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Conheça o compositor islandês trabalhando na sequência de 'Blade Runner'

Conversamos com Jóhann Jóhannsson sobre a pressão e a honra de seguir os passos de Vangelis no filme de ficção científica mais aguardado da década.

por Ian McQuaid
29 Novembro 2016, 4:00pm

Esta matéria foi originalmente publicada na i-D Grã-Bretanha.

O compositor islandês Jóhann Jóhannsson ganhou destaque na última década como um dos compositores de trilha sonora mais importantes do mundo. Tendo feito um nome com seu trabalho solo; construções cinematográficas e minimalistas de sons eletrônicos, experimentações analógicas e arranjos neoclássicos, era inevitável que Jóhannsson acabasse misturando a graça e grandiosidade de seu som com o cinema. Em 2013, Jóhannssonn formou uma parceria criativa com o diretor Denis Villaneuve, fazendo a trilha de Os Suspeitos. A dupla trabalhou de novo em A Chegada e Sicário, e agora Jóhannsson foi apontado como o compositor do projeto mais ambicioso deles até agora; a esperada sequência do clássico sci-fi de Ridley Scott Blade Runner.

Para muitos artistas isso já seria suficiente para preencher uma entrevista inteira — mas não para Jóhannsson. Ele também está se preparando para lançar seu primeiro disco solo em seis anos. Orphee, uma meditação do mito de Orfeu, mostra o compositor abordando temas de transição e transgressão. Parece que emplacar a trilha sonora da sequência de uma ficção científica icônica é apenas um dos vários projetos do incansável Jóhannsson...

VICE: Você está lançando seu primeiro disco solo em bastante tempo, e isso depois de incontáveis colaborações – de trilhas de filme a projetos artísticos coletivos. É diferente trabalhar sem ninguém com quem trocar ideias?
Jóhann Jóhannsson: Esse é meu primeiro álbum solo em seis anos, ou mais — meu último disco solo propriamente dito foi Fordlandia em 2008. Nos últimos anos me concentrei principalmente em trilhas sonoras, mas sempre fiz meu trabalho paralelamente — cerca de 50% do tempo compondo trilhas e 50% fazendo minhas coisas próprias. Não é uma grande diferença. A diferença é que quando se está trabalhando num filme você já tem um enquadramento e contexto, uma história e parâmetros que restringem o trabalho — mesmo que eu geralmente entre nesses projetos bem no começo do processo, então também sou parte da equipe criativa desde o começo — com Denis Villeneuve, com quem já fiz três filmes, geralmente começo a trabalhar durante o estágio de desenvolvimento do roteiro.

Meu trabalho pessoal é mais difícil e cansativo. Você começa com uma tela em branco e tem que criar seu próprio contexto e forma. Essa é uma das partes mais difíceis de fazer um álbum, encontrar esse conceito, essa ideia unificadora, e como escrevo mais músicas instrumentais, a ideia de ter um conceito central que unifica a música é muito importante para mim.

E que conceito é esse?
Bom, comecei com uma série de progressões harmônicas que tinham essa investida ascendente, todas pareciam fluir para cima. Eu tinha esse pequeno ecossistema de ideias que pareceu não tomar forma por muito tempo — escrevi as primeiras ideias em 2009 e gravei pequenos trechos aqui e ali, gravando as cordas em Nova York, alguns solistas da Islândia, pequenas partes, e lentamente a ideia de conectar isso ao mito de Orfeu surgiu. Na verdade foi a última faixa do álbum, "The Orphic Hym", que proporcionou a forma que eu queria — e uma música a capela — muitos dos meus discos têm uma faixa vocal, o que parece ser o tema. Nessa faixa, quando eu estava procurando pelo texto — prefiro trabalhar com textos existentes, não gosto de escrever letras — procurei pela versão de Ovídeo do mito de Orfeu, e seu conto do poeta descendo ao submundo para resgatar sua amada morta, sua tentativa de enganar a morte, e a ideia de que ele transgride as ordens dos deuses olhando para trás quando deixa o Hades. A história tem muitas conotações interessantes para a relação entre artistas, beleza e poder. Pode ser uma relação espinhosa. É um mito cheio de metáforas, e uma história que vem inspirando artistas muito maiores que eu há séculos.

Você mencionou Denis Villeneuve agora a pouco — e sei que ele te colocou a bordo da trilha sonora da sequência de Blade Runner que ele está dirigindo — você também entrou nessa produção logo no começo?
O filme começou a ser filmado agora, mas estou trabalhando na música desde junho. Mas também tenho outros projetos, essa não é minha ocupação constante. Mas estou lentamente reunindo materiais e ideias, e também acompanhando como o filme está se desenvolvendo, qual o visual. Isso é o que eu sempre quis fazer com o Denis, sempre me inspirei com as imagens dele, com o ritmo das imagens e das cenas dele. Mas costumo mandar algo para ele logo no começo — já mandei algumas ideias musicais para serem usadas no set e ajudar a preparar os atores.

Então você diria que a música ajuda a moldar o filme?
Também fizemos isso em A Chegada, que estreia em novembro, e até certo ponto com Sicário. A música sempre estava lá quando eles estavam filmando. Em A Chegada, escrevi o tema principal antes do Denis começar a filmar. Eu estava trabalhando nessas técnicas de loop analógicas; gravando vozes e instrumentos de corda e criando esses zumbidos bem orgânicos, colocando infinitas camadas de som — é uma técnica muito antiga, já era usada pelos Beatles nos anos 60, mas cria texturas alienígenas, sombrias e perturbadoras.

Você retornou a algum tema em Blade Runner? Você está se empenhando para criar um tipo de futurismo estranho?
É muito cedo para dizer qual será o som de Blade Runner. É difícil para mim dizer. Claro, é uma honra ter recebido essa tarefa — parece que me confiaram um trabalho muito especial para continuar e expandir esse mundo que Ridley Scott e Vangelis — e muitos outros, claro — criaram de maneira tão linda. Blade Runner é uma das maiores influências na minha vida, vi o filme quando tinha 13 ou 14 anos, quando ele estreou, e desde então assisti [ao longa] muitas e muitas vezes. Eu abordo esse projeto como fã, e como um fã do Vangelis, mas também quero deixar minha própria marca nele. Meu trabalho vai respeitar o mundo que foi construído por esses grandes artistas, mas claro que temos que expandir em cima disso e criar algo novo e forte, que espero que tenha o mesmo poder do original. Mas ainda é muito cedo para falar sobre isso além de em termos gerais.

Você tem alguma ideia de quando o filme será concluído?
Bom, a data oficial de lançamento é janeiro de 2018.

E seu próprio álbum saiu antes disso...
Sim, ele saiu no meio de setembro, tive uma turnê nos EUA em outubro, e agora em dezembro uma turnê pela Europa. O próximo disco, a trilha de A Chegada, será lançado em novembro. E ainda tenho pelo menos dois outros projetos solo que estão quase completos — vou lançar um grande projeto audiovisual em 2017. Não posso dar mais detalhes porque tudo está sendo finalizado, mas é um grande projeto em que estou trabalhando como diretor além de compositor e que vai sair nos cinemas e como performance ao vivo, acompanhada de projeções.

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Tradução: Marina Schnoor

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