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Durou 14 horas a sessão de defesa da Dilma no Senado

No penúltimo ato do julgamento do impeachment, a presidente afastada fez rir, citou Chico Buarque e aguentou firme 14 horas de interrogatório.

por Amauri Gonzo
30 Agosto 2016, 1:46pm


Dilma durante a longa sabatina no Senado Federal. Foto: Agência Brasil

Numa das mais longas e extenuantes sessões do processo de impeachment, a presidente afastada Dilma Rousseff passou mais de catorze horas respondendo aos questionamentos de quase cinquenta senadores nesta segunda-feira (29), se defendendo pessoalmente na fase final do seu julgamento. Depois de um discurso no qual se emocionou por duas vezes e disse que o impeachment era o " risco de uma ruptura democrática", Dilma respondeu a repetidas perguntas a respeito do Plano Safra e dos decretos orçamentários dos quais é acusada de usar para "pedalar" e alterar o equilíbrio das contas nacionais, no que teria incorrido, segundo a sua acusação, em "crime de responsabilidade".

Com muita paciência, Dilma explicou que, quando os decretos foram realizados, foram feitos dentro da lei vigente e sob os auspícios de um contingenciamento anterior de gastos realizado pelo então governo. Munida de tabelas, gráficos e documentos, rebateu a tese de que as "pedaladas fiscais" seriam o principal vetor para a crise econômica de 2015/ 2016. Aproveitou também para fazer sua mea culpa , pedindo desculpas a diferentes senadores pela marcante falta de diálogo com o Congresso em seus dois mandatos.

O interrogatório de Dilma se dividiu em dois grupos claros: os apoiadores da presidente e a sua antiga oposição. Do primeiro lado, além de parlamentares do PT, PCdoB e PDT, contou com aliados feitos ao apagar das luzes do seu governo, como a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), ex-ministra da Agricultura. Do outro lado do corner, PSDB, DEM, PSB e pouquíssimos representantes do PMDB de Temer — nenhum dos ex-ministros de Dilma que votaram a favor da admissibilidade do processo de impeachment participaram, como Marta Suplicy (PMDB-SP) e Edison Lobão (PMDB-MA).

Além de defender o rebolado fiscal do seu governo, Dilma aproveitou suas falas para reforçar a promessa de pedir um plebiscito por novas eleições caso volte à presidência, e também para malhar Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deputado afastado que, quando presidente da Câmara, conduziu o processo de impeachment. Num dos momentos mais inusitados, Dilma arrancou risos do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) ao afirmar que muitos dos líderes dos protestos de rua contra o seu governo " eram as mais enfáticos e esfuziantes em tirar retratos " com Cunha.

Em um momento, Dilma foi repreendida por Ricardo Lewandowski, ministro do STF que presidiu o processo no Senado, a não citar o governo interino de Michel Temer nas suas falas, mas ganhou uma bola levantada pelo senador Cristovam Buarque (PPS-DF) para cortar na cara do interino e lembrar das suas relações com Cunha, baseada nos áudios do senador Romero Jucá (PMDB-RO) — outra notável ausência no interrogatório de Dilma. Diversas vezes a presidente afastada explicou por que chama a possibilidade final do seu impeachment de "golpe parlamentar", recorrendo a exemplos recentes na América Latina e reiterando que não houve crime de responsabilidade nos decretos analisados dentro do processo e que, uma vez que este crime não existiria, sua derrubada constituiria numa "ruptura" da democracia, com sérias consequências às instituições.

Apesar da ausência dos aliados mais diretos nos questionamentos de Dilma, e da aparência de normalidade que o Planalto tentou passar — Temer assistiu ao discurso no Palácio do Jaburu e depois participou de uma cerimônia com atletas olímpicos — nos bastidores a batalha seguiu firme. Temer teria ligado para cobrar a senadora Rose de Freitas (PMDB-ES), que teria brincado que defenderia Dilma em seu discurso, e teria oferecido para o senador Roberto Rocha (PSB-MA) uma diretoria no Banco do Nordeste após saber que ele fora procurado por Lula para votar contra o impeachment. Lula, por sinal, foi ofuscado na comitiva de Dilma para seu depoimento. A estrela do dia foi mesmo o cantor Chico Buarque cuja figura foi disputada para inúmeras selfies e citado por meio de suas letras por Dilma e senadores aliados durante seus discursos. Dilma encerrou a noite, quase à meia-noite, com um discurso que lembrava a bancada ruralista que não seria uma boa ideia tentar criminalizar o Plano Safra.

O ato final do impeachment acontece nesta terça-feira (30), numa sessão que deve se estender até a madrugada de quarta (31). Para tirar Dilma definitivamente do cargo, Temer e seus aliados precisam de 54 votos a favor, que para muitos já são favas contadas. Porém os apoiadores de Dilma no Senado acreditam que "não tá morto quem peleia" e trabalham por uma virada final, mesmo depois do relatório que pedia seu impeachment ter sido aprovado com 59 votos.

Enquanto isso, na noite de segunda, os paulistanos tiveram um gostinho da nova democracia de Temer na Avenida Paulista, que deve vir embalada na fragrância do gás lacrimogênio e ao som das bombas de efeito moral, provando que não vai ser simples protestar contra o interino e talvez mesmo contra Cunha. Nada é mais conveniente nessa hora do que a fala do ex-presidente da Câmara ao anunciar seu voto pelo impeachment em abril deste ano: que Deus tenha misericórdia desta nação.

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