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A Beleza Inebriante do Barfcade, Um Novo e Bizarro Festival de Jogos

Pensei ter visto uma das competidoras vomitar, mas conforme Wiley Wiggins me explicou, ela estava apenas cuspindo o sorvete de anchovas numa lata de lixo.

por Zack Kotzer
10 Outubro 2014, 1:45pm

Thu Tran. Crédito: andres lombana bermudez/Flickr

Pensei ter visto uma das competidoras vomitar, mas conforme Wiley Wiggins me explicou, ela estava apenas cuspindo o sorvete de anchovas numa lata de lixo. Agora, antes de pensar que o festival Barfcade (termo que une as palavras "arcade" e vômito" em inglês) foi um fracasso, você deveria saber que logo depois que as cerimônias terminaram, ambos os competidores, Alexander e Jessica, correram para o banheiro, escondidos das câmeras, para chamar o hugo.

"Não sei muito bem a causa", disse Wiggins, "talvez comer todo um tablete de manteiga. Sou do Sul, então pareceu um desafio fácil. Foi a primeira coisa que fizeram, e foi bem difícil para ambos, enquanto meio que arrumavam o palco... Acho que eles sabiam no que estavam se metendo. Alguém tem que vomitar no Barfcade".

O Barfcade foi um combo de competições — gincanas com jogos e gincanas com comidas — que serviu de atração principal no festival Fantastic Arcade deste ano, que é parte do Fantastic Fest, de Austin. Wiggins, um escritor e ator que apareceu em Jovens, Loucos e Rebeldes, Waking Life,Computer Chess, organizou a seção de arcade nos últimos três anos.

Ele tentou um conceito similar, baseado no programa "Starcade", dos anos 80 (se você for uma criança dos anos 90, pense em "Passa ou Repassa" com uma temática de videogame), mas quando os fornecedores de gabinetes retrô começaram a aumentar as taxas, Wiggins decidiu que era hora de transformar o evento.

"Eu estava mesmo de saco cheio do evento em sua forma original", disse Wiggins. "Adoro jogos antigos, mas não é a direção que quero que o Fantastic Arcade tome. É um negócio tão fácil, que sinto que estamos repetindo o modelo há tempo demais, temos que desafiar as pessoas de novo."

Gabinete de jogo de Barfcade. Créditos: Angela Doestch/Flickr

Ele estava à espera de uma desculpa para colaborar com a celebridade Thu Tran, famosa por suas empreitadas com comida, e após descobrir que ela havia se envolvido com o circuito de jogos, fazendo uma guerra de lanche dentro do fliperama Babycastles e desenvolvendo um jogo para o Kinect com Ivan Safrin, ele teve certeza de que poderia criar algo original.

O Barfcade começou com um apelo a outros criadores de jogos estranhos. O Starcade tinha despesas vintage, mas colher excentricidades independentes, de porte pequeno, significava que o evento demonstraria jogos equivalentes ao restante do Fantastic Arcade.

As entradas simplesmente precisavam ter controles consistentes, e os jogos tinham que ser competitivos, de dois jogadores, executáveis em 30 segundos. Também precisavam incorporar camarões de alguma forma, ideia da Thu. Assim sendo, Wiggins não consegue se lembrar de onde surgiu o vômito exatamente, no meio de um furacão de ideias, embora ele ache que a Thu seja a responsável. Ela certamente é a responsável pelo vômito de fato.

Competição de comer manteiga. Créditos:andres lombana bermudez/Flickr

O Barface, que foi transmitido ao vivo na internet, pode ser dividido em três componentes: trívia, que incluía perguntas relacionadas a jogos e comida (as dietas de "Burger Time", o desenho "Sonic the Hedgehog", e por aí); jogo, que gerava pontos quando os competidores discutiam acirradamente; e, por último, comida, uma gincana em que vencia quem engolisse e segurasse no estômago um misto de coisas nojentas cozinhadas pela Thu Tran.

"A gincana de comida é coisa da Thu", disse Wiggins. "Ela sempre faz coisas pertubadoras com alimentos. Uma vez, ela fez um negócio tão grotesco, ela cozinhou maionese na própria boca. Colocou um gole de azeite e pedaços de ovos na boca. Então cuspiu num prato e alguém chegou a provar — mesmo agora, essa história me faz suar, me deixa nauseado. Diminuímos um pouco a intensidade disso."

O cardápio começava com um tablete de manteiga, e os competidores avançavam para iguarias como picolés, aromatizados com durião e pasta de anchovas (Wiggins disse que o picolé tinha cheiro de "um milhão de mortos-vivos").

Mas o troço que chegou a ofender a sensibilidade de Wiggins mesmo foram os tacos de mortadela e anchovas, servidos em massa crua. "Quem foi o ianque filho da puta que entrou aí e nos serviu tortillas cruas?", perguntou.

EMBORA SEJA DIFÍCIL ABSTRAIR O VÔMITO, OU MESMO O CHEIRO DE VÔMITO, O BARFCADE É PARTE DE UMA EVOLUÇÃO, UMA SOLUÇÃO AO CIRCUITO DE FESTIVAIS DE JOGOS

Os jogos, embora repletos de imagens de comida e ácido gástrico, provavelmente não farão o público sacar suas sacolinhas de vômito tão rápido quanto as iguarias. Os participantes foram selecionados aleatoriamente durante o programa, e o registro todo, trechos transmitidos e não transmitidos, está disponível online.

A gincana favorita do Wiley é Lovesick, em que um casal recém-casado experimenta a magia da intoxicação alimentar. A minha é Kuru-kuru! Kuru!, que parece um rodízio de sushi dentro da imaginação de Keita Takahashi. O jogo do próprio Wiggins, que tem Guy Fieri remodelado como Chad Ravioli, embaixador de um restaurante automático, não apareceu nas festividades.

Embora seja difícil abstrair o vômito, ou mesmo o cheiro de vômito, ou a ideia do cheiro de vômito, o Barfcade parece ser parte de uma evolução, uma solução ao circuito de festivais de jogos.

Os destaques desses eventos geralmente viram os jogos menos acessíveis fora dos festivais: interfaces incomuns, como o hype contagioso do jogo sem tela Johann Sebastian Joust (que agora está disponível no Sportsfriends), ou a privação sensorial de Robin Arnott, Deep Sea, ou Tenya Wanya Teens, do próprio Takahashi, que se passa num grid de cores e botões que mudam de funções.

No Gamercamp do ano passado, joguei A Fishing Game With Actual Water, que usava tigelas de H2O, papel-alumínio e o corpo do jogador como condutor para o controle.

"Gostaria de ver alguns jogos que envolvem comer coisas estranhas", disse Wiggins. "Curto jogos multiplayer esquisitos, que só funcionam no local, qualquer coisa que brinque com isso, que incorpore cheiro e visão, ou alguma porcaria de casa mal assombrada, em que você tem que encostar em algo terrível enquanto joga. Procurar um controle no meio da gelatina, eu adoraria isso."

Jogos que envolvem presença física representam um cenário indie inevitável, e essa é uma das características que mais define a cena. Mas além disso, o que levou Wiggins a fazer do Barfcade um jogo de auditório é que ele remove, ou pelo menos desvia, o foco sobre prêmios monetários.

Muitos festivais oferecem prêmios em alguns jogos, coisas como "o melhor jogador", que podem trazer ao título um holofote necessário, mas também podem cobrir o evento com uma atmosfera amarga. Com um monte de panaca vomitando e jogando, a publicidade é espontânea. Pode ser um incentivo, mesmo que não signifique ir embora com um cheque no bolso.

Wiggins acha que não vai fazer um Barfcade 2 ano que vem. Não porque deixou as pessoas mal do estômago, mas porque ele prefere tentar algo novo. Ele e a Tran estão no caminho certo, dado o número de pessoas que se animaram. E ficaram nauseadas.

Tradução: Stephanie Fernandes