz.

"O Jimmy era cyber mano", brinca Yellow P, chamado por Jimmy de Binho. No rolê da noite e já fora de casa, Jimmy começou a panfletar para vários dos clubes que frequentava e acabou trabalhando como auxiliar de limpeza n'Alôca e, depois, na Suzy in Trance. E foi no último clube que trombou com a galera do dub e reggae.

Leia: "Os 20 Anos da Alôca: De Reduto Techno à Pista da Diversidade"

No finalzinho de 2001, o Dubversão começou a organizar a Suzy in Dub no Suzy in Trance, a primeira festa semanal do Sistema de Som. "Nessa época, a gente conhecia o Jimmy como Sorriso e ele sempre desencanava da limpeza para ficar dançando na pista", conta Felipe Pregnolatto, o Fepa, um dos produtores e DJs da Fresh!.

"Ele já dançava para caralho mesmo, dominava a pista", diz Yellow P. Não demorou, Jimmy largou a Suzy para trabalhar junto com o Dubversão. Além de dançar, ele ajuda na montagem do Soundsystem, garante que dê tudo certo no baile e roda a cidade na divulgação, atividades que descreve com orgulho.

A seriedade com que toca o trampo no Dubversão reflete a mudança que a ocupação causou na vida de Jimmy. "Eu vendia droga, catava uma pá de mulher, mentia para a família. Não era legal. Hoje, entro na casa dos meus tios de cabeça erguida", conta. "O Jimmy só foi ter telefone há um ano e meio, mas nesses mais de dez anos, sempre que eu precisei dele, ele apareceu. Nunca faltou um compromisso", afirma Yellow P.

Eu vendia droga, catava uma pá de mulher, mentia para a família. Não era legal. Hoje, entro na casa dos meus tios de cabeça erguida.

"Mas teve aquele vez que eu sumi, lembra Binho?". Isso aconteceu, conta Jimmy, em 2003. Para ganhar um extra, ele fazia um bico vendendo bermudas de surf na feira do rolo no bairro do Brás. Um dia a polícia baixou e o levaram ao 3º DP, onde entre 10 e 12 policiais o surraram. "Levei um coro mesmo. Até rasgaram meus documentos na minha cara", diz. O resultado foi uma perna fudida, hérnia no pulmão, costas estouradas e uma sensação de indigência.

Gato escaldado, decidiu pular fora e dar um tempo. Na época, por meio de um grupo de conhecidos, Jimmy viajou até a Guiana Francesa via porto de Santos para estudar o Kebra Negast, livro sagrado do Rastafari. "Sou cabeça sem medo mano, não é ter dread", fala. Oito meses depois, estava de volta à São Paulo e ao Dubversão.

Leia: "A História Oral do Dubstep na Inglaterra"

Na versão escrita do seu portfólio, a história é um pouco diferente. Era 1998 e Jimmy The Dancer acabara de chegar da África ao Brasil quando apanhou. As anotações, ele diz, na verdade trazem a história do seu personagem, e não a sua. "Mas eu sou meu personagem, tá entendendo? E meu personagem é africano."

E são de motivos africanos as estampas das roupas com que desfila pela cidade. Bem relacionado com os imigrantes do Centro de São Paulo, ele conta que ganha de senegalenses, moçambicanos, angolanos, entre outros, as batas e calças coloridonas, sua marca registrada. Para completar o visú, Jimmy sempre usa um chapéu diferente e, claro, tem na mão seu cajadão.

À distância, a peça parece um toco de bambu normal. Na real, o cabo de madeira esconde uma estrutura de metal por dentro, que garante um apoio firme semelhante ao de uma bengala — necessidade herdada depois do episódio com a polícia paulista. Presente de um japonês (Qual japonês? "Ah, um japonês da Liberdade"), o cajado tem um poder extra: dobra de função como um pipe gigante.

O cajado e a maconha, aliás, renderam mais dois encontros desagradáveis com a polícia. Em 2008, enquanto colava cartazes, implicaram com ele e quiseram arrancar o bambuzão de Jimmy. "Saí na mão e rasguei a roupa deles. Mas não tiraram meu cajado não", diz. Já em uma tarde de 2010, fumava um com uma galera, quando alguns policias prenderam todos. No DNARC, foi fotografado pela Folha de São Paulo, que o tachou como traficante — o que o deixou meio desconfiado da imprensa.

"Me soltaram no mesmo dia e ia ter Java (festa atual do Dubversão), então ainda fui andando até lá. Mas tava muito puto. Falaram que eu era traficante. Eu não sou traficante, eu sou promotor de eventos", conta. Desde então, ele explica, passa longe de qualquer situação que envolva polícia. "Esse tipo de muvuca eu não gosto. Meu personagem não gosta."

Funcionário do ano

Morando num hotelzinho no Centro de São Paulo, Jimmy divide os dias entre as rondas que faz para espalhar o material de divulgação das festas, e algumas oficinas em ONGs e no CAPS. No seu portfólio, também vão junto colagens e cartazes que vende, cuja temática mistura a própria história com a simbologia dos soundsystems. De quebra, frequenta aulas de dança contemporânea no Cine Olido.

O Jimmy funciona como um termômetro da noite. Onde ele está tem alguma coisa acontecendo. Tem gente legal em volta.

Na realidade, mais do que um emprego dito sério, o envolvimento com a turma do Dubversão criou para Jimmy um network de pessoas confiáveis que o tratam como um igual. Se por um lado um colega de trabalho, por outro um amigo. No caso do Yellow P, isso fica ainda mais evidente. "Quase todo dia ele passa aqui em casa", conta Fábio.

"Eu digo que o Yellow P é o pai dele. Ele chega aqui e eu já pergunto 'Como tá teu pai, Jimmy?", brinca Julião Pimenta, um dos donos do Boteco Pratododia, na Barra Funda. Desde que a casa foi fundada, em 2012, Jimmy é o auto intitulado "funcionário do ano". Mesmo depois de tantos anos distante dos dias da Suzy in Trance, ele valoriza tanto o lado profissional da divulgação, quanto da limpeza.

"No Pratododia eu ajudo a limpar tudo, recolho garrafas no banheiro" diz ele. "Eu só não deixo ele pegar a vassoura. O lance da vassoura ficou para trás, agora o instrumento dele é com o cajado", explica Julião. Assim como na Fresh!, o trampo no Boteco surgiu do contato com gente que conheceu por meio do Dubversão. Também é o caso da relação com Cris Scabello, guitarrista do Bixiga 70. Na primeira metade dos anos 2000, Cris foi MC do Soundsystem, além de dividir os palcos com Yellow P numa banda chamada Rockers Control.

Hoje, é Jimmy que faz companhia para o Bixiga 70 nos palcos, dançando com o grupo em apresentações por São Paulo. "Aconteceu meio naturalmente. Eu não sei se a gente chamou ele ou se ele apareceu", conta Cris. "Mas todo mundo curte a presença dele, uma pureza meio singular. A dança do Jimmy bate com a música e fortalece a comunhão da banda com o público."

"Com certeza, ele é uma figura que faz parte da história do reggae de São Paulo", afirma Cris. Julião, por sua vez, vai além: "Cara, você pode ver que o Jimmy funciona como um termômetro da noite. Onde ele está tem alguma coisa acontecendo. Tem gente legal em volta."

Com tanto crédito nas ruas, ele acaba com um status quase de estrela na cena. Já perto de se despedir de Jimmy na casa de Yellow P, pergunto se isso não fica chato uma hora, com um monte de gente querendo se aproximar e jogar conversa fora. Com um sorrisão, ele responde: "Volta e meia aparece uns caras nada a ver. Eu só digo 'depois, depois', e volto a dançar."