Publicidade
Interviews

Os Livros com os Orixás: uma Entrevista com PJ Pereira

Um papo com o autor brasileiro PJ Pereira sobre o segundo volume da sua trilogia "Deuses de Dois Mundos" que traz elementos das religiões afro-brasileiras.

por Gabriel Leão, fotos por Helena Wolfenson
02 Janeiro 2015, 11:00am

Oxalá, Xangô, Oxossi, Oxum e Exu são nomes que causam reações fortes — seja nos que os odeiam, os amam ou mesmo nos que fingem não os conhecer. Muito conhecidos a partir dos terreiros brasileiros, os orixás figuram na série de livros "Deuses de Dois Mundos". A bem-sucedida trilogia está em seu segundo volume e tem trazido elementos das religiões afro-brasileiras para o público maior, interessado em mitologia e fantasia, e não apenas em religião.

O autor e publicitário brasileiro premiado em Cannes, PJ Pereira fala com a VICE sobre como é trabalhar com essas narrativas, a ligação de artistas com as religiões afro, as relações de poder envolvendo terreiros e, principalmente, como lidar com um mercado de fantasia acostumado a mitologias europeias. Livro do Silêncio e Livro da Traição são, respectivamente, o primeiro e o segundo título disponíveis no mercado. Pereira trabalha agora no Livro da Morte e já tem contrato com a produtora americana Alchemist, a mesma dos filmes Supremacia Bourne (2004) e Pacific Rim (2013) para cinema e outros produtos.

VICE: O que te inspirou para escrever sobre a mitologia dos orixás?
PJ Pereira: Foi o preconceito e o medo. Cresci numa família de classe média no Rio e tem poucas coisas que a classe média carioca tem mais medo do que a macumba. Um dia, quando mudei pra São Paulo, eu descobri que alguns amigos eram envolvidos com candomblé e eram gente boa mesmo, então falei: "Se esse cara tá envolvido com macumba, com coisa de orixá..." - que eu sempre ouvia que era coisa do demônio - "ou mentiram pra mim que esse negócio é ruim ou ele tá mentindo que é tão boa pessoa assim". Fiquei curioso, passei a ler mais a respeito e fui descobrindo uma mitologia tão bacana.

Um dia eu li um livro infantil pra entender como funciona o jogo de búzios. Como não estava entendendo fui perguntar ao meu amigo e foi assim:

- Vem cá eu entendi como funciona, mas e se não der nem aberto e nem fechado? E se eles não falarem nada?

- Não, mas eles falam!

- Mas e se não disser? E se os búzios caírem de lado ou fora da tábua e não tiver uma resposta? - joga de novo! – devolveu ele.

- E se todas vezes que caírem não der resposta...

A testa dele franziu e ele soltou:

- Aí é uma coisa perigosa e a pessoa que estiver jogando ficará apavorada...

Então perguntei:

- E se fosse com todo mundo ao mesmo tempo?

Não soube responder e decidi escrever uma história.

Nunca sentei e pensei "Eu vou escrever um livro sobre e inspirado na mitologia africana". Fui estudar, tinha uma ideia pra uma história e fui escrevendo até que virou um livro. Sabe a cena do Forrest Gump quando ele resolve correr e sai pelo país? Foi quase isso que aconteceu, mas com a escrita. Uma história que deveria ter sido curtinha, mas quando fui ver tinha 900 páginas.

Você já está com o segundo livro à venda. Houve até fila no lançamento. O retorno que você tem dos leitores, você vê sendo correspondido pela imprensa?
Uma fila gigante... vejo repercutir também muito entre blogueiros. Tenho 100 mil leitores no Facebook. Poucos autores têm qualquer coisa perto disso. É um livro com uma comunidade muito apaixonada inclusive até por quem ainda não leu. Quase 60% das pessoas que estão lá são gente do santo (ligados a religiões afro), quase 40% são leitores de fantasia de Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos, enquanto os mais novos destes vêm de Harry Potter e Percy Jackson. Mas tem uma surpresa, um percentual pequenininho de evangélicos curiosos.

Os evangélicos são um grupo que me surpreende bastante. Tem uns que são chatos e vão lá pregar dizendo que é coisa do demônio e que só existe um Deus... (respira) Gente, pelo amor de Deus, isso é uma obra de ficção pra começar e aqui não é lugar pra esse tipo de discussão! Por outro lado tem um grupo gigante que vem agradecer falando que esse livro é uma maneira de eles conhecerem mais sobre este universo sem sentir que estavam entrando numa pregação a convencê-los a ter uma fé que não tinham. "Não me sinto agredido, sendo evangelizado e não sinto medo. Tenho curiosidade e você me deu oportunidade de conhecer esse universo". Isso é muito bacana.

Você sente uma barreira da imprensa? Inclusive da especializada?
Sinceramente eu não me preocupo muito com isto. Nunca me preocupei com imprensa. Quem se interessa e gostar ótimo, quem não se interessa e não gostar, OK, faz sentido. São meus primeiros livros e eu mesmo não me sinto na obrigação de escrever o melhor livro do mundo. Escrevi a história que queria escrever e consegui centenas de milhares de pessoas muito apaixonadas pelo tema e pelo livro. Olha esse livro foi importante pra mim é o que importa. Quando vejo blogueiros escrevendo sobre me deixa feliz porque são leitores que compartilham as opiniões deles, as resenhas também e em qualquer site que olhe verá quatro pontos alguma coisa de estrelas dentro de cinco. As pessoas estão gostando. Estava conversando com o Arthur Veríssimo que tem o programa Na Fé, um cara que há 30 anos viaja o mundo para cobrir religião, e me falou: "Olha adorei o livro, é bacana, é livro 'pistache' porque você não consegue parar de ler e é muito bacana o conteúdo dele". Tem gente que lê um livro por dia e tem quem leia meus dois livros como os primeiros de sua vida. Tem elogio e carinho dos dois lados. Com a imprensa, sinceramente, nunca me preocupei e não é que me sinto maltratado, é que não escrevi para a imprensa. Escrevi para os leitores. Se a imprensa quiser me ajudar a colocar isto na frente deles, ótimo. Se não quiser... Assim como não escrevi para outros escritores. Tem uns que adoram e outros ignoram. Não me preocupo com isso, as pessoas que eu queria que lessem pra conhecer estão lendo.

No início, já se falava da produção de um filme pela produtora Alchemist, do filme Supremacia Bourne (2004), e de demais produtos em outras mídias. Como anda a negociação desses trabalhos?
Eles estão na primeira rodada de levantar fundos, trabalhando em roteiro. O processo de transformar um livro num filme e numa série é longo e leva muitos anos. Está andando bem.

Seria uma produção Brasil-EUA ou mais Brasil?
Estão considerando ambas as hipóteses. Meu chute é que será uma produção brasileira primeiro, e depois talvez vá para fora.

Por que procurou empresas internacionais e não nacionais?
Foram eles que me procuraram.

Como foi o primeiro contato?
Um dos sócios da Alchemist, o Maurício (Mota), que inclusive é neto do Nelson Rodrigues: temos amigos em comum. E um deles nos apresentou quando eu estava fazendo o pré-lançamento do primeiro livro e falou: "Gosto muito da sua ideia, conheço sua reputação, então vamos fazer um acordo aqui agora antes de lançar?". Sabia que isso iria ajudar no lançamento também e é uma pessoa bacana, então vai ficar legal.

Os orixás e a cultura brasileira são tidos como exóticos e chamam atenção no exterior. Seu trabalho tem repercutido fora do território nacional?
Está indo para dois países: Portugal e Nigéria. Na Nigéria isto é o contrário de exótico. Aliás, o exótico nisso é o livro ser brasileiro e não nigeriano. Estou curioso para saber a repercussão com o lançamento no final do ano ou início do próximo, em Portugal. Na Nigéria, sai na primeira metade do ano que vem.

O trabalho do fotógrafo Pierre Verger e os livros de Jorge Amado o influenciaram de alguma forma?
Depois que comecei a ler, sim. Li muita coisa de Verger – principalmente os antigos – também Roger Bastide, Reginaldo Prandi, Cleo Martins... Mais do que influências, são fontes. Me sinto muito mais influenciado pelo Nelson Rodrigues do que essa galera toda que me serviu de fonte. Para alguns personagens eu tenho uma perspectiva meio rodrigueana, principalmente no terceiro livro que é o Livro da Morte — é mais pesado. Meu editor disse: "Isso aqui tem uma cara de Nelson Rodrigues...". Os livros têm partes na África e em São Paulo. Durante muito tempo meu ritual antes de começar a parte paulistana era ler algumas crônicas de Nelson Rodrigues antes de começar a escrever. Não para copiar ou emular a voz, servia mais como aquecimento cerebral. Também trabalhei com Joseph Campbell, pesquisador de mitologias, para saber as semelhanças das histórias africanas com [as histórias de] outras partes do mundo e o que era próprio dela, além da Jornada do Herói.

Um dos passos da pesquisa foi conhecer o terreiro do Gantois, conhecido pela obra de Mãe Menininha e hoje conduzido por Mãe Carmem. A própria Mãe Carmem esteve no lançamento do seu livro na Bahia. Como foi essa experiência?
Foi uma surpresa... (se emociona) Eu não estava esperando lá no lançamento. É dessas coisas que se você é cético chama de coincidência e se acredita ri porque no mesmo shopping que lancei meu livro em Salvador tinha uma exposição de fotos da Mãe Menininha. Mãe Carmem estava há dias querendo ir, e um dia resolveu ir, chegou lá e ligou para o sobrinho dela e falou: "Tô aqui no shopping onde você está?"; "estou aqui também no lançamento do livro daquele meu amigo que lhe falei venha aqui". Ele saiu e depois voltou: "olha, ela tá ali embaixo". Parei um pouco, pedi para o pessoal na fila ter paciência, desci e falei com ela. Não a conhecia. Falamos um pouco... Foi uma surpresa monumental. Me sentia até culpado por desejar que aquilo acontecesse e até pensei: "muita areia para o meu caminhãozinho".

Fizeram algum trabalho no Gantois para o livro ter sucesso?
Fiz uma oferenda super singela para Iemanjá que este amigo (sobrinho de Mãe Carmem) falou: "vamos fazer no dia de Ogum por quê ele gosta de inventar moda. Vamos fazer a primeira oferenda para Iemanjá feita simultaneamente em dois hemisférios e dois oceanos?". Falei "vamos lá!". Marcamos contando com o fuso horário, ele fez em Salvador e eu em São Francisco (EUA). São Francisco é uma baía e eu moro numa área que tem uma praia bem pertinho. Fui pro mar e era meio fundo, fiz cestinha, botei as flores e tudo bonitinho como manda o figurino então ele explicou "Entra na água até o joelho, coloca a cestinha no mar, se concentra e pede pra Iemanjá abrir seus caminhos". Entrei no mar e ele não é só raso, é de lama e não areia. Comecei a andar e afundar. Vou morrer aqui na areia movediça e vai ser a manchete das manchetes: "macumbeiro vira oferenda!" [risos]. Fiquei de joelhos porque não dava pra andar mais e com a água acima do joelho parei. Só afundava. Então deixei a cestinha e voltei de quatro pra não afundar mais. Sentei depois e a maré começou a encher, levou 20 minutos pra chegar aonde eu tava. No fim eu consegui fazer na hora certa.

Na própria narrativa, o personagem central, o jornalista Newton Fernandes se vê envolto numa trama com pessoas poderosas. A umbanda, o candomblé e a quimbanda são religiões muito ligadas também a pessoas de poder? Encontrou esta relação em suas pesquisas ou vivência?
Já ouvi histórias que as religiões africanas, de modo geral, são ligadas ao pessoal mais pobre e aos muito ricos. Há uma lenda que boa parte dos terreiros do Brasil são financiados por banqueiros. As cerimônias e os rituais são muito caros. É um lugar onde o povo com dinheiro consegue fazer uma diferença então não tem muito na classe média, mas entre os ricos e mais pobres tem muito.

Muitas obras brasileiras já retrataram as religiões afro. Hoje essas religiões têm abertura com a população comum e poder público como no passado? Elas são aceitas como naquele período?
Não sei se era aceita naquela época. Antes era muito perseguida e teve o trabalho de vários artistas, como Jorge Amado e Caribé, que começaram a trazer esta cultura mais pro mainstream. Ajudaram muito a melhorar a situação. Elas não eram aceitas, mas tiveram mais entrada com o trabalho dos artistas. Tem um trabalho muito importante, especialmente do Opó Afonjá na Bahia, de trazer a intelectualidade, os artistas e as pessoas com voz para dentro do terreiro para que ajudassem a diminuir o preconceito. Foi um trabalho muito importante. Hoje acho que existe uma onda nova de perseguição, mas, ao invés de ser a perseguição oficial, é a perseguição "neopentecostal ignorante". Não são todos ignorantes - e, na verdade, vários são iluminados, mas a parte ignorante está com muita perseguição e isto inclusive no crime. Tem histórias que você encontra nas favelas cariocas dos que se chamam "guerreiros de Deus". Pessoas do crime organizado que se converteram pro evangelismo, mas continuam vendendo droga do mesmo jeito - mas agora com um discurso religioso entre um tiroteio e outro. Depois, vão aos terreiros e forçam os pais e mães de santo a irem embora à bala falando "Se você andar de branco com sua guia aqui eu vou te matar!". É muito irônica essa lógica que o povo de Jesus tá usando os traficantes pra afastar o povo do demônio das favelas.

Como você vê a presença de líderes religiosos no processo eleitoral brasileiro e na política diária?
Nada contra uma pessoa com religiosidade forte participar da política. Acho que todo mundo tem direito a ter sua religião, inclusive os políticos. Mas na hora que a agenda política desta pessoa passa a ser uma agenda religiosa, ela deveria parar e pensar se ela quer ser política ou religiosa. Você pode ser um sacerdote e um político ao mesmo tempo desde que você consiga fazer a separação, mas se você tentar fazer sua religião influenciar sua política ou sua política influenciar sua religião. É daí que saíram algumas das maiores atrocidades da humanidade.

Após a trilogia dos orixás haverá outras narrativas deste universo ou outro?
Agora estou mais focado em terminar o terceiro livro, mas tenho umas ideias para uma continuação, mas de histórias ligadas aos personagens que estou escrevendo, porém não necessariamente ligadas à mitologia africana. Tem uma personagem específica que quero explorar e transformar num livro como se fosse uma biografia.

Pode falar qual personagem?
É uma líder religiosa do segundo livro chamada Pilar. Tenho muita vontade de escrever a história da Pilar, tenho muita coisa. Estou escrevendo a parte da vida dela agora e penso "O que levou esta pessoa a este ponto?". Então é possível que eu acabe escrevendo para responder minhas próprias dúvidas.