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​O Cartel Mexicano que Fabricava Suas Próprias Armas

Conheça a fábrica caseira de AR-15 no bairro de Guadalajara, ao sul de Jalisco, no México.

por Brian Anderson
26 Junho 2015, 4:35pm

A entrada da fábrica caseira fechada no fim de 2014, em Jalisco, no México. Crédito: Hugo Ornelas/ MOTHERBOARD

Costumava ser tarde da noite quando os três homens chegavam à oficina. Estacionavam seu Fusca em frente a um armazém em um bairro residencial de Guadalajara, ao sul de Jalisco, no México, e bebiam no meio-fio. Alguns goles depois, o trio entrava na loja e trancava a porta.

A cena se repetiu por pelo menos dois meses durante o ano de 2014, de acordo com um vizinho do local. Os homens nunca chamaram atenção ou deram motivos para crer que sua oficina era, na verdade, uma sofisticada fábrica ilegal de armas. Atrás de uma porta comum, eles e outros comparsas produziam armamentos caseiros irrastreáveis para uma das organizações criminosas mais violentas no México.

A dona do clube de armas era a nova e poderosa gangue Cartel Jalisco Nova Geração. Tida como violenta e perigosa, a organização teve ascensão tão meteórica que a promotoria mexicana a categorizou como "bandeira vermelha". O grupo ficou conhecido pelos ataques contra prédios do governo. Em maio, integrantes do cartel derrubaram um helicóptero militar com o uso de uma granada lançada por foguete. Seis soldados morreram.

O cartel também está por trás de bloqueios na estrada em que agentes do cartel incendeiam grandes veículos e postos de gasolina para demonstrar força e incitar o caos. Foram 39 dessas ações até hoje; uma delas, a poucas quadras de distância da fabriqueta de armas da gangue, envolveu um ônibus de uso público.

Um Fusca estacionado na frente da calle Isla Trapani 2691, February 2015. Crédito: Google Streetview

Dentro da oficina os homens fabricavam, em sua maioria, AR-15s. Tais rifles se tornaram onipresentes entre os carteis mexicanos. São armas relativamente leves e resistentes. O manufaturamento se dava a partir de uma série de componentes de armas de fogo comprados em lojas de armas na fronteira com os EUA e depois contrabandeados em pequenos lotes, de acordo com policiais dos dois países.

As autoridades descobriram que os homens também fabricavam bases funcionais de AR-15 a partir de blocos de alumínio. Essas peças abrigam o principal mecanismo de disparo da arma e têm fabricação aceita pela legislação mexicana e norte-americana. Elas eram construídas com a mesma tecnologia que agora foi adotada pelo movimento maker no mundo todo. No México e nos EUA, bases inferiores legalizadas são vendidas com números de série que as tornam rastreáveis. No caso das armas caseiras do Cartel Jalisco, sem qualquer número de identificação, é quase impossíveis rastreá-las.

O crime organizado mexicano tem traficado há tempos armas ilegais, mas os cartéis agora precisam de mais poder de fogo que nunca dada a diversificação de seus novos "serviços" como roubo de petróleo, extorsão, sequestro e tráfico de pessoas, além da distribuição de drogas.

Aqui, pela primeira vez, autoridades encontraram evidências de que um cartel fabrica suas próprias armas também. Seria uma ocorrência isolada ou um presságio?

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A base inferior é o âmago de um AR-15. É nela que vai o gatilho da arma, juntando-se à coronha, empunhadura e cartucho, bem como a base superior, onde vai o cano da mesma. Em um rifle como o AR-15, apenas a base inferior é considerada uma arma de fogo, o que facilita a aquisição das outras peças e, por tabela, dificulta seu rastreio.

O processo faça-você-mesmo de construção de uma arma muitas vezes começa com uma peça "em branco", material inacabado que, com as ferramentas certas, pode ser alterado de forma a abrigar o mecanismo de disparo. O Bureau Norte-Americano de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF, na sigla original) não considera essas peças "em branco" como em "estágio de manufatura", que é quando a arma deve ser enquadrada na Lei de Controle de Armas dos EUA caso esteja 80% completa ou menos. Isso significa que as peças em branco conhecidas como "bases 80%" — que contam com espaço para controle de disparos ainda que não tenham sido instalados seletor de disparo, pinos de disparo ou mesmo um gatilho — não são consideradas como armas pela ATF e podem ser compradas livremente nos EUA, mas não no México.

Crédito: US ATF

Somente quando essa peça é trabalhada para receber um mecanismo de disparo que a base 80% se torna uma base finalizada e se encaixa na definição de "arma de fogo" tanto no México quanto nos EUA. A partir daí ela está sujeita à regulamentação por parte do governo e tem que receber um número de série.

Armeiros amadores e demais entusiastas por máquinas tem criado bases funcionais a partir dessas peças há décadas. Hoje em dia existem algumas formas de fazer isso de modo irrastreável: com o uso de uma furadeira de bancada, similar à furadeira de mão usada nesta demonstração da ATF; com uma impressora 3D; e com uma fresadora de comando numérico computadorizado (CNC) que pode criar uma arma irrastreável a partir de peças de metal.

Mas os caras não estavam só finalizando o serviço em bases "em branco" no laboratório de Guadalajara. Eles criavam novas bases inteiras.

Uma base finalizada encontrada na oficina. Crédito: Polícia Estadual de Jalisco

A oficina ficava em uma vizinhança de classe operária, de acordo com Luis Carlos Najera, promotor de Jalisco, que disse que não é exatamente incomum ver gente indo e vindo de armazéns nesta região de Guadalajara, lotada de pequenas garagens industriais, oficinas e fábricas de peles. No começo de junho, porém, quando um correspondente do Motherboard visitou a vizinhança da antiga oficina, havia certa tensão no ar. As pessoas pareciam mais reservadas e relutantes em falar sobre qualquer coisa.

Hoje, a porta de rolar da oficina está marcada com pichações de gangues. Um trio de polícias patrulha o local noite e dia com rifles modificados em punho. Os guardas disseram ter sido designados à fazer a segurança do local, mas não comentaram o que ocorreu para tornar sua presença necessária. Um dos policiais anotou em um caderninho que um repórter havia aparecido e então comunicou o fato via rádio.

Quando a polícia de Jalisco foi até a à oficina, Najera disse que não parecia ser uma fábrica de armas em um primeiro momento. "Não tinha muita coisa ali", afirmou. Seus homens logo encontraram armas, matéria-prima (alumínio, na maior parte) para a confecção de armas e "umas mesas e outras coisas".

As autoridades apreenderam um total de 18 rifles AR-15 de fabricação caseira durante a operação — 14 armas direto de calle Isla Trapani 2691 e quatro outras armas de fogo de um segundo armazém de Guadalajara, de endereço não divulgado, onde um quarto suspeito que faria parte do esquema das armas foi preso. (O caso foi levado da promotoria estadual à federal, de acordo com Najera. As identidades dos quatro homens, que aguardam sua sentença de um juiz federal no México, não foram divulgadas por conta do sigilo em torno da investigação em andamento.)

Os agentes também apreenderam uma fresadora CNC, máquina de uso industrial comum que roda em um eixo enquanto extrai simetricamente objetos de peças maiores de um material de base. A fresadora era programada com um software avançado que guiava a máquina para cortar bases inferiores de AR-15 a partir de grandes blocos de alumínio. Os três homens então montavam o resto da arma em torno dos mecanismos de disparo finalizados, que tem o comprimento médio de um grampeador e a largura de um baralho. Em algum momento as armas saíam daquela oficina e chegavam às mãos dos membros do cartel Jalisco. Acredita-se também que as armas eram enviadas ao estado vizinho, Michoacán.

"Minha impressão é que o flagra que aconteceu em Jalisco foi algo isolado"

A máquina encontrada na fabriqueta de armas de Guadalajara era uma fresadora CNC da Hardinge, fabricante com sede em Nova York. Não constava no site da empresa o preço do modelo utilizado até a publicação desta matéria, porém um distribuidor vende a mesma máquina por US$24.500. Não se sabe quem adquiriu a fresadora CNC Hardinge encontrada na oficina do cartel nem quanto custou. A fabricante não se pronunciou.

Também não se sabe se os homens que trabalhavam na fabricação das armas tinham qualquer experiência prévia com este tipo de tecnologia. Um operador familiarizado com a fabricação de armas via CNC disse que operar um aparelho como o encontrado no laboratório do cartel não exigiria muita experiência prévia, mas seria necessário algum conhecimento específico. Ele mencionou um "efeito bumerangue", em que quanto maior a capacidade da máquina, mais complicada ela é — e, de forma irônica, mais familiarizado o operador tem que ser com ela.

A fresadora CNC. Crédito: Polícia Estadual de Jalisco

Fresadoras tipo CNC como a utilizada na fábrica em Guadalajara usam arquivos digitais para criar objetos a partir de matéria-prima — metais em sua maioria. Todo o conteúdo é programado em código-G, uma linguagem de programação básica utilizada em aplicações numéricas computadorizadas. Também conhecido como código NC (sigla para controle numérico), o código-G é o que faz com que uma ferramenta computadorizada faça algo de determinada forma. É um código programável, ou seja, pessoas podem usar um editor de texto para alterá-lo, linha por linha, observando coordenadas individuais e fazendo os ajustes necessários. Códigos NC específicos para armas irrastreáveis como as criadas na oficina de Jalisco podem ser difíceis de encontrar, mas não é preciso muito esforço na rede para encontrar uma referência adequada e alterá-la aos poucos.

Os arquitetos por trás da oficina em Jalisco, seja lá quem fossem, não teriam que vasculhar e programar sua própria máquina de 20.000 dólares para fabricar armas. Eles poderiam ter usado uma furadeira de bancada, uma impressora 3D, ou a Ghost Gunner, uma fresadora CNC de pequeno porte multiuso.

Mas eles claramente queriam ir além disso. Dessa forma, ficariam limitados ao acabamento dos outros 20% de peças em branco 80%. A ideia era poder fabricar rifles irrastreáveis do zero, criando peças funcionais a partir de blocos de alumínio. Se isso significava investir milhares de dólares (supondo que a máquina não tenha sido roubada) em equipamento industrial e demais custos, incluindo mão-de-obra especializada (supondo que os envolvidos eram pagos), então seria feito o investimento. Dinheiro é poder de fogo.

Uma caixa de bases finalizadas, fabricadas a partir de blocos de alumínio. Crédito: Polícia Estadual de Jalisco

Uma base inferior finalizada pode ser o que torna uma arma de verdade aos olhos da lei nos dois lados da fronteira entre EUA e México. Mas até mesmo um novato no mundo das armas de fogo sabe que uma arma é mais que isso. E todas as outras peças — coronhas, empunhaduras, cartuchos, canos, munição, e por aí vai — que chegaram à fabrica ilegal do cartel de Jalisco, vieram de onde?

O agente special Keith Heinzerling, da ATF, disse que essas peças não têm como ser rastreadas ao serem recuperadas no México. É preciso um número de série para e rastrear uma arma por meio do sistema eletrônico de rastreio da ATF utilizado para monitorar armas recuperadas e peças, com exceção das bases ou estrutura básica que não possuem números de série de acordo com legislação específica. Logo, não podem ser rastreadas.

"Podemos supor que as peças vêm dos EUA, já que a maioria das armas chegam ilegalmente,dos EUA mesmo", disse-me Heinzerling, agente da ATF na Embaixada dos EUA no México, ao telefone. "Mas não temos como saber disso. Não há como saber de onde vieram."

"Não esqueça que aqui não temos autoridade alguma", comentou Heinzerling, que auxiliou Najera e a polícia estadual de Jalisco na derrubada da fábrica. "Somos visitantes neste país. Quando nos convidam para certas coisas, auxiliamos, e vice-versa. Se temos alguma informação para compartilhar com eles lá dos EUA, de forma a facilitar investigações, o faremos também".

"Temos um relacionamento excelente com as autoridades mexicanas. Trabalhamos muito bem com elas."

Canos encontrados na oficina. Crédito: Polícia Estadual de Jalisco

Não faltam armas ilícitas no México. Cerca de 24,6 milhões de armas ilegais circulam no país hoje. Boa parte delas vem dos EUA. De acordo com dados anuais de rastreio da ATF de armas recuperadas pelas autoridades mexicanas e enviadas para testes, metade das armas traficadas para o México entre 2009 e 2014 vieram dos EUA. Uma estimativa do Trans-Border Institute revelou que entre 106.700 e 426.729 armas foram compradas nos EUA entre 2010 e 2012, com o objetivo expresso de serem levadas ao México.

"O volume de tráfico de armas de fogo na fronteira é significativo", afirmou Clay Boggs, oficial do Escritório de Washington para América Latina.

O México está lotado de armas ilegais. Em um mercado tão saturado com armas irrastreáveis, é complicado entender por que o cartel mais empreendedor e familiarizado com tecnologia de todos mexeria com fabricação caseira. Por que não comprar armas legais e raspar os números de série?

"Ao fabricar as bases aqui, eles podem fabricar as armas a uma fração do custo de comprar a mesma arma no mercado", disse Heinzerling. "E ao fabricá-las aqui, não tem nenhum número de série".

Armas caseiras também podem ser outra fonte de renda para o cartel. Como dito por Boggs, "a ideia de fabricar suas próprias armas é muita atraente não só porque elas são irrastreáveis, mas porque são potencialmente muito lucrativas e não é preciso se preocupar em buscá-las nos EUA ou qualquer outro lugar."

Ainda assim, não é fácil fazer armas confiáveis gastando pouco, afirmou Boggs. Por isso muitos criminosos no México ainda confiam nas armas norte-americanas, "tanto as fabricadas domesticamente quanto importadas da Europa, para o futuro". Enquanto essas armas continuarem baratas e acessíveis aos criminosos mexicanos, Boggs disse que oficinas como a de Guadalajara seguirão como raridade.

"Minha impressão", disse, "é que o flagra que aconteceu em Jalisco foi algo isolado".

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Como diversas outras operações policiais, a que revelou a fábrica de armas clandestinas em calle Isla Trapani 2691 aconteceu à noite. Poucas pessoas viram o ocorrido. O lojista próximo à fábrica fechada disse que quando a polícia chegou ao local naquela noite, entrou em sua loja e baixou as cortinas.

"Saí às 22h30", disse o comerciante, que pediu para não ter sua identidade revelada por medo da ação de gangues. "Mas não me deixaram ir embora."

Ele disse que os policiais o deixaram passar por volta da uma da manhã. Foi aí que ele percebeu que devia ter algo de errado com o lugar, mesmo nunca tendo estranhado nada. O vizinho imaginava se tratar de uma oficina comum e que os três homens, que descreveu como "jovens", trabalhavam à noite. Às vezes iam até sua loja e compravam algo. Na pior das hipóteses, disse, pareciam "normais".

Eles gostavam de farrear. Jorge, que restaurava um carro na oficina ao lado da fábrica de armas, disse que algumas vezes conseguia perceber os rapazes curtindo ali mesmo. Fora isso, declarou Jorge, "nunca os vi fazerem nada".

Um dos três policiais que agora patrulha a oficina, noite e dia. Crédito: Victor Hugo Ornelas/MOTHERBOARD

Fazem oito meses que os policiais invadiram a fábrica. Um aviso na frente do local diz: "Prédio protegido pela SEIDO-PRG [promotoria especializada em investigação criminal]. A violação deste selo é crime federal". O dono do prédio, que não pôde ser contatado, mudou o telefone do local logo após a ação policial em outubro.

As lojas ao lado da fábrica também fecharam. As vendas na região caíram e nenhum novo negócio abriu na região. No dia 11 de junho, um dia antes do correspondente do Motherboard ter visitado a área, um homem foi fuzilado a sete blocos de distância. As informações oficiais da polícia dizem que se tratou de um roubo, mas um integrante de gangue que mora na região questionou esta versão dos fatos. "O bicho tá pegando agora", admitiu, depois de pedir para não ser identificado. "Você acha que precisa atirar em alguém na cabeça duas vezes pra roubar?"

A fábrica pode ser coisa do passado, mas os AR-15 fabricados lá, não. Najera disse que muitas dessas armas tem surgido em cenas de crimes na área. " Isso nos faz pensar que muitas armas foram fabricadas lá e entregues à grupos no crime organizado antes da ação da polícia".

As autoridades de Jalisco apreenderam outras "14 ou 15" armas de fabricação caseira além das 18 durante a operação inicial, de acordo com Najera. Todas tem características similares às da fábrica em Guadalajara. Najera não descarta a possibilidade de existirem outras oficinas do tipo. Ele também crê que os esforços conjuntos entre EUA e México não são suficientes para interromper a cadeia de eventos que possibilitou a fabricação dessas armas.

"Precisamos fazer um trabalho melhor de rastreio não só da arma, mas das peças que podem ser usadas na construção de uma arma vendidas", disse Najera. "Se alguém compra 100 canos, 100 pedaços de plástico, 100 coronhas e 100 caixas" nos EUA e então contrabandeia aquilo tudo pro México, onde as peças são montadas e as bases feitas, "podemos afirmar que precisamos de novas maneiras para que as autoridades rastreiem esses materiais, aqui e lá".

Ninguém sabe ao certo quantas armas os homens conseguiram fabricar e exportar antes de serem descobertos. Após a ação da polícia, Najera disse aos jornalistas que crê que os suspeitos, todos sub custódia, produziram cerca de 100 armas ao longo de vários meses. Depois ele me disse que havia sido informado de que a oficina tinha capacidade de produzir 200 AR-15s irrastreáveis em um mês.

"Comparo isso com os laboratórios de meta. Se eles conseguem os produtos químicos, quantas destas máquinas podem comprar?"

"Nos revela como estes grupos tem cada vez mais recursos, além de sua criatividade em escapar da justiça dos dois lados da fronteira", disse.

Os carteis mexicanos, comentou Najera, querem tirar vantagem total desses recursos. Para eles, o sucesso é uma questão de assegurar poder e influência por meio de argúcia técnica e industrial. Por isso os carteis mexicanos constroem circuitos fechados de TV que cobrem cidades inteiras, forçam engenheiros sequestrados a construírem redes de rádio secretas e enviam ferro roubado para a China em troca de produtos químicos para fabricação de metafentamina. Não é uma questão se os carteis além de Jalisco conseguem por suas mãos em máquinas para criarem suas armas, mas sim o quão longe estão dispostos a ir.

"Comparo isso com os laboratórios de meta", disse Najera, "porque se eles conseguem os produtos químicos, quantas dessas máquinas podem comprar?"

Contribuíram Victor Hugo Ornelas e Camilo Salas.

Tradução: Thiago "Índio" Silva