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Drogas

RJ Aperta o Cerco Contra Cultivadores de Maconha

A operação da Polícia Federal denominada Do Leme ao Pontal; expôs uma suposta rede de tráfico que atendia a uma clientela extremamente VIP como diretores e atores famosos.

por Matias Maxx
05 Fevereiro 2015, 9:06pm

Todas as fotos são do Matias Maxx.

Na manhã desta quinta-feira (5) a Divisão de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal realizou no Rio de Janeiro a operação "Do Leme ao Pontal". Foram incursões a nove endereços atrás de suspeitos de integrarem uma rede de tráfico de maconha que supostamente atendia a uma clientela extremamente VIP como diretores e atores famosos. Seis jovens foram detidos — um deles foi liberado depois de assinar o termo circunstanciado, e cinco deles foram presos em flagrante por terem cultivos indoor de maconha.

Um dos detidos é o usuário medicinal Flávio Dilan, conhecido ativista do

Growroom, grupo que defende o cultivo próprio de maconha desde 2002. Em 2008 Flavio já havia sido detido junto com os ativistas William Lantelme Filho (Growroom), Raoni Mouchoque (Radio Legalize) e Renato Cinco (hoje Vereador pelo PSOL-RJ) por estar panfletando a Marcha da Maconha. Eles foram autuados por apologia às drogas, e o caso alimentou o debate que culminou em no julgamento no STF da ADPF 187 em 2011. Há alguns anos Flávio desenvolveu um quadro crônico de epilepsia e mudou-se para Petrópolis afim de levar uma vida mais saudável e poder cultivar seu próprio remédio. Ele foi preso hoje de manhã em sua casa, numa ação com auxílio de cachorros emprestados da Polícia Paulista, que foi documentada pela TV Globo. O inquérito de 52 páginas o liga a um dos integrantes da rede, acusando-o de ser um dos fornecedores.

Há seis meses um suposto traficante de drogas sintéticas chamado Vinicius começou a ser investigado. Uma série de escutas telefônicas e monitoramento de e-mails foi revelando à polícia essa suposta rede. Vinicius não foi encontrado hoje pela polícia.

Compareci à sede da PF na Praça Mauá, onde encontrei advogados pela reforma da política de drogas. Eles conseguiram conversar com o Flávio e o delegado responsável, então colhi algumas informações com eles. Um cheiro fortíssimo de maconha fresca adocicava os corredores sombrios do edifício. Ele vinha das plantas apreendidas que estavam trancadas a uns três quartos de distância dos corredores. Duas apreensões nos foram mostradas: uma tinha umas quinze plantas ainda em estado vegetativo e uma estufa para cultivo indoor. A outra apreesão era a do Flávio, com poucas plantas e um par de potes recheados de flores. O cão Yoshi não parava de enfiar a fuça nos recipientes.

Em seguida, o Delegado Fabio Taveira realizou uma entrevista coletiva em frente a uma mesa exibindo um refletor gigante e um duto de ventilação. Esses momentos costumam ser sempre um show de horror para a galera da mídia especializada, como eu. Num determinado momento um dos policiais que participou da apreensão disse que as folhas da planta são misturadas à droga para gerar mais lucros, em outro momento o delegado disse que o refletor servia para "secar" as plantas.

Delegado Fabio Taveira.

Lembra das aulas de ciências do primário? Então, para se desenvolver, qualquer planta necessita de água, terra, ar e luz. A prática do cultivo em interior ou indoor, portanto, consiste em simular essas necessidades internamente, longe dos olhos curiosos dos vizinhos, daí vem a necessidade dos dutos de ventilação e refletores.

Na maioria dos casos em que cultivadores de maconha são presos, raramente há investigação prévia, bastando uma denúncia e uma quantidade razoável de plantas para delegados tipificarem como tráfico, mesmo sem provas concretas de transações comerciais. Desde sexta-feira passada, a blogosfera de ativistas e cultivadores canábicos já estava em alerta por conta da prisão de dois casos isolados. No primeiro um professor universitário residente no Humaitá havia sido detido por PMs que ele mesmo chamou para averiguar um roubo em sua residência. Eles encontraram 50 plantas e o conduziram a delegacia mas o delegado entendeu que era para uso próprio. Em outro caso, no mesmo dia, na Alto da Boa Vista, policiais atendendo a uma denúncia de uma ex-cônjuge, encontraram 30 pés e prenderam seu proprietário, que só foi liberado ontem.

Os detidos devem ser conduzidos ao sistema penitenciário ainda hoje.