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As tretas mais fenomenais do futebol argentino

Sentamos num bar com um dos historiadores de futebol mais respeitados da Argentina para elencar as mais impressionantes histórias de safadeza, corrupção e porrada nos gramados do país.

por Gabriel Uchida
17 Fevereiro 2016, 11:14am


Alejandro Fabbri, 59, um historiador apaixonado e cético do mundo da bola. Foto: Gabriel Uchida

Um argentino e um brasileiro sentados em um bar para falar de futebol. Em vez de ficar na eterna punheta de quem foi melhor, Pelé ou Maradona, o assunto começa na política. Enquanto espero minha água, um café e um croissant que insistem em chamar de medialuna, ele, o jornalista e escritor hermano, cita Maluf, FHC, Lula e Dilma. Como o cara é muito famoso nas quebradas argentinas, o garçom comenta de um jogo com ele. É quando a conversa deslancha. Futebol é o assunto favorito de Alejandro Fabbri, de 59 anos e pelo menos 40 deles dedicados à cobertura de esporte. "O futebol é um lugar onde se lava dinheiro das grandes empresas, dos grandes milionários", ele me disse à mesa. Apaixonado pela pelota e torcedor do pequeno Platense, Fabbri é também um cético, um crítico. "A Conmebol sempre foi um lugar de delinquentes, assim como a Fifa", completa.

Embora suas revelações de corrupção no mundo da bola não sejam bombásticas, Fabbri é um dos poucos caras que pode falar disso com propriedade. A longa experiência e a memória impressionante lhe permitem comentar com riqueza sobre qualquer rolê futebolístico: táticas, estatísticas ou histórias macabras. Dois dos livros mais conhecidos de Fabbri são "Histórias Negras do Futebol Argentino" e "Novas Histórias Negras do Futebol Argentino". Ambos são compilados históricos com a nata da sujeira, safadeza, corrupção, porrada e bizarrice que já aconteceram na modalidade. Eu poderia citar umas frases maravilhosas dele sobre tudo isso, mas preferi pedir para que ele contasse na íntegra os cinco episódios mais zica do futebol local. A ordem dos casos é do próprio Fabbri.

Juiz na forca de cintos (1946)

O San Lorenzo foi campeão em 1946 com um famoso trio de ataque: Farro, Pontoni e Martino — este último também atuou no São Paulo. Em um jogo fora de casa contra o Newell's Old Boys em Rosário, a equipe visitante viu um juiz anular um gol dos mandantes por causa de impedimento duvidoso. Estava empatado em 2 a 2, pura tensão. No lance seguinte, para a revolta do pessoal do Newell's, o San Lorenzo marcou o terceiro. Os visitantes ganharam com a ajudinha do juizão. Ensandecidos, os torcedores invadiram o gramado para pegar o árbitro mas, como o cara escapou muito rápido, acabaram batendo nos jogadores do time adversário. Já seria uma história pesada, mas não acabou por aí.

O pior veio depois. Apesar de ter conseguido fugir do campo, o árbitro foi capturado no parque em volta do estádio. Depois de espancá-lo, os torcedores fizeram uma forca com vários cintos e o penduraram em uma árvore. O juiz quase morreu, mas foi salvo por policiais que chegaram, cortaram os cintos com um facão e, em seguida, levaram a vítima para o hospital. O homem ficou internado por três dias e, durante todo esse tempo, torcedores do Newell's rodearam o local. O árbitro teve que ser retirado de madrugada e foi transportado dentro do porta-malas de um carro.

Na súmula do jogo constava que a partida tinha sido suspensa quando faltavam 70 segundos para o final. O Boca Juniors, que brigava pelo título com o San Lorenzo, foi ao tribunal pedir que continuassem a disputa. A justiça deu razão ao clube da Bombonera. Duas semanas depois realizaram um jogo com dois tempos de 35 segundos. Rola a bola, Botoni toca para Martino, que passa para López e apita o juiz. Nada aconteceu, claro — a partida terminou como antes, 3 a 2 para o San Lorenzo.


"Grave tumulto em Rosário" - Jornal La Nacion (28 de outubro de 1946).

A pior mala branca das Américas (1940)

No ano de 1940 o Chacarita jogou com o Newell's Old Boys em Rosário. Antes da partida, um dirigente do Chaca chamou o atleta Ramaciotti, goleiro do rival, para uma conversa: "A gente quer que você nos dê uma ajuda, vamos te dar muito dinheiro para que nos deixem fazer alguns gols".

O jogador aceitou a proposta e disse que receberia o pagamento em uma confeitaria que seu irmão tinha em Arrojo Seco, uma cidade perto de Rosário. Ligeiro, Ramaciotti avisou os dirigentes do seu clube e a polícia. No dia combinado, o jogador aguardava sentado tomando um café. O presidente e o vice do Chacarita chegaram com um envelope marrom e, quando foram entregar o dinheiro, acabaram presos por dois policiais que estavam à paisana na mesa ao lado. O caso foi ao tribunal e o clube foi condenado a seis derrotas, o que resultou no primeiro rebaixamento do time.


"Ontem planejaram subornar o goleiro Aldo Ramaciotti" - Jornal La Nacion (26 de agosto de 1940).

O protesto dos sentados (1933)

Em 1933, o Gimnasia y Esgrima estava em primeiro desde o começo do campeonato. Com seis e oito rodadas para o final, a equipe jogou de visitante com Boca Juniors e San Lorenzo, respectivamente. Primeiro perdeu para o Boca em um jogo que começou ganhando por 2 a 1. O rival empatou em um pênalti que não existiu e ganhou com um gol impedido. O Gimnasia reclamou bastante, mas ainda seguia líder. No estádio do San Lorenzo, duas rodadas depois, a partida corria bem até estar empatada em 1 a 1. Em um lance que a bola foi desviada e parecia que entraria no gol, o goleiro defendeu no último momento em cima da linha – existe até uma foto que comprova. Mesmo assim, o juiz marcou gol para o San Lorenzo.

Os jogadores do Gimnasia, cansados de se ferrarem por causa da arbitragem, decidiram protestar. Ao darem a saída no meio do campo, sentavam e deixavam os rivais fazerem o resto livremente. O San Lorenzo fez 3, 4, 5, 6... e no sétimo gol o árbitro terminou o jogo. Depois da partida, o elenco pegou o trem no terminal Constituición de Buenos Aires e voltou para La Plata. Ao chegar na estação da cidade, havia 5 mil pessoas à espera do time para aplaudir pela atitude tomada. Os jogadores entraram para a história do clube por terem protestado com honra.


"7 gols a 1" - Jornal La Nacion (9 de outubro de 1933).

A importação – e rápido descarte – de árbitros ingleses (1949)

Como você já deve ter reparado, havia muitos escândalos no futebol argentino nos anos 40. No final da década, surgiram muitas suspeitas de árbitros corruptos. Os campeões eram sempre os mesmos, River e Boca. Em 1948 o presidente Juan Perón teve uma ideia tipo importação: expulsou os juizes argentinos e mandou buscar 12 profissionais britânicos – a maioria ingleses e alguns escoceses.

Os estrangeiros não sabiam quem era quem, claro. Para marcar os jogadores, começaram a usar os números nas camisas. Parece algo pequeno mas o futebol argentino, por incrível que pareça, começou a ser mais decente. Outros times começaram a ganhar. O campeonato de 1949 teve o Racing como campeão pela primeira vez; Platense e River ficaram empatados em segundo e o Boca Juniors se salvou do rebaixamento na última rodada. O primeiro árbitro inglês a trabalhar no país foi Isaac Crawell, que certa vez disse: "Vi jogadores brilhantes, mas há um problema: os argentinos reclamam muito e até quando não tem razão. Além disso, simulam muito, querem confundir as autoridades".

Depois de alguns anos os ingleses foram embora e voltaram os juízes argentinos, que está em campo até hoje. Coincidência ou não, quem ganha algo atualmente são sempre os grandes: Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo. Há quem diga que muitos senhores de idade ainda esperam que os juízes ingleses voltem.


Início do primeiro campeonato apenas com árbitros gringos - jornal La Nacion (19 de abril de 1948).

Subornos, indisfarçáveis subornos (1940)

O ano de 1940 foi marcado pela maior quantidade de tentativas de suborno no campeonato da primeira divisão. Na época, todos os jogos começavam ao mesmo tempo. O Boca já era campeão antecipado, enquanto Atlanta e Vélez lutavam para não cair.

O Atlanta é um time de bairro, mas já revelou bons jogadores como o atacante Luis Artime, ex-Palmeiras. Em uma partida contra o Independiente, o time precisava ganhar para escapar do rebaixamento. No fim do primeiro tempo, o Atlanta ganhava por 6 a 0 do Independiente, enquanto o Vélez Sarsfield empatava sem gols. Estava claro que o adversário do Atlanta tava entregando.

Quando os jogadores do Vélez chegam ao vestiário e perguntam do outro jogo, ninguém acreditava. Ficaram enfurecidos com o Independiente entregando o jogo e lhes causando o rebaixamento. Não eram os únicos. Os próprios torcedores do Independiente que estavam no estádio xingavam seus jogadores de ladrões e delinquentes. Parece que houve uma conversa entre atletas nos vestiários ou no túnel de entrada para o gramado e, no segundo tempo, o Independiente faz 4 gols em 25 minutos. Ainda assim, não foi suficiente: resultado fez o Vélez ser rebaixado, um roubo escandaloso.

Curiosamente, uma semana depois, o melhor jogador do Atlanta foi transferido de graça para o Independiente. Já o Vélez Sarsfield só voltou para a primeira divisão quatro anos depois e conseguiu um resultado incrível contra o Independiente, 8 a 0. Apesar do jogo não valer nada, os jogadores deram a volta olímpica no estádio comemorando com os torcedores a vingança.

"Independiente foi derrotado por seis gols a quatro em partida contra o Atlanta" - jornal La Nacion (23 de dezembro de 1940).