Falamos com Billy Corben e Dada 5000 Sobre as Lutas de Rua Ilegais nos Subúrbios de Miami

O último filme do diretor Billy Corben, Dawg Fight, mostra a liga de luta ilegal organizada pelo protagonista Dada 5000, o líder das lutas de quintal de Miami.

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abr 9 2015, 10:30am

Stills da produção de Dawg Fight, cortesia de Billy Corben.

O diretor Billy Corben se interessou pelo brutal circuito de luta de rua de Miami depois de ler um artigo do Miami New Times sobre essa cena em 2008. Corben, que já contribuiu para a VICE e está por trás de filmes como Cocaine Cowboys e Square Grouper, ficou tão envolvido com os personagens e a subcultura da liga de luta underground, liderada por Dhafir "Dada 5000" Harris, que filmou os lutadores por um ano e meio e, recentemente, transformou a filmagem numa obra chamada Dawg Fight.

A visão em tom sépia de Dawg Figth, mostrando os lutadores amadores se socando em West Perrine, é provavelmente o estilo brutal mais legal que já apareceu. O filme tem uma resolução melhor e é mais barulhento e sangrento que qualquer uma das filmagens do YouTube dos mesmos eventos. As lutas são de revirar o estômago, mas a película suga o espectador para a batalha dos participantes, que estão presos no purgatório suburbano de West Perrine, Flórida.

A produção atrai os fãs típicos de lutas que gostam de ação – caras são realmente nocauteados, punhos são quebrados –, mas também mostra as famílias destruídas pela violência. Corben queria contar a história de algo que vai além de um show bizarro da Flórida. Vemos alguns lutadores se tornarem profissionais, enquanto outros não conseguem escapar do círculo de violência onde nasceram.

A VICE conversou com Billy Corben e Dada 5000 sobre as lutas, os lutadores e o filme, lançado pelo site Rakontur, de Corben, e que estará disponível no Netflix em maio.

VICE: Desde que você terminou de filmar Dawg Fight, Dada realizou mais algum evento?
Billy Corben: Documentamos o que foi o fim das lutas organizadas regulares de quintal. Não estou orgulhoso disso: estávamos filmando lá e outras pessoas estavam vendo nossa filmagem. Nós contribuímos para o desaparecimento desse mundo ilegal. Não era nossa intenção, mas foi isso que aconteceu. Depois que paramos de filmar, Dada fez alguns eventos aqui e ali, mas não com a mesma frequência de antes. No ano passado, ele tentou fazer um evento e recebeu uma ordem judicial, o que o colocou numa encruzilhada. Ele tinha uma escolha: voltar para o underground e tornar isso ainda mais secreto, ou tentar algo legítimo. Ele vai fazer um evento em junho. Parece loucura. Eles acharam um jeito de preservar a natureza pirata da luta de quintal, mas tornaram isso legítimo com treinamento e ajuda médica disponível para os lutadores.

Você gostava de assistir às lutas num nível pessoal?
Eu estava um pouco mais interessado [na história] do que apenas em ver uma rinha de galo com pessoas. Eu estava envolvido de um ponto de vista cinematográfico e dramático. Eu estava interessado nas histórias e nos caras. É difícil, porque é algo realmente brutal. Lembro-me de um dia em que estávamos filmando e, do nada, um cara quebrou o pulso. Eles não usam luvas. Aí apareceu um médico. Eu não sabia quem ele era e o que ele estava fazendo lá. Achei que ele era um ator pornô indo filmar para o Bang Bros. Isso seria tão Miami, certo? Acho que ele era só um espectador que também era médico, porque nunca mais vi esse cara de novo.

É uma coisa ver toda a brutalidade e assistir a Dada pesando esses caras na balança da mãe dele. Todo mundo ali está disposto a arriscar. Há uma demografia na nossa comunidade que acredita que lutar é a melhor chance. Há uma tragédia inerente nisso.

Você vê o Dada como um cara puramente benevolente ou como alguém que explora esses lutadores?
Algo no meio disso. Ele não ganhou um centavo com essas lutas. Não acho que ele tem necessariamente orgulho disso. Foi a mãe dele que revelou que ele não ficou com um dólar. Ele não estava tirando dinheiro do bolso dos lutadores. Talvez até para o prejuízo de sua própria família. Acho que há algo inquestionavelmente bom no caráter dele. Ele teve oportunidades que deliberadamente não explorou.

Há uma demografia na nossa comunidade que acredita que lutar é a melhor chance. Há uma tragédia inerente nisso.

Por que Miami é o tipo de lugar onde esse tipo de coisa pode acontecer?
Temos a segunda maior desigualdade de renda do país. O segundo maior uso de cupons de alimentos dos EUA. A Miami de hoje é a América de amanhã. Você quer saber que desafios e calamidades vão acontecer na Flórida? Você vai ver isso aqui: a imigração, as drogas, a fraude do Medicare e o aumento do nível do mar, desigualdade de renda, fraude de imóveis. Somos o canário na mina de carvão. Somos a futura Cúpula do Trovão dos EUA. Infelizmente, o futuro vai ser mais Waterworld. Miami é onde as pessoas tiram férias da prestação de contas. Por que nosso governo seria diferente?

Dada 5000.

Também tive oportunidade de falar com Dada 5000, o líder meio P. T. Barnum, meio Don King das lutas de quintal de Miami e protagonista de Dawg Fight. Agora, ele está agendando uma festa num navio de cruzeiro no Oceano Atlântico no qual os lutadores vão se esmurrar num ringue cercado em forma de diamante. Ele me engambelou totalmente nessa ligação e implorou que eu colocasse o telefone dele para que os fãs pudessem ligar.

VICE: O que você achou do filme?
Dada 5000: Ele mostrou um lado diferente de Miami, um lado de que eles não falam, o lado negro. É real, cru e autêntico... ele tem certas coisas com que as pessoas não vão se identificar, porque elas não são desse caminho. Elas não entendem, não concordam, não veem que isso é relevante. Mas prefiro ter esses caras no meu quintal, tentando ganhar um dinheiro honesto, do que ficar esperando no seu quintal para te esfaquear. O crédito vai para o Billy [Corben]. Ele não estava na boca do leão para esse projeto, ele estava na barriga do leão.

É disso que esses caras precisam. Só estou trazendo para fora algo que está neles e que eles não podem trazer sozinhos.

Você acha que as pessoas que assistem a esses vídeos no YouTube e que vão ver essas lutas estão explorando os lutadores?
Não vou dizer que não há racismo ou preconceito ali. Os caras sabem no que estão se metendo. Eles estão procurando uma saída. Eles veem as câmeras. Eles pensam: "Se eu posso fazer uma coisa bem o suficiente e alguém lá puder ver meu talento, alguém vai ligar e me dar uma chance. Vou criar um caminho para mim mesmo".

O que o Condado de Dade devia fazer para melhorar a vida das pessoas em West Perrine?
Dar a esses indivíduos um sistema. Ter programas para ajudar esses caras a serem independentes. Criar um sistema com eles. Fazer parcerias com empregadores dispostos a dar um emprego para esses caras. Trabalhar lado a lado com os trabalhadores. Esses caras adorariam trabalhar. Eles não têm um diploma do ensino médio. Eles não têm educação. Precisamos reduzir o desemprego. Isso vai motivar a comunidade, gerar dinheiro para a comunidade e a comunidade vai prosperar.

Você tem muitos papéis: promotor, juiz, empresário, booker. Você não tem medo de que essas responsabilidades possam entrar em conflito?
É um dom, certo? Os lutadores são um aspecto disso. Eu sou outro aspecto disso. Se eu não estivesse gritando daquele jeito, isso não seria tão emocionante quanto é. Você me vê pulando com essa energia. É disso que esses caras precisam. Só estou trazendo para fora algo que está neles e que eles não podem trazer sozinhos.

Tradução: Marina Schnoor

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