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‘Nós Somos a Buceta do Futuro’: CiberFeminismo nos Anos 90

As CiberFeministas eram pensadoras tecno-utópicas que viam a tecnologia como uma forma de desestruturar as divisões de sexo e gênero.

por Claire L. Evans
01 Dezembro 2014, 6:37pm

Panfleto da ​VNS Matrix, cortesia de Virginia Barratt.

CiberFeminismo \\ˈsī-bərˈfe.mi.nˈiʒ.mu \\ : Uma corrente de pensamento, arte e crítica que nasceu no início da década 90, arrebatando uma geração de feministas antes de desaparecer com o estouro da bolha da internet. O termo foi cunhado simultaneamente pela teórica cultural britânica Sadie Plant e pelo coletivo artístico australiano VNS Matrix em 1991, durante a ascensão da cibercultura— o momento crucial em que a internet, uma tecnologia de conexão, estava adentrando a esfera pública.

O CiberFeminismo soava basicamente assim:

("Nós somos a buceta moderna; positivo anti-razão; sem amarras desenfreadas sem perdão; vemos arte com nossa buceta fazemos arte com nossa buceta; acreditamos no gozo loucura o sagrado e poesia; somos o vírus da nova desordem mundial; desmembrando o simbólico de dentro para fora; sabotadoras do sistema do big daddy; o clítoris é uma linha direta para a matriz; a VNS MATRIX; terminadoras do código moral; caímos ao altar da abjeção; cutucando o templo visceral nós falamos em línguas; infiltrando interrompendo disseminando; corrompendo o discurso; somos a buceta do futuro.")

Esse é O Manifesto Ciberfeminista para o Século 21, escrito em 1991 pela VNS Matrix.

As CiberFeministas eram pensadoras tecno-utópicas que viam a tecnologia como uma forma de desestruturar as divisões de sexo e gênero. É claro que elas sabiam que o mundo digital, e as culturas que emergiam dele, sendo elas especulativas ou não, continham as mesmas dinâmicas de poder ligadas a gênero existentes no mundo real; o próprio termo "CiberFeminista" é, em parte, uma crítica ao tom misógino da literatura cyberpunk dos anos 80. Ainda assim, as CiberFeministas acreditavam que a internet era uma ferramenta para a liberação feminista.

Na época, a internet era cheia de amor. Feministas que vinham de uma tradição de escrita não-linear e outras práticas artísticas enxergaram o potencial de hipertextos não-narrativos como uma nova mídia, e críticas feministas compararam a capacidade de conexão da internet aos grupos conscientizadores da terceira onda feminista dos anos 70, nos quais mulheres se juntavam para discutir suas semelhanças e diferenças. Diz um trecho da revista de arte do MIT, Leonardo, em texto publicado em 1998: "A questão não é a dominação e o controle, ou a submissão e a rendição às máquinas; mas sim explorar alianças, afinidades, e possibilidades co-evolucionárias... entre as mulheres e a tecnologia".

É impossível tecer uma definição exata do CiberFeminismo. Na verdade, na Primeira Internacional Feminista, a primeira conferência Ciberfeminista oficial, os participantes concordaram em não definir o termo; ao invés disso, eles escreveram, em conjunto, uma lista de 100 "Anti-Teses", enumerando uma centena de coisas que o CiberFeminismo não era. A lista afirma que o CiberFeminismo: não está à venda, não é pós-moderno, não é uma moda, não é um piquenique, não é um golpe da mídia, não é ficção científica, e — o meu favorito — "não tem a ver com brinquedos chatos para garotos chatos".

Nada chato, realmente. Para as CiberFeministas, o ciberespaço era um universo alternativo, sinuoso e extremamente fértil para experiências criativas. Elas criaram CD-ROMs revolucionários (como o "Cyberflesh Girlmonster", de Linda Dement), obras de arte digitais multimídia, e usaram a Linguagem para Modelagem de Realidade Virtual (VRML, na sigla original) como forma de criar um universo além da cultura patriarcal, assumindo a forma física que lhes convinha conforme elas vagavam pela internet em busca de prazer e conhecimento. Elas também criaram jogos de video game. Os mais famoso deles é o All New Gen, criado pela VNS Matrix.

Viewing kiosk for All New Gen at YYZ Gallery, Toronto. Image courtesy of Virgina Barratt.

Em All New Gen— mostrado acima, em 1995, em um quiosque na Galeria YYZ em Toronto — "cibervadias" e "anarco ciber-terroristas" hackeiam o sistema operacional do Big Daddy, a manifestação edipiana do complexo tecno-industrial, para plantar a semente da Desordem do Novo Mundo e acabar com o reinado do poder fálico.

Ao começar a jogar All New Gen, o jogador lê a seguinte pergunta: "Qual é o seu gênero? Homem, Mulher, Nenhum dos dois". A única resposta correta é "Nenhum dos dois"— qualquer outra resposta coloca o jogador em um loop que termina o jogo. Em All New Gen a energia é medida em "G-gosma"; na batalha contra o Sistema Operacional e seus capangas ("Garoto Circuito, Streetfighter e outros cuzões"), o jogador é ajudado pelas "heroínas mutantes, as Vadias do DNA". Dá para imaginar?

All New Gen's

As Vadias do DNA, imagem retirada de All New Gen. Cortesia de Virginia Barratt.

Revisitar o CiberFeminismo em 2014 é um prazer. Para início de conversa, é bem divertido. A linguagem é bombástica. Hoje em dia não existem muitas feministas escrevendo manifestos com frases como "o clítoris é uma linha direta para a matriz", ou "nós somos a buceta do futuro" — ambas frases memoráveis do Manifesto CiberFeminista da VNS Matrix pelo menos não nos blogs que leio. E o entusiasmo com as nascentes possibilidades da internet é palpável, até mesmo contagioso.

"O Ciberespaço tem potencial", explicou a escritora Beryl Fletcher em um ensaio de 1999 do livro CyberFeminism: Connectivity, Critique + Creativity, "de expandir a imaginação e a linguagem aos seus limites; é uma vasta biblioteca de informações, uma grande fofoca, um cenário emotivo e político. Resumindo, um lugar ideal pra feministas".

Ou, como escreveu a intelectual Donna Haraway, de forma mais sucinta, em seu importante ensaio de 1991, A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century: "Eu prefiro ser uma ciborgue do que uma deusa".

É claro que essas esperanças tecno-utópicas não se tornaram realidade. Pensadoras CiberFeministas e artistas pensavam na internet como um quintal para o pensamento e a expressão feminina, mas ser uma mulher na internet em 2014 traz à tona as mesmas reservas e ansiedades que sempre acompanharam a vivência feminina no mundo carnal. O medo de ser silenciada, ameaçada, ou intimidada são igualmente reais no mundo digital e real. Mulheres como a (heróica) crítica de videogame Anita Sarkeesian são constantemente assediadas apenas por apontar que podemos melhorar a representação das mulheres na mídia que consumimos.

E o anonimato! O anonimato, que as CiberFeministas defendiam como um método para transcender as amarras dos gêneros, é hoje a principal fonte de linguagem misógina e violenta na internet— em comentários no YouTube, fóruns, emails e em respostas no Twitter de mulheres que vocalizam publicamente suas opiniões sobre a tecnologia. Isso não quer dizer que as CiberFeministas falharam. Isso quer dizer que a intersecção entre o mundo real e digital está cada vez maior, e que os problemas do mundo real se tornaram os problemas do mundo digital. A internet não é mais um espaço isolado; nós e a internet somos inseparáveis.

VNS Matrix postcard. Image courtesy of Virgina Barratt.

Um postal da VNS Matrix, 1994. Da esquerda para a direita: Francesca Da Rimini, Virginia Barratt, Julianne Pierce, Josephine Starrs. Imagem cortesia de Virgina Barratt.

Mas ainda há esperança. Como Virginia Barratt, uma das fundadoras da VNS Matrix, escreveu em 2014: "o ciberfeminismo foi um momento catalisador, um vírus mental coletivo e memético que mobilizou garotas geeks de todo o mundo e desencadeou na criação dos códigos tecno-pornôs blasfêmicos que transformaram as máquinas em algo prazeroso e úmido... quando assisto às meninas do Pussy Riot se recusando a serem corpos 'puros e limpos' da forma mais fétida possível, eu vejo a linhagem feminista ciborgue se expandindo pelo espaço-tempo".

Quase que literalmente — no ano que vem, um "remix" do Manifesto Ciberfeminista Para o Século 21 da VNS Matrix será enviadopara o espaço como parte de um projeto chamado Forever Now.

Mas aqui na Terra, diálogos importantes sobre mulheres, gênero, poder e tecnologia estão acontecendo por toda a internet. As plataformas são diferentes do que as CiberFeministas imaginaram. Nós não conscientizamos ninguém com CD-ROMs, nem curtimos mundos virtuais com avatares de amazonas, ou escrevemos romances não-narrativos com hyperlinks — ao invés disso, nós compartilhamos ideias em grupos do Facebook, lançamos revistas digitais, e usamos hashtags para chamar a atenção para algumas questões.

É menos revolucionário, mas nós temos o maior público da história. E por mais que ainda existam marcos terríveis — a revelação dos abusos cometidos por Jian Ghameshid, o Gamergate, Ray Rice batendo em sua mulher — pelo menos nós estamos fazendo algo com toda a atenção que esses escândalos atraem: estamos dialogando, educando, nos revoltando.

Em tempos pós-Gamergate, eu estou me segurando com todas as forças ao CiberFeminismo e seus frutos, símbolos de um universo paralelo mais são. Me conforta saber que, apesar da tecnologia reproduzir os mesmos padrões de gênero, as sementes da possibilidade estão enterradas em seu solo desde seu nascimento. Podemos usar as ferramentas tecnológicas para construir o mundo de nossos sonhos — ao contrário de usá-las para recriar as estruturas existentes na realidade. Não é tarde demais. Apesar das fracassadas aspirações utópicas do passado nos mostrarem o que poderia ter sido, elas ainda nos mostram o que podemos ser.

Headline from Australian newspaper The Age, about VNS Matrix, 1995.

Chamada do jornal australiano The Age sobre a VNS Matrix, 1995.

O que podemos aprender com ativistas, intelectuais, profetas e a galera bizarra da primeira onda da cibercultura? Nós celebramos o Stewart Brand, o Lawrence Lessig, e seus contemporâneos (com toda razão), mas esquecemos daqueles que iniciaram movimentos que não vingaram, que fizeram previsões que se tornaram irrelevantes, ou que falaram por aqueles que nunca chegaram a reivindicar seu espaço na internet.

Nós precisamos lembrar do CiberFeminismo. Precisamos desenterrar a VNS Matrix das profundezas da internet e injetar um pouco dela em nossas veias. É um ótimo remédio. As vozes dessas mulheres — estranhas, raivosas, hilárias e desafiando destemidamente o Sistema — estão lamentavelmente ausentes dos diálogos fragmentados sobre feminismo na internet. Para cada carta aberta sobre "ética no jornalismo de videogame", para cada opinião desdenhosa sobre as queixas legítimas de mulheres incomodadas com a representação femininas em jogos ou o tratamento que recebem em seções de comentários, para cada ameaça de morte ou exposição de dados pessoais de mulheres na internet, eu rezo para que as as bucetas do futuro cheguem logo para enfiar um pouco de juízo nesses servidores.

Tradução: Ananda Pieratti