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Coluna do Greg Palast

Como Bukowski Me Ensinou a Não Me Masturbar com o Meu Próprio Umbigo

Bukowski era um poeta raivoso — raivoso quando mijei no seu canteiro de flores porque não conseguia mais segurar. Quando digo poeta, eram só coisas que o Bukowski “publicava” por conta própria.
25 Março 2013, 3:00pm

Greg Palast é um autor de best-sellers lançados pelo New York Times e um destemido repórter investigativo que trabalha para a BBC Television, a _Newsnight _e o The Guardian_. Palast mastiga e cospe os ricos. Veja as matérias e filmes dele no www.GregPalast.com, onde você também pode mandar para ele aqueles seus documentos carimbados como “confidenciais”._

Meu melhor amigo Ron tinha esse fungo na língua que ele raspava a cada 15 minutos com uma faca de plástico e isso deixava a mãe dele louca. Então, um carteiro chamado Charles Bukowski deixou que ele ficasse na casa dele na De Longpre Avenue, no distrito de lojas de bebidas de Los Angeles, perto da casa da minha avó.

Bukowski era um poeta raivoso — raivoso quando mijei no seu canteiro de flores porque não conseguia mais segurar. Quando digo poeta, eram só coisas que o Bukowski “publicava” por conta própria usando uma daquelas máquinas velhas onde você digita num papel azul grudento, coloca isso num rolo e imprime uma página por vez quando gira a manivela.

Ron e eu éramos poetas, apesar de nem termos um mimeógrafo. A gente se achava pra caralho.

Bukowski contou uma vez: “Essa groupie apareceu aqui e nós bebemos, depois eu fiquei por cima dela e eu até estava me divertindo, dando duro na coisa, mas ela estava com uma expressão horrível no rosto, como se estivesse cheia de nojo”.

Bukowski disse: “Acontece que, quando olhei pra baixo, caralho, na verdade eu tinha enfiado meu pinto na minha barrigona de cerveja”.

Entrando e saindo daquele jeito. Coitado.

Essa foi boa, uma de muitas. E eu tinha me esquecido disso até uns vinte anos depois, quando tive a minha Crise de Meia-idade número 12.

Naquela época eu era um investigador, um detetive. Mas os maus, os ricos e os cruéis sempre davam um jeito de escapar das acusações de fraude, extorsão ou qualquer coisa que fosse pela qual eu tentasse pegá-los — e com tempo de sobra pra fazer suas reservas no Nobu.

E eu pensei: “Foda-se”.

De repente me lembrei que eu deveria ser um poeta.

Charles Bukowski falando sobre o amor.

Então fui a um seminário de poesia — dá pra acreditar? — com o Allen Ginsberg, que vivia aqui em Nova York num lugar escroto perto da Avenue D, no Lower East Side, perto do meu escritório. Ginsberg era o ser humano mais triste que já conheci — um monumento quebrado e vazio, fechado pra reformas que nunca aconteceriam. Ginsberg lia pra nós poemas muito ruins do Jack Kerouac e começava a chorar. Diferente do Kerouac, Ginsberg perdeu a chance de morrer jovem.

Me lembro que o Ginsberg deu uma festa, mas esqueceu de comprar comida e só o que tinha na geladeira era carne enlatada e um pote de mostarda. E ele convidou um monte de pessoas. Que babaca. E eu pensei: “Triste”.

E foi assim que me tornei jornalista.

Mostrei meus versos pro Ginsberg e perguntei o que ele achava, e ele disse que eu deveria ser jornalista.

Bom, acabei perdendo o contato com o Ron, que é o que a gente faz quando cresce: perde um monte de coisa — Ron, Bukowski, Ginsberg, poemas, aquela chave da igreja (Não, não era da porta de uma igreja de verdade. Essa era a época em que o álcool exigia esforço e você precisava de um ferramenta de metal afiada pra abrir uma lata de cerveja. Eu não consegui encontrar a chave da igreja pra abrir uma lata de Bud. Bukowski disse: “Use sua alma”.).

Então, sou um jornalista investigativo e prometo voltar a isso na semana que vem — com documentos internos sobre a Grécia, o euro e outros fatos fecais que tenho levantado dos arquivos secretos dos donos do mundo.

De qualquer maneira, Ron se perdeu na bebida e na agulha. Husky Rhea, minha namorada na época, está perdida também. Na última mensagem que ela me mandou, estava morando em seu carro em San Diego. Eu disse a ela que não me importava. Eu me importava, mas as coisas com que eu me importava não iam ajudá-la, de todo jeito.

Allen Ginsberg, foto de Michiel Hendryckx.

Eu falei do Bukowski porque ele atrasou a perda da minha virgindade. Eu era quase psicoticamente afeiçoado ao meu cabaço (o que não era fácil naquela época, na Califórnia, na era do Amor Livre, cheio de drogas e putarias).

Decidi que a Primeira Vez tinha que ser com a Husky Rhea porque, bom, eu amava ela. Provavelmente ainda amo. Ou se ela tiver morrido mesmo, eu deveria dizer “amava”.

Então, o que aconteceu com a minha virgindade foi que eu estava prestes a sair de Los Angeles pra estudar em Chicago e eu disse pra Husky Rhea: “Está tudo certo. Bukowski disse que podemos ficar na casa dele esta noite”.

Todo aquele treino com o tubo de vaselina ia ser colocado à prova.

Mas ela disse: “De jeito nenhum! Nunca vou fazer NADA numa casa com Aquele Homem por perto! Aquela cara, não consigo olhar pr'aquela cara! Bukowski é o HOMEM MAIS FEIO DO MUNDO!”.

Acabamos passando aquela noite numa colcha no quintal de algum cafetão babaca que o Ron conhecia. E, ao amanhecer, eu tinha me apaixonado tantas vezes que a memória não registrou.

Eu nunca publiquei aquele livro de poesia. Bukowski sabia que eu não o faria.

Foi durante aquela Crise da Meia-idade número 12 em particular que finalmente entendi. Era isso, entendi o que o Bukowski estava nos dizendo, pra mim e pro Ron. Aquela groupie do Bukowski nunca existiu. Aquilo era bobagem. Mas ele teve que usar um tipo de código porque sabia que éramos muito jovens e muito cheios da nossa falsa genialidade pra entender.

Ele estava nos dizendo o seguinte: às vezes você acha que está fazendo amor com A Musa, mas só está se masturbando com sua própria barriga.

Eu entendo isso agora. Aposto que você também.

Desculpe, Buk, eu nunca tive a chance de te agradecer por ser um homem tão lindo.

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